Centro de Documentação e Memória (CDM)
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Revelações de Diógenes Arruda Câmara: Organizando a UNE (5) TV Grabois

Cezar Xavier Publicado em 11.05.2017

Trecho do áudio de entrevista com Diógenes Arruda Câmara, histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, feita em Roma, em 1979, pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza.

Bem, o nosso trabalho parece que rendeu bastante, porque nós levantamos o movimento sindical, organizamos uma união sindical de Salvador que agrupava naquele momento 64 sindicatos e fizemos lutas significativas. Me recordo que, no dia 1º de maio de 1940, fizemos uma passeata, em frente única de operários e estudantes, que foi da Praça Castro Alves até a Praça da Sé, ocupando toda a rua. Foi uma passeata por aumento de salários, por levantamento do movimento estudantil e contra o aumento da carne — chamado a luta contra o aumento da carne verde. Que era um monopólio da firma Magalhães.

Iza e Albino – Juracy Magalhães?

Arruda – Não. Os Magalhães que eram ligados a Clemente Mariani.(2) Das Casas Magalhães na Bahia, na Cidade Baixa. Que eram também usineiros, importadores e exportadores — eram magnatas na Bahia. Tinham bancos etc. Fizemos essa passeata no dia 1º e no dia 8 eu fui preso. Aí fui bastante torturado, em 1940. Bem, é preciso dizer que o nosso trabalho no movimento estudantil era de tal maneira significativo que nós tínhamos cinco professores e 96 estudantes na faculdade de medicina membros do Partido — o que era bastante significativo.

Albino – Entre eles Milton Caires de Brito...

Arruda – Entre eles Milton Caires de Brito, que era muito meu amigo e era o dirigente do Partido na faculdade de medicina.

Albino – Depois foi deputado por São Paulo...

Arruda – Depois foi primeiro-secretário do Partido em São Paulo, e deputado (federal) em São Paulo. Foi membro da Comissão Executiva do Partido, eleito na Conferência da Mantiqueira em agosto de 1943.(3)

Albino – Quer dizer: o Partido renasceu praticamente na Bahia. Depois da derrota de 35, do levante armado... quando ele voltou à legalidade... por exemplo, Prestes tinha passado dez anos na cadeia.

Arruda: O papel da Bahia foi grande no Partido da seguinte maneira: nós tínhamos, entre 37 e 40, o melhor trabalho sindical. Nós também consideramos correto participar de eleições municipais. E foi da Bahia que surgiu o movimento para a organização da União Nacional dos Estudantes. Me recordo que foi organizada a UEB (União de Estudantes da Bahia), tendo o Edison Carneiro à frente, o Aydano do Couto Ferraz, o Milton Caires de Brito etc. Eram estudantes pobres, que viviam nas chamadas repúblicas. Aí a UEB tirou um jornal, chamado Unidade.

Esse jornal pôde articular um movimento no Nordeste, o movimento estudantil, e foi a partir daí que se organizou a União Nacional dos Estudantes — depois do golpe do Estado Novo. O seu primeiro presidente chamava-se Antônio Franca. Era um estudante de direito, pernambucano — que depois desistiu da luta. Nesse tempo ele era membro do Partido. A Bahia deu uma contribuição significativa. Um jornalista muito conhecido, que trabalhou na Última Hora, por exemplo, chamado Medeiros Lima, foi um dos dirigentes da UNE nesse período. Era alagoano e dirigente da União dos Estudantes de Alagoas.