Centro de Documentação e Memória (CDM)
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Revelações de Diogenes Arruda: Prestes e a legalidade do Partido (8)

Cezar Xavier Publicado em 16.05.2017

Trecho do áudio de entrevista com Diógenes Arruda Câmara, histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, feita em Roma, em 1979, pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza.

O Prestes só foi aceito no Partido em agosto de 1934. Depois, em 1935 ele vem ao Brasil, e é proposto para o Comitê Central. Há resistências no Comitê Central em 1934 para ele ser membro do Partido. Foi preciso uma solicitação do Comitê Executivo da Internacional Comunista. Também em 1935, uma solicitação do Secretariado Sul-Americano da Internacional Comunista para ele ser membro do Comitê Central. Porque aí ele era do Secretariado da Internacional Comunista, junto com Harry Berger, cujo nome verdadeiro era Arthur Ewert, que era um operário metalúrgico alemão que tinha sido deputado pelo Reichstag, tinha sido membro do Comitê Central do partido alemão e do secretariado do partido alemão, e também membro do Comitê Executivo da Internacional Comunista. E tinha outras personalidades. Muitos desses elementos foram presos, Berger passou dez anos na prisão. Morreu torturado barbaramente o Barron(5), que era um jovem comunista norte-americano, membro da Internacional da Juventude Comunista etc.

Albino – Astrojildo nessa época ainda era o secretário, não é?

Arruda – Não. Astrojildo tinha sido afastado de secretário-geral do Partido em fins de 1929 e expulso em 1930, como oportunista de direita.

Albino – E depois foi readmitido?

Arruda - Astrojildo só foi readmitido no Partido em 1945 com a legalidade. Ele passou, portanto, de 1930 a 1945 fora do Partido — durante praticamente 15 anos. (A gravação é interrompida.) Em todo esse movimento de reorganização do Partido, o trabalho de massa, o trabalho sindical, o trabalho popular, o trabalho estudantil... o Partido foi crescendo. Nós concentrávamos forças na luta democrática, antifascista, procuramos eliminar todas as tendências sectárias no Partido, e quando chega em dezembro de 1944 nós lançamos a palavra de ordem de "anistia ampla, geral e irrestrita". O movimento adquire corpo em janeiro através de uma campanha de massas muito ampla, da qual participa, inclusive, Osvaldo Aranha — mas na qual também nós botamos comunistas que saíram da prisão para falar em comícios. Essa campanha vai de janeiro a março. Em 17 de abril de 1945, nós conseguimos a anistia.

Albino – Para todo mundo, não é?

Arruda - Para todo mundo. Nesse momento, o Partido está com uns seis mil e oitocentos membros, através de um balanço que nós demos em fins de abril de 1945. Com a anistia, nós lançamos imediatamente a campanha por uma Assembléia Constituinte, democrática, soberana, livremente eleita. E lançamos também a campanha para o reconhecimento da União Soviética e de todos os países socialistas. E ao mesmo tempo começamos a lutar pela legalidade do Partido. Mas nós não iríamos pedir licença ao governo para lutarmos pela legalidade do Partido. Utilizamos um artifício. Procuramos fazer um grande comício(6) no Estádio de São Januário, do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, em comemoração à anistia — portanto, a liberdade dos presos políticos. Esse comício superlotou o estádio.

Posteriormente, nós realizamos um grande comício no Pacaembu, em São Paulo, que também superlotou. No Pacaembu, nós lançamos a legalidade do Partido. O Partido Comunista do Brasil, a partir de hoje, está legal em todo o Brasil. Foi realmente um espetáculo emocionante. Porque, vamos contar "x" de abril, maio, junho o Partido passou para 40 mil membros, 50 mil membros, 60 mil membros, e em dezembro o Partido já estava com 80 mil membros. Era verdadeiramente emocionante. Nós não sabíamos o que fazer. Estávamos acostumados a dirigir um Partido pequeno. E como dirigir um Partido grande? Nós não sabíamos. Em São Paulo eu me recordo de uma fábrica que foi um espetáculo emocionante, a Arno. Uma fábrica metalúrgica.

Então chegaram os velhos espanhóis, com um bocado de jovens. E eu participei da reunião. Disseram: estamos aqui, nós somos velhos comunistas, mas essa juventude é que é realmente a liderança da fábrica. Esses são jovens de vanguarda na fábrica. Eles disseram: Nós queremos todos entrar no Partido. O que foi significativo foi que esses operários velhos disseram: Nós já demos o que podíamos dar. Essa juventude é nossa continuadora. E elegeram (ininteligível), um jovem de 20 anos de idade, como secretário da célula. Como é que se organiza uma célula do Partido? Nós não sabemos. É como no Sindicato? Não. É assim, assim, assado. Quem são os dirigentes? Vocês é que sabem quem são os dirigentes. Nós não sabíamos. E assim fomos organizando células e mais células nas empresas metalúrgicas, nas fábricas têxteis, no porto de Santos etc., etc.