Centro de Documentação e Memória (CDM)
Coleção Princípios - EUA penalizam o mundo com crise financeira

A crise dos EUA, os emergentes e o BRASIL

Dilermando Toni* Publicado em 01.04.2008

A discussão sobre as conseqüências da crise pela qual passa a economia dos EUA sobre os chamados países emergentes tem despertado interesse generalizado. Um setor do governo brasileiro procura resguardar o interesse nacional, precavendo a economia dos efeitos da recessão norte-americana. Mas o setor conservador, muito pelo contrário.

A verdade é que poucos se arriscam no terreno das opiniões peremptórias sobre a crise e o nível de decoupling1. A prudência indica que se leve em conta as novidades na cena econômica internacional e, daí, se procure descobrir as tendências de desenvolvimento do quadro. Neste sentido, há dois fatores emoldurando a crise, que precisam ser devidamente considerados. O primeiro deles é o fenômeno da financeirização neoliberal2 e, o segundo, a nova situação da economia mundial, especialmente dos países em desenvolvimento, fruto da dinâmica contraditória do relacionamento dos países centrais com os países periféricos. Ao lado disto, deve-se examinar a própria crise, sua profundidade e duração, considerada pelo próprio Federal Reserve como severa e demorada, e pelo FMI como ampla, profunda e prolongada.

Na ordem econômica imperialista contemporânea o mundo das finanças – tão velho quanto o próprio capitalismo – assume o papel central e dominante, o que não é o mesmo que sua exacerbação, submetendo a economia real, através das seguintes novidades:

1) os seus volumes gigantescos, suas novas instituições (várias das quais não bancárias), sua envergadura e dinâmica mundializadas;
2) o poder de domínio da oligarquia financeira (fração da burguesia), baseada nos EUA;
3) a velocidade de suas operações e os moderníssimos instrumentos telemáticos de que dispõe, a nova configuração das Bolsas de Valores e de mercados futuros;
4) a diversidade e complexa modalidade de seus papéis (incluindo derivativos e hedge funds);
5) a moeda dominante, o dólar norte-americano, flexível e tendo como lastro os papéis da dívida pública dos EUA, portanto, um inédito padrão monetário, cuja posição dominante vai aos poucos se enfraquecendo;
6) a tendência característica para formação de bolhas expansivas, que embutem especulações de toda ordem e moldam as crises financeiras como a atual;
7) a promíscua relação com os governos pela via de um novo papel dos bancos centrais que, além de instrumentos de aplicação rígida da política macroeconômica ortodoxa/monetarista, são emprestadores de última instância que não podem deixar quebrar os credores das gigantescas dívidas públicas de seus Estados nacionais;
8) as próprias avaliações dos riscos e securitização dos mesmos;
9) a sua instabilidade crescente advinda das expectativas de lucros em estratosféricas apostas de realização futura de mais-valia;
10) as exigências à liberalização, à desregulamentação dos mercados financeiros para que o capital possa circular o mais rápida e livremente possível; e
11) a imposição das privatizações e da chamada flexibilização das relações de trabalho, a fim de aumentar a massa e a taxa de mais-valia para os monopólios privados.

O mercado de capitais mundial – ações, títulos das dívidas públicas e de empresas, ou seja, excluídos os derivativos – atinge hoje US$ 150 trilhões, enquanto o PIB mundial é de aproximadamente US$ 60 trilhões, segundo o banco mundial. A base principal deste sistema corresponde aos EUA, que têm a maior economia do mundo e um portentoso e hegemônico mercado de capitais de US$ 48 trilhões. A dinâmica de funcionamento do capitalismo atual trouxe consigo uma nova situação na economia mundial, de tendências contraditórias e crises com novas características. As repercussões deste quadro na esfera geopolítica apontam para um mundo em transição, rumo à multipolaridade, de lento declínio do império dos EUA e de rápida ascensão da China socialista.

Sob dominação das finanças mundializadas, as interpenetrações e interdependências entre os países são muito maiores. Pode-se falar em uma nova divisão internacional do trabalho, na qual o centro dinâmico da economia se desloca progressivamente para a Ásia, o comércio mundial cresce mais rapidamente que a produção, e a produção tem alto nível de internacionalização. Os EUA convivem com enormes desequilíbrios estruturais que vão colocando-os como o maior devedor do mundo, cuja economia apresenta alto índice de parasitismo. A compensação dos déficits pela via financeira e sua contrapartida, o crescimento das reservas internacionais de vários países em desenvolvimento, aumentam este entrelaça mento econômico. Por este prisma, a crise financeira dos EUA tende a contagiar as finanças, o comércio e a produção mundiais3. Quanto às finanças, as turbulências nas Bolsas de Valores se fazem sentir global mente, mas é no mercado financeiro europeu onde se dão os maiores danos. Os mercados de crédito em crise, nos EUA e na Europa, levam os problemas pa ra a economia real. Tanto que na área do Euro não se espera para este ano um “crescimento” maior que 1,6%, registrando forte desaceleração. Na Itália e na Espanha a situação é mais grave. Por outro lado, uma queda na demanda interna dos EUA pode trazer também algum impacto à economia da China, pois estes países são dois grandes parceiros comerciais. O que pode acontecer também com outros países exportadores asiáticos. No conjunto, o México e o Canadá pelo grau de integração econômica com os EUA, devem possivelmente ser os países mais atingidos, onde não se pode descartar a hipótese de recessão. Acontece que o desenvolvimento desigual do capitalismo e deste sistema com o socialismo possibilitou o aparecimento de países medianamente desenvolvidos na periferia, cujas economias já respondem por aproximadamente 50% do PIB mundial, o que, pelo menos genericamente, os coloca em melhores condições para enfrentar os efeitos da crise dos EUA. Neste conjunto destacam-se Brasil, Rússia, Índia e China Socialista, alcunhados de BRICs, que desempenham papel de importância crescente na cena política e econômica contemporâneas.

Segundo o banco mundial no fim de 2005 comparando os dez países de maior PIB do mundo, a China aparecia em segundo lugar, a Índia em quinto a Federação Russa em oitavo e o Brasil em décimo. As populações chinesa e indiana se equivalem e, soma das, ficam próximas dos 2,5 bilhões de habitantes, cerca de 2/5 do total mundial, aos quais se somam aproximadamente outras 350 milhões de pessoas das populações do Brasil e da Rússia. Parcela considerável destes contingentes está experimentando melhoria em seus rendimentos, compondo um setor médio de peso razoável, o que criou uma outra dinâmica para a demanda doméstica destes países. O desenvolvimento do consumo interno de massas diminui a vulnerabilidade diante dos abalos externos. Porém, o fator mais importante a ser considera do como defesa diante de um possível contágio da crise dos EUA é o crescimento do consumo produtivo nos BRICs, sobretudo na China socialista que se transforma rapidamente em poderosa locomotiva da economia mundial. Lá são consumidos metade de toda a produção de cimento no mundo, um ter ço do aço e um quarto do alumínio. O consumo de petróleo em 2007 foi 35 vezes maior que em 1999, a de cobre 23 vezes. Os gráficos e tabelas relativos à produção de aço mundial4 são bem ilustrativos. A produção chinesa de aço em fevereiro do ano corrente (38,9 milhões de toneladas métricas) foi maior do que toda a produção brasileira em 2007 (33,8 mmt). Com uma taxa de investimento próxima a 40% de seu PIB, a economia chinesa cresceu 11,5% em 2007 e tem previsão de crescer cerca de 10% em 2008 e 2009. O nível elevado de demanda chinesa fato verdadeiramente novo na situação da economia mundial pode manter a economia da periferia funcionando razoavelmente bem por algum tempo. Preços eleva dos de commodities de matérias-primas e alimentos, de energia, particularmente do petróleo, dão fôlego à economia de vários países africanos, sul-americanos e asiáticos. Há previsão de crescimento sustentado para todos estes continentes. Para a América Latina prevê-se um crescimento de 4,5% tanto para 2008 quanto para 2009. As constatações e projeções do FMI divulgadas no Panorama da Economia Mundial de abril de 20085 também sustentam uma possibilidade menor de contágio, nos países emergentes e em desenvolvimento, embora alertando para o fato de, no mundo de hoje, não haver países ilhados economicamente. A tabela 2 coloca o crescimento real em 2006 e 2007 e faz projeções para 2008 e 2009.

O surgimento de países medianamente desenvolvidos tem possibilitado uma nova relação comercial no mundo contemporâneo. Desta maneira crescem o comércio Sul-Sul e o comércio regional. O Brasil, por exemplo, situa-se como um grande exportador de minério de ferro e de soja para a China que, por sua vez, já é o segundo maior exportador de mercadorias para o Brasil. Em toda a Ásia, na América do Sul e na África vão surgindo inúmeras formas de parcerias comerciais, de integração de países de uma mesma região. Também por essas novas formas de inserção soberana, contra-hegemônicas, as vulnerabilidades menores se explicam.

O caso brasileiro

O momento econômico pelo qual passa o país é razoavelmente bom, de relativa estabilidade. O crescimento reapareceu mais robusto no ano passado e poderá manter a mesma performance em 2008, com base no crescimento dos investimentos – cuja taxa, medida pela formação bruta de capital fixo em relação ao PIB, situou-se em cerca de 18% em 2007 – o que se refletiu em aumentos das produções industrial e agropecuária. Para este ano espera-se uma safra agrícola de mais de 140 milhões de toneladas de grãos. As reservas beiram os US$ 200 bilhões. Chega-se a dizer que o país tem posição credora, mesmo levando-se em conta toda a dívida externa privada, muito maior que a pública. A inflação apresenta índices moderados. Há crescimento significativo no consumo a partir dos aumentos reais do salário-mínimo, do crescimento da massa salarial, de maiores facilidades de crédito – onde o sistema público se destaca – e mesmo dos programas sociais do governo. O país tem atraído um bom volume de investimentos estrangeiros diretos. Esta situação favorável diminui o perigo de um contágio imediato e profundo da crise americana aqui no Brasil, como era comum acontecer em situações anteriores assemelhadas.

De outra parte, a vulnerabilidade continua a existir e pode crescer, sobretudo se a política monetária, de responsabilidade do Banco Central do Brasil, adotada pelo governo brasileiro, aprofundar-se. Já há algum tempo o Copom/BC interrompeu a trajetória de queda da taxa Selic estabilizando-a em 11,25% aa. Mais grave é o fato de que o BC elevou o taxa de juros em 0,5 na reunião de meados de abril, partindo da avaliação de que haveria pressões inflacionárias indesejáveis, por causa do aumento do consumo sem a devida contrapartida da produção/oferta. Segundo o ponto de vista ortodoxo-monetarista do BC, estas pressões deve riam ser abafadas com a elevação do preço do dinheiro, desconsiderando números que mostram que a indústria ainda não está trabalhando no limite de sua capacidade instalada.

As taxas de juros brasileiras se situam entre as maiores do mundo, o que tem provocado uma avalanche de capital especulativo de curto prazo em direção ao Brasil. Especula-se arbitrando o diferencial entre as taxas de juros externas baixas e as internas altas, numa ponta (operações conhecidas como carry trade com dinheiro proveniente do Japão e da Suíça), e, noutra, aposta-se na valorização do Real ganhando-se com a compra de papéis garantidos pelos contratos de swap cambial reverso6. O governo intervem, comprando divisa norte-americana com o objetivo de diminuir a velocidade da valorização do Real. Isto tem propiciado o aumento das reservas internacionais, mas ao mesmo tempo provoca efeitos colaterais danosos. O primeiro e mais importante deles é o reaparecimento do déficit em transações correntes, o que coloca o país em situação diferente dos outros integran tes do BRICs. O câmbio valorizado tem levado à diminuição dos superávits comerciais.

Agora as exportações crescem em ritmo muito menor do que o das importações, resultando em um saldo comercial, nos dois primeiros meses do ano em curso, 67,1% menor que o de janeiro e fevereiro de 2007. Para 2008 espera-se um superávit comercial de apenas US$ 10 bilhões. Soma-se a isto o crescimento nas remessas líquidas nas contas de serviços e rendas (remessa de lucros e dividendos)

Estas passaram de US$ 37,1 bilhões em 2006 para US$ 42,6 bilhões em 2007. Em janeiro e fevereiro do ano corrente o crescimento em relação às despesas de serviços e rendas foi de 39,5% e 64,3%, respectivamente, comparado ao mesmo período do ano passado. Dessa forma, só nos dois primeiros dois meses de 2008, o déficit em conta corrente atingiu US$ 6,3 bilhões (veja tabela)7. Oficialmente o BC projeta um déficit, para o final do ano, por volta de 12 bilhões de dólares. Há, porém, quem preveja que ele pode alcançar os US$ 20 bilhões, sem perspectiva visível de reversão em médio prazo. O que tem possibilitado fechar esta conta sem maiores percalços são as significativas entradas de capital estrangeiro de investimento direto. Seria uma tremenda ingenuidade supor que com a crise em andamento vão se colocar estas mesmas facilidades de financiamento. Por isto, há um fundado temor de que o Brasil – a persistir e se aprofundar a política monetária adotada pelo Banco Central – poderá voltar a ser bastante vulnerável aos efeitos deletérios da crise norte-americana.

A principal lição que esta crise oferece aos países em desenvolvimento talvez seja a de que vale a pena prosseguir na busca de seus próprios caminhos, sem aceitar a ingerência das grandes potências, cujo modelo neoliberal só aprofunda as desigualdades e assimetrias. A alternativa é fortalecer e ampliar as relações mútuas com o objetivo de promover os desenvolvimentos soberanos, democráticos e em benefício dos povos.

Dilermando Toni é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB.

Notas e referências bibliográficas
1 Palavra em inglês com a qual os economistas discutem a possibilidade de um maior ou menor descolamento das economias periféricas em relação à crise dos EUA.
2 A gênese da análise teórica dos processos agora sendo chamados de financeirização está no que Marx falou sobre o capital como mercadoria, sob categoria de capital monetário de empréstimos, portador de juros e dividendos, que envolve o sistema de crédito e o mercado acionário, tem características de ficticiedade, especulação e parasitismo. Autonomiza-se até certo ponto, relativamente à economia real, a partir de determinado volume e sofisticação com que se dá a distinção entre ele e o capital empresarial (industrial e comercial). Ver diversos capítulos do Livro III d’ O Capital – “O Processo Global da Produção Capitalista” – de K. Marx, tais como, no tomo 1, XXIII – “Juro e ganho empresarial”; XXIV – “Alienação da relação-capital na forma do capital portador de juros”; XXV – “Crédito e capital fictício”; no tomo 2, XXIX – “Partes constitutivas do capital bancário”; XXX, XXXI e XXXII, “Capital monetário e capital real”, I, II e III. Ver ainda os pontos 1 a 4 dos “Aditamentos” do volume III das “Teorias da Mais-Valia: A renda (revenue) e suas fontes. A economia vulgar”.
3 Em certa medida as características da crise atual se parecem com várias outras ocorridas na história do capitalismo. Basta ver, por exemplo, como Marx e Engels descreveram a crise que sucedeu aos anos de prosperidade industrial de 1843 a 1845, fatos ocorridos há mais de 150 anos: “Como ocorre sempre, a prosperidade fomentou muito rapidamente a especulação. A especulação aparece, em geral, nos períodos em que a superprodução já alcançou sua plenitude. Fornece a esta seus canais momentâneos de desafogo, acelerando exatamente com isto a irrupção da crise e aumentando sua pujança. A crise estala primeiro no campo da especulação e só depois se estende à produção. Olhando superficialmente parece, pois, como se a causa da crise fosse não a superprodução, e sim a super-especulação, que, por sua vez, não é mais que um sintoma daquela”. Esta dedução se deu com base nas observações da gigantesca expansão do sistema ferroviário inglês, da constante elevação dos preços das ações e do “pânico geral” que se estabeleceu na Inglaterra e depois nos mercados acionários do continente. “Em Paris, Hamburgo, Frankfurt e Amsterdam se efetuavam vendas forçosas a preços muito baixos, que provocavam a bancarrota de banqueiros e corretores de Bolsa”, diziam Marx e Engels em “De Mayo a Octubre [de 1850]”, in Escritos Econômicos Vários.
4 World crude steel output increases by 7,5% in 2007, www.worldsteel.org 23/jan/2008.
5 IMF predicts slower world growth amid serious market crisis, www.imf.org 9/abril/2008.
6 Denominação dada a operações conduzidas pelo Banco Central que têm como objetivo enxugar o excesso de dólares no mercado futuro. As instituições que adquirem estes contratos recebem em troca a variação do dólar no período, enquanto o BC recebe em troca a variação dos juros no período de validade do contrato.
7 Banco Central do Brasil, Relatório da Inflação, março de 2008.

EDIÇÃO 95, ABR/MAI, 2008, PÁGINAS 56, 57, 58, 59, 60, 61