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Nossa Política — Sobre o Reatamento de Relações Com a URSS

Luiz Carlos Prestes Publicado em 15.03.2012

ERGUNTA — Acredita que seja agora possível conseguir do governo o reatamento de relações comerciais e diplomáticas do Brasil com a União Soviética?

RESPOSTA — Diante do descalabro a que chegou o comércio externo do país, o reatamento de relações comerciais com a União Soviética e demais países do campo da democracia e do socialismo já é agora medida que se impõe e que o próprio governo do sr. Vargas não poderá retardar sem graves prejuízos. O domínio absoluto dos monopólios americanos em nosso comércio com o exterior acarreta prejuízos de vulto, que tendem a crescer, assim como a diminuição progressiva de nossas trocas com o exterior. Quando, em 1947, cumprindo ordens de Truman, o tirano Dutra rompeu as relações diplomáticas e comerciais de nosso país com a União Soviética, muita gente pensava que estivesse próxima uma nova guerra mundial e que pudesse à custa do sangue e da vida dos povos fazer bons negócios e obter grandes lucros. Mas a guerra mundial não veio e toda a política econômica que se baseava nesses cálculos criminosos entrou em bancarrota. O comércio externo do Brasil entrou em declínio catastrófico, as dívidas comerciais do país no estrangeiro assumiram proporções jamais conhecidas, os nossos produtos de exportação acumulam-se nos portos, seus preços tendem a baixar no mercado. mundial e, simultaneamente, somos obrigados a pagar preços cada vez mais elevados pelos artigos manufaturados e matérias-primas que importamos. Não mantemos relações com a União Soviética, mas os monopólios e comerciantes ingleses e americanos conseguem enormes lucros com a venda de muitos de nossos produtos aos diversos países do campo da democracia e do socialismo, especialmente à URSS e à China Popular. É evidente que semelhante política não pode continuar. Agora, já são os próprios fazendeiros e capitalistas que exigem do governo as medidas práticas que lhes permitam entrar em relações comerciais diretas com a URSS, com a China Popular, com todos os países europeus da Democracia Popular e com a Alemanha Oriental. Os acontecimentos comprovam, assim, mais uma vez, que a razão estava com os comunistas e que quando nosso Partido levanta uma palavra de ordem, ao contrário do que dizem nossos inimigos, não estamos fazendo mera agitação ou propaganda ideológica, mas lutando fundamentalmente pelos supremos interesses da nação. Em fevereiro de 1952, já dizíamos em Informe ao Comitê Nacional de nosso Partido, e amplamente divulgado: "As relações comerciais com a URSS facilitarão o desenvolvimento da indústria nacional e abrirão um vasto mercado para toda a produção nacional, cada vez mais ameaçada pela economia de guerra dos Estados-Unidos". É justamente isto que dia a dia maior número de brasileiros começa a compreender e que obrigará a modificação da criminosa política de isolamento e de total submissão aos Estados Unidos no terreno do comércio externo e das relações internacionais.

PERGUNTA — Quais as vantagens, para o nosso país, do reatamento das relações com a União Soviética?

RESPOSTA — A União Soviética com a China Popular e demais países do campo da democracia e do socialismo representam, nos dias de hoje, um imenso mercado consumidor com mais de 800 milhões de habitantes. Ao contrário do que acontece no mundo capitalista, que vive sob a ameaça permanente de crise econômica e sufocado pela economia de guerra dos Estados Unidos, no mundo do socialismo o progresso é evidente e as condições de vida das grandes massas trabalhadoras melhoram com rapidez e em ritmo acelerado. Não são poucos os brasileiros que nos últimos anos já viram de perto esse progresso e proclamaram francamente sua admiração e entusiasmo. Bastaria citar os industriais, comerciantes e fazendeiros brasileiros que participaram da Conferência Econômica de Moscou de 1952. Ainda agora, um homem insuspeito como o sr. João Alberto, que acaba de visitar a Hungria, não pôde deixar de reconhecer que os comunistas, quando no poder, sabem efetivamente construir. Mas, para não falarmos senão da União Soviética, basta compreender o que significam as grandiosas obras do comunismo e conhecer o Plano Qüinqüenal que está sendo realizado, para se ter uma idéia da excepcional capacidade de consumo do mercado soviético. Café, algodão, cacau, fibras e óleos vegetais, madeiras, diversos de nossos minérios, sem falarmos dos tecidos que a China Popular deseja comprar, são todos produtos que poderão encontrar mercados altamente apreciáveis na URSS. De outro lado, com o produto de nossas vendas poderemos adquirir na União Soviética, por preços vantajosos, além do petróleo e do trigo, grande parte da maquinaria indispensável ao desenvolvimento da indústria nacional, para a exploração e refinação do petróleo por exemplo, para o beneficiamento de muitos de nossos produtos, para usinas elétricas, maquinaria para a agricultura, etc. Nestas condições, é evidente que as relações do Brasil com a URSS facilitarão grandemente o desenvolvimento independente da economia nacional. Ficaremos livres, pelo menos no terreno das relações comerciais com o estrangeiro, do monopólio escravizador dos trustes americanos. Devemos, porém, compreender também a enorme importância que terão para o nosso povo as relações culturais mais estreitas com a grande e poderosa União Soviética, onde as ciências, as artes e a cultura em geral atingem níveis jamais conhecidos. As relações do Brasil com a União Soviética constituirão um novo e poderoso elemento para a defesa da paz no mundo inteiro.

PERGUNTA — Que indica ao povo brasileiro fazer para conseguir do governo do sr. Getúlio Vargas o reatamento de relações com a União Soviética?

RESPOSTA — A experiência já demonstrou que quando se trata da defesa dos interesses nacionais, e não de meras negociatas, o sr. Vargas só se mexe empurrado pelo povo. É indispensável que o povo unido imponha sua vontade ao governo. Trata-se de defender os interesses da esmagadora maioria da nação. Todos os recursos devem para isso ser empregados — mensagens, comícios, demonstrações, etc. — a fim de exigir do governo o reatamento de relações com a União Soviética. Sem essa pressão popular seria ingenuidade pensar que o sr. Vargas fosse capaz de se afastar da política suicida de isolamento do Brasil no campo internacional e de traição nacional que lhe é imposta pelos monopólios ianques e pelo Departamento de Estado norte-americano. Operários e camponeses, intelectuais, industriais, comerciantes e fazendeiros, patriotas e democratas de todas as classes e camadas sociais devem ser mobilizados e unidos para impor sua vontade. O povo unido é invencível e obrigará o governo a mudar de política, queiram ou não queiram os patrões ianques do sr. Vargas. Quanto aos comunistas, saberão cumprir o seu dever, lutando com decisão e energia em tão patriótica campanha.