Centro de Documentação e Memória (CDM)
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Revelações de Diógenes Arruda Câmara: Sectarismo Político e Sincretismo Religioso (4)

Cezar Xavier Publicado em 10.05.2017

Trecho do áudio de entrevista com Diógenes Arruda Câmara, histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, feita em Roma, em 1979, pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza.

Iza – Aí depois de solto você continuou sua trajetória no Partido...

Arruda – Ah, continuei...

Iza – Quero que você conte.

Albino Castro – Quando você foi solto?

Arruda – Eu fui solto dois ou três meses depois. Não me recordo agora. (interrupção da gravação) Pois eu vou te contar um fato que aconteceu na minha juventude. Na minha juventude, ser comunista era ser contra a família, ser inimigo mortal da religião, não respeitar a crença dos outros, ser, inclusive, inimigo da pátria. Isso tudo na versão dos inimigos. E ao ser solto e deportado para a minha terra, cheguei e tinha uma mulher que havia se criado junto com mamãe. Quando mamãe casou, ela foi morar com mamãe. Chamada Joaquina. E eu a chamava de mamãe Joaquina. Então, ao chegar lá, ela disse: Meu filho, você foi solto pelas minhas promessas à Nossa Senhora dos Remédios. E você vai pagar as promessas comigo? Você não sendo crente, você sendo ateu? Digo: Vou. Vou porque respeito sua crença. Se você acredita que eu fui solto pelas suas promessas, nós vamos juntos às igrejas pagar essa promessa.

E fui com ela. Entrei na igreja, o padre não queria me receber porque eu era comunista. Ela pagou as promessas, eu, claro que não me ajoelhei, fiquei ali ao lado dela. Ela não pagou as promessas porque não tinha dinheiro. Eu paguei as promessas por ela, comprando as ervas, dando o dinheiro lá na sacristia. O padre havia anunciado que eu não entraria na igreja. Ele não queria que eu entrasse. Fui com ela, porque respeitava a crença dela. Isso teve uma grande repercussão, porque ninguém acreditava. Só ela dizia: Não, eu conheço meu filho. Eu tenho certeza de que ele vai comigo pagar as promessas. Ele não tem crença, é ateu, mas ele respeita a minha religião. Sempre respeitou. Eu quase que era um filho de criação dela. Eu fui e isso, primeiro, desmascarou o padre e, depois, teve uma grande repercussão. Isso era muito importante naquela época, na minha juventude. Porque isso mostraria que nós, comunistas, somos efetivamente homens que temos amor à família, temos amor à pátria e respeitamos as crenças de quem quer que seja — católicos, protestantes, judeus etc., etc.

Iza – Uma vez a gente estava num restaurante e você falou: essa pizza está igualzinha a uma hóstia. Vai me dizer (risos): como você sabe? Então já comeu hóstia...

Arruda – (Risos) Não, não. Não, porque aconteceu um fato interessante. Meu pai era assim um ateu primitivo. Ele tinha um irmão que era padre.

Iza – Que era até grande amigo de Pio XII...

Arruda – Foi amigo de Pio XII. E ele dizia que não havia diferença entre um homem que vestia calça e outro que vestia batina. E que os filhos homens não deviam, de maneira nenhuma, ir à igreja, não deviam rezar, se confessar, porque, ele dizia: Os filhos homens eu crio — as mulheres, sua mãe cria. Então, desde jovem me criei dessa maneira. Graças a meu pai, que era um homem assim meio esquisito em relação à religião.

Iza – Nem na hora do maior aperto você nunca pediu: meu Deus, ou qualquer coisa aí, me ajuda aqui? (risos)

Arruda – Não pedi. Me socorri às minhas forças interiores (risos). Contando essas histórias... (rindo). Eu quero ver essa entrevista!

Iza – Voltando ao negócio sério...

Albino – Vocês estão em que ano aí na entrevista?

Iza – Nós estamos em 37, ele está contando como era a movimentação na Bahia... de 37 até 40...

Albino Castro – O Arruda foi que organizou... quer dizer: o Partido em 35 ou foi para a cadeia ou foi para o exílio. Uma parte, os militares, aquela coisa.

Arruda – Sim.

Albino – Quem reorganizou o Partido praticamente foi o Arruda na Bahia.

Arruda – Olha aqui: o Partido na Bahia se organizou um pouco depois da sua fundação. Assim por 24, 25. Mas sempre foi muito fraco. Apesar de ser um Partido que tinha muitos operários, o Partido que organizou o movimento sindical na Bahia, muitos deles (sindicalistas) foram anarquistas ou anarco-sindicalistas. Mas o Partido era bastante fraco. Existiam também os estudantes, os intelectuais — mas muito fraco. Tanto que na Bahia quase não teve movimento. Houve um grande movimento por ocasião da Aliança Nacional Libertadora, em 1935. Mas não houve luta armada. No movimento da Aliança Nacional Libertadora, cujo presidente chamava-se Edgard Matta, houve grandes comícios, grandes manifestações.

Eu me recordo que foi feita uma manifestação no Teatro Jandaia, na Baixa do Sapateiro, quando passava a caravana da ALN para o Nordeste e Norte do país. E o Teatro Jandaia superlotou — toda a Baixa do Sapateiro ficou cheia de gente. Operários (pronuncia pausadamente), muitos estivadores, operários do fumo, operários das docas, operários têxteis etc. Mas o Partido foi seriamente golpeado. Aí, um dos dirigentes principais do Partido, que era (Carlos) Marighella, foi embora, em 1936. Então, o Partido ficou muito fraco. Eu era um jovem membro do Partido, e me pareceu correto nós, depois da derrota de 1935, com as prisões cheias etc., levantarmos o Partido. E começamos seguindo duas linhas de conduta: reorganizar o Partido no movimento operário, ganhar os sindicatos, e organizar o Partido no movimento estudantil.

Também organizar o Partido, através do movimento sindical, na zona do cacau e no Recôncavo, na zona de cana-de-açúcar. Eu fui o organizador de sindicatos de assalariados agrícolas da cana-de-açúcar e também organizador dos sindicatos dos assalariados agrícolas do cacau. O nosso trabalho, a princípio, não era fácil. Havia muito sectarismo por parte dos camaradas operários do movimento sindical. Porque na Bahia havia Nosso Senhor do Bonfim e às vezes nossos dirigentes sindicais diziam assim: Graças ao Nosso Senhor do Bonfim, nós ganhamos a greve por aumento de salários etc. E nós tivemos que romper esse sectarismo também falando a linguagem do povo (bate na mesa). Indo a candomblé (ênfase), bebendo sangue de galo!

Iza Freaza – Você ia a candomblé mesmo? Não baixava nada... (risos)

Arruda – Ia a candomblé. Fui amigo do Joãozinho da Goméia.(1) Freqüentei muito o candomblé da (ininteligível). Era uma mãe-de-santo que havia feito a anunciação na África. Fui muito amigo, porque um filho dela era pescador e membro do Partido.