Centro de Documentação e Memória (CDM)
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Revelações de Diógenes Arruda Câmara: Prisão e Tortura na Bahia (3)

Cezar Xavier Publicado em 09.05.2017

Trecho do áudio de entrevista com Diógenes Arruda Câmara, histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, feita em Roma, em 1979, pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza.

Você sabe qual foi o primeiro presente que meu pai me deu? Foi um revólver Schmidt-Wesson e um punhal (risos). Quer dizer: para eu me defender. Agora, na nossa família existia um preconceito de honra muito grande. Inclusive de fidelidade aos amigos. A primeira vez que eu fui preso, por exemplo, fui expulso da Bahia para Pernambuco e papai mandou um amigo dele saber qual tinha sido meu comportamento na prisão. Era para o amigo perguntar se eu tinha sido fiel aos meus amigos. Porque, se eu não tivesse sido fiel, ele nunca mais queria saber de ouvir falar de mim. E que eu não aparecesse mais lá em casa. Então, esse episódio é significativo porque fiquei muito aborrecido e tive que dizer a eles que eu era um comunista e que era, portanto, mais homem do que eles, e que eles deveriam me pedir perdão porque o meu comportamento não podia deixar de ser de fidelidade aos meus camaradas (ênfase e bate com a mão na mesa).

Iza – E o que ele respondeu?

Arruda - Claro que papai me pediu perdão! Isso era uma coisa significativa, sentimento de honra, de fidelidade ao amigo. Ele considerava que meus camaradas de Partido eram meus amigos. E um amigo não pode trair o outro amigo, tem que ser fiel. Assim eu me criei. Era o que se pode chamar a lei do sertão, da dignidade do homem, da lealdade para com os amigos.

Iza – Você já era muito danado nessa época, não é?

Arruda – Danado (risos)?

Iza – No movimento sindical...

Arruda – Sim, eu gostava. Era um homem prático. Eu gostava da luta. Gostava de participar do movimento sindical, participar de lutas. Na Bahia, por exemplo, participamos muito de lutas, de greves, de lutas operárias, mas também de choques com os integralistas. Porque houve, depois da derrota (do levante armado comandado pela ALN) em 1935, uma repressão tremenda no Brasil, mas o movimento se recuperou em 1937. Houve um ascenso democrático no país, houve uma anistia parcial e começou uma luta antiintegralista para impedir que eles ocupassem a praça pública. Então, operários e estudantes fizeram frente única em Salvador. E nós fizemos um compromisso de que os integralistas não ocupariam nem as ruas e nem as praças públicas em Salvador. Então, aí surgiram muitos choques e efetivamente o povo baiano não permitiu que os integralistas ocupassem a praça pública.

Iza – Teve algum caso curioso dessa época dos choques diretos com os integralistas?

Arruda – Sim. Tivemos choques sérios.

Iza – Quem eram os integralistas baianos dessa época?

Arruda – Me recordo de poucos. Renato de Azevedo e, se não me equivoco, Rômulo de Almeida. Depois, com o golpe do Estado Novo, veio o Landulfo Alves. Tinha o Isaias Alves, irmão do Landulfo Alves, que era um educador, mas um integralista ferrenho. Tem um episódio significativo de quando nós estávamos na prisão depois do golpe do Estado Novo, em 1937. Nós estávamos numa prisão, que era um forte na Bahia, e chegam o novo comandante do batalhão de caçadores, o chefe de polícia e o delegado de ordem política e social.

Mandaram todos os presos políticos formarem e, um deles, não me recordo se era o comandante do batalhão de caçadores, fez uma pregação e disse que por baixo daquela farda tinha o que mais orgulhava ele, que era uma camisa verde. E disse: Bem, todos os que são comunistas dêem um passo à frente, porque alguns vão para um campo de concentração no Mato Grosso e outros vão ser fuzilados. Então, tinha eu, um gaúcho que tinha participado da Coluna, chamava-se Sibélio, e um professor da escola de agronomia chamado Wagner Cabral. E uns líderes sindicais. Então, nós nos olhamos, e resolvemos, quando ele disse dê um passo à frente, todos darmos um passo à frente. E respondemos: Pior é na guerra. O homem ficou tão desmoralizado que deu meia-volta volver e desapareceu (risos).

Iza – Foi nessa prisão de 37?

Arruda – Foi na prisão de 37.

Iza – Você ficou na Bahia nessa prisão?

Arruda – Sim. Eu, o meu amigo Rui Facó, que era um jornalista brilhante...

Iza – Quem mais?

Arruda – Também estavam Nestor Duarte, o Aliomar Baleeiro...

Iza – Todo mundo preso...

Arruda – Todo mundo preso. Foi uma razia na Bahia.