Centro de Documentação e Memória (CDM)
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Revelações de Diógenes Arruda Câmara: Batismo de fogo em São Paulo (6)

Cezar Xavier Publicado em 12.05.2017

Trecho do áudio de entrevista com Diógenes Arruda Câmara, histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, feita em Roma, em 1979, pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza.

Albino – Eu reforcei essa pergunta pelo seguinte: em 45, quando o Partido volta à legalidade, você emerge praticamente como o segundo homem do Partido. Você desce da Bahia, trazendo um caminhão de quadros...

Arruda – (Risos)

Albino – E passa a dirigir, como secretário nacional do Partido, a organização. Quer dizer: o seu trabalho na Bahia foi tão importante, embora você seja pernambucano, que foi esse trabalho que te conduziu à direção do Partido. Porque você era um garoto...

Arruda – Eu me considero baiano de coração. Porque passei os melhores anos de minha juventude na Bahia etc. O caso foi o seguinte: depois que eu fui solto, em 1941, eu fui chamado... Em 1940, havia sido preso todo o Comitê Central do Partido, menos um elemento, que era um operário têxtil chamado Domingos Brás. Através do movimento estudantil e, posso dizer, através de um contato de João da Costa Falcão, que era um baiano, com o Edgar Carone, que é um historiador — nesse tempo era um líder estudantil em São Paulo —, o Domingos Brás me manda chamar para São Paulo. Porque, no período de 40 a 41, eu havia me destacado um pouco como dirigente na Bahia e vinha trabalhando junto à direção central do Partido. Bem, é preciso dizer que conheci Joaquim Câmara Ferreira em 1936, na Bahia — 36, 37.

Albino – Ele estava fugindo? Porque ele é paulista.

Arruda – Sim. O Comitê Central do Partido, com as perseguições que se verificaram no Rio e em São Paulo, se transferiu para a Bahia em 1936 e parte de 37. As últimas delegações que foram a Moscou informar sobre a insurreição de 35, partiram da Bahia. Uma delegação em 1937 e outra em 38. Então, fui chamado por Domingos Brás. Eu tive que fazer essa viagem pelo interior da Bahia, por Minas, e quando tomo o trem que vem de Minas, em Barra do Pairai, e vou chegando a São Paulo, próximo de Mogi das Cruzes, abro o jornal e tem: Prisão do Comitê Regional da Bahia. Domingos Brás etc. Aí, o que é que eu vou fazer? Vou voltar para a Bahia, para assumir novamente a primeira secretaria do Partido? Ou devo ficar em São Paulo? Eu vinha me integrar ao Comitê Regional de São Paulo. Então, eu resolvi ir para São Paulo.

Eu era um pau-de-arara, vinha com uma roupazinha de brim, no mês de abril, um frio que até as minhas rótulas tremiam. E resolvi reconstruir o Partido, junto com outros camaradas, em São Paulo. Me acompanhava Armênio Guedes. Então, o que fazer? Observei que os comunistas da colônia judaica, e os comunistas da colônia lituana, que eram operários metalúrgicos, não haviam sido presos. Procurei estabelecer contato com a prisão. Domingos Brás me informava que nem todo mundo tinha sido preso. Mas tinha se dado um fenômeno singular em São Paulo. Depois de 1935, todo ano o Comitê Regional caía. Parece que o inimigo cortava a cabeça do Partido, prendia o Comitê Regional, e deixava algumas pontas para ele acompanhar e golpear o Comitê Regional. E assim todo ano — 36, 37, 38, 39, 40, 41. Que fazer? Eu tracei um plano: botar de lado o velho Partido que a polícia tinha indicações e fazer um Partido novo. Não tinha outra maneira. Então, tive que me apoiar nos baianos. Fui chamando baianos para São Paulo.

Albino – Armênio já estava contigo...

Arruda – Já estava comigo. Chamei um companheiro que era o responsável pelo trabalho israelita na Bahia, ele veio. Aí entramos na colônia israelita — isso era muito importante porque nós éramos um Partido pobre, de andar de bonde de segunda, de segunda no trem, e passando uma miséria desgraçada. Me recordo que em São Paulo nós comíamos chuchu de manhã, chuchu à noite, chuchu a semana inteira, chuchu o mês inteiro porque não tínhamos outra coisa para comer senão chuchu com arroz e sal. E às vezes tomar uma xícara de café por dia — não tinha outra forma. Então fomos chamando... Na Bahia, nesse tempo, os estudantes de medicina se formavam e não tinham o que fazer. Então, como nós tínhamos muitos estudantes de medicina... mandam os médicos baianos para cá (ênfase). E nós fomos localizando nos bairros operários de São Paulo os jovens médicos baianos. O Milton Caires, me recordo, foi para o Tatuapé e aí estabeleceu contato com os operários metalúrgicos da (ininteligível). E fomos mandando também para o interior de São Paulo e para o Norte do Paraná. Para Londrina, que se abria naquele tempo, Jacarezinho etc.

E assim fomos levantando o Partido. Pouco tempo depois, estabelecemos contato com os ferroviários da sorocabana e com o Partido em Sorocaba, que não havia sido golpeado. Então, apoiados em alguns operários metalúrgicos... Me recordo de um chamado Antônio Vanucci, um velho operário metalúrgico da Atlas, dos elevadores Atlas, que era italiano — havia esquecido o italiano e não havia aprendido o português (risos). Mas era um homem de grande prestígio. Me apoiei também em dois operários metalúrgicos espanhóis. E num operário têxtil, não me recordo mais o nome dele. Esses quatro homens me ajudaram muito na formação. Meu segundo batismo de fogo foi com esses quatro operários — que ajudaram na minha formação como comunista. Eram operários de vanguarda, eram comunistas de muito valor. Posteriormente, nos operários de Sorocaba, da sorocabana etc. Foi assim que nós fomos reconstruindo o Partido.

Iza – E a polícia não conseguia mais pôr a mão em vocês...

Arruda – Aí, nunca mais a polícia de São Paulo meteu a mão num comunista. Até quando nós conseguimos conquistar a legalidade.