Escola do PCdoB
Biblioteca da Escola

Que Fazer? As questões palpitantes do nosso movimento

Publicado em 07.01.2009

V.I. Lênin
Editora Hucitec - São Paulo, 1979

A luta interior dá força e vitalidade ao partido; a melhor prova da fraqueza de um partido é sua posição difusa e a extinção de fronteiras nitidamente traçadas; o Partido reforça-se depurando-se...

(trecho de uma carta de Lassalle a Marx, de 24 de junho de 1852)

Apresentação

O A publicação de Que Fazer? no Brasil constitui um acontecimento de grande significação política, malgrado as presentes condições nas quais vivemos e a debilidade crônica do nosso movimento socialista. Está fora de dúvida que essa não é a maior obra de Lênin. Contudo, ela caracteriza o momento no qual o leninismo se revela em seus componentes essenciais: em nove anos de experiência, de lutas constantes, de perseguições e de enorme fermentação criadora, um jovem publicista da ala esquerda da social-democracia russa punha-se à frente da vanguarda teórica desse partido. Apenas nove anos? O que se pode realizar quando a história se move para a frente e o pensamento revolucionário é exposto a todas as tensões de forças contrárias, da mais odiosa opressão de um regime autocrático cruel e de sua terrível repressão policial às inquietações da intelligentsia, dos estudantes, dos radicais de uma burguesia impotente e, em particular, das pressões crescentes das massas populares, do campo e da cidade! Em suma, quando o pensamento revolucionário aceita suas tarefas, as enfrenta com tenacidade, esclarecimento e coragem, procurando avançar sempre para a frente, relacionando meios e fins que podem transformar a “oportunidade histórica" em história real.

Haveria muito que debater sobre este pequeno livro e seu significado no movimento socialista revolucionário. Não obstante, seria fora de propósito ornamentar Que Fazer? com qualquer pretenso comentário erudito. Os seus leitores podem ressentir-se da precisão de Marx, por exemplo, nos comentários rigorosos à Crítica do Programa de Gotha. No entanto, Que Fazer? introduz no marxismo uma nova dimensão política. Na verdade, ele é uma resultante de um acidentado, heróico e construtivo labor coletivo: o que várias tendências do populismo, do radicalismo e do socialismo criaram na Rússia dos meados do século XIX à sua última década. Uma experiência filtrada por Lênin e amadurecida por sua penetrante acuidade à contribuição do movimento socialista europeu, especialmente na Alemanha, França e Inglaterra. Não se pode ignorar figuras como Plekhânov, Axerold e Zasulítich (além de outros companheiros do ISKRA e da ala esquerda do RO.S.D.R.), cuja produção teórica e visão dos problemas práticos do marxismo na Rússia alimentaram a aprendizagem e os primeiros tirocínios de Lênin. Todavia, ele os suplanta com uma rapidez incrível. Que Fazer? marca uma nova etapa, que deixa tudo para trás. De sua edição em diante, a Rússia não seria o cenário da transmutação pura e simples do marxismo em movimento revolucionário triunfante. Nascia o marxismo-leninismo como teoria revolucionária e como prática revolucionária organizada. A própria Europa ficava para trás, apesar da importância da II Internacional e dos seus grandes teóricos, e da densidade do movimento operário europeu.
Neste breve comentário, gostaria de concentrar-me em três questões mais importantes para os leitores brasileiros no momento atual. A primeira, diz respeito ao próprio Lênin: porque ele já estava politicamente qualificado para escrever uma obra tão simples mas de conseqüências tão profundas e permanentes? A segunda, impõe-se como decorrência: o que representa a concepção do marxismo que Que Fazer? propõe? A terceira, vincula-se ao aqui e ao agora: o que um livro como esse testemunha quanto à nossa própria imaturidade e impotência políticas no Brasil e na América Latina?

Quanto ao primeiro tema, se Lênin era um "cérebro político" privilegiado (descrito por Trotsky como o único estrategista da revolução bolchevique), ele também recebe uma herança política privilegiada e viveu em um momento histórico privilegiado. Não penso em simplificar as coisas, para chegar a uma redução determinista do papel do herói na História. Isso seria indigno de qualquer comentário mais ou menos lúcido do significado de Que Fazer?; e, em particular, entraria em conflito com o modo pelo qual Lênin se via como um "publicista de partido". Um livro escrito entre o outono de 1901 e fevereiro de 1902, publicado em março de 1902 - mas que se propunha os problemas centrais da teoria e da prática revolucionárias na Rússia e na Europa - transcende a uma datação localizada. Ele responde a muitas questões contraditórias e a grandeza criadora de Lênin aparece na propriedade das perguntas, que formula, e na qualidade das respostas (ou das soluções), que apresenta (numa linguagem que é sempre simples, direta, embora marcadamente irônica e mordaz: Lênin não se propunha uma "leitura" de Marx - o que ele queria era descobrir os meios mais eficazes de converter uma, revolução potencial, bastante forte para deixar a vanguarda teórica deslocada pelas exigências e alguns avanços das massas populares, no ponto de partida da desagregação do regime tzarista e de uma revolução permanente na qual o marxismo se impusesse como uma cunha irremovível, capaz de suplantar o liberalismo e o radicalismo burgueses, o populismo, o socialismo moderado ou reformista, o terrorismo etc., e de gerar uma revolução proletária vitoriosa).Quantos revolucionários afirmaram (ou afirmam) que precisam sonhar e exigem a liberdade de sonhar? 0 importante é que o sonho, não estava longe da realidade. Ao contrário, respondia diretamente ao que era preciso fazer para passar-se de um "sonho” à sua concretização. Ora, aí temos uma complexa situação histórica. A simplificação e o reducionismo determinista existiram se se ignorasse a convergência de várias condições e de diversos fatores, imediatos ou remotos, e a função catalisadora de uma personalidade invulgar.

Ao iniciar a redação desse livro, Lênin já era uma figura de relevo no marxismo russo. Ainda não rompera com os principais teóricos contemporâneos e mal começara a experimentar suas limitações no campo da ação revolucionária. De outro lado, através da II Internacional, de sua participação interna e externa na reelaboração da teoria socialista e na crítica do reformismo ou do oportunismo, infundira à sua própria posição uma intransigência marcante, um radicalismo maduro e um espírito prático à toda a prova. Não era um “publicista", apenas, era um político experiente e um revolucionário que sonhava com a revolução procurando como encravá-la no seio de um regime odiado e destrutivo.

Como ativista, já tinha demonstrado seu potencial como agitador e sua firmeza diante da repressão (uma, repressão desconhecida na Europa, mesmo nas piores circunstâncias). Como teórico, já havia comprovado que ultrapassara o período da aprendizagem: O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia (publicado em 1899) dissocia a teoria da análise, mas atesta, por isso mesmo, o quanto Lênin dominava as doutrinas econômicas de Marx e o quanto, por sua vez, era capaz de interpretar segundo critérios marxistas rigorosos uma realidade histórica diferente, de modo original, independente e construtivo. Na verdade, ele irradiara o seu talento crítico na direção dos múltiplos temas do debate político socialista, imperante dentro da Rússia, e evidenciara um avanço teórico relativo comparável ao nível que prevalecia no Exterior, no movimento socialista mundial. No sentido em que os franceses usam a expressão, ele era uma "personalidade política" reconhecida e impunha-se como uma influência pessoal com a qual se devia contar - e que deveria crescer. A criação da revista Iskra, destinada à discussão política e científica, e do jornal operário Zaria, que se voltava para toda a Rússia, sugere que essa personalidade marcante encontrara um quadro histórico e outros companheiros - em suma, que o movimento socialista na Rússia, apesar das aparências, estava saltando acima do movimento socialista na Europa, especialmente na esfera da ação política direta, de levar a revolução socialista do plano das idéias e das aspirações para o plano prático.

As reflexões contidas em Que Fazer? correspondiam às, "exigências da situação histórica", não eram fruto de uma especulação “genial" e tampouco uma ousadia "isolada". Lênin abordara antes os mesmos temas, em especial ao elaborar uma versão do programa da social-democracia russa, ao redigir o projeto de declaração da Iskra e do Zaria, e de maneira mais concentrada no artigo "Por onde começar?" (de maio de 1901). Naquele projeto já se colocara contra "o praticismo estreito", a dispersão e o caráter artesanal do movimento socialista, batendo-se por uma forma superior, mais unificada e, melhor organizada de luta política.

No artigo, por sua vez, antecipa a substância do livro. Pretende um sistema e um plano de atividade prática, o que o coloca contra o economismo (o sindicalismo reformista: estreito), que desemboca na impotência política, e contra o terror, que, não condena em princípio, mas caracteriza como uma arma inoportuna, inoperante, que afasta os combatentes mais ativos de sua verdadeira tarefa" e que "desorganiza não as forças governamentais, mas as forças revolucionárias". Temos aí toda uma equação política revolucionária, que não foi inventada por Lênin. Ela nascia de uma situação histórica "madura", na qual os problemas de agitação, propaganda e organização impunham a reestruturação do movimento socialista. O fato de Lênin se defrontar sem nenhuma timidez com essa equação e soltar suas pontas, decifrando o caminho a seguir, diz por si mesmo o quanto ele era a personalidade para desempenhar tal papel. Um "produto da história" que era, também, um fator humano de sua transformação.

Quanto ao segundo tema, está na moda uma visão crítica negativista do leninismo". O leitor verá que uma boa parte desse ataque grosseiro (como certa parte das condenações refinadas), eclodiu contemporaneamente: Que Fazer? aparece como uma necessidade de desvencilhar o socialismo revolucionário desse terrível cipoal, continuamente reconstituído por tantas forças contraditórias. Não pretendo travar um combate de cavaleiro andante contra a falta de imaginação. Contudo, convém que o leitor fique atento e compare: como Lênin ridiculariza seus críticos (e os críticos do marxismo); e como ele refuta ou afasta tantas suspeitas com referência à "profissionalização" da atividade revolucionária e à organização do movimento socialista revolucionário. De um lado, temos forças contra-revolucionárias ou conservadoras não só organizadas econômica e, socialmente - contando também com a centralização política, proveniente da existência e do controle do Estado.

De outro, a "anti-ordem" desordenada, fiel a fórmulas ideais e abstratas que não são, bastante fortes, por si mesmas, para levar de vencida o tzarismo. Se avançarmos diretamente na linha profunda do pensamento de Lênin: ele propõe nada mais nada menos que a alternativa do anti-Estado, a organização de um Estado dentro de outro Estado, ou seja, a organização da revolução. De um golpe, ele supera as várias soluções do radicalismo burguês e do socialismo reformista e os imponderáveis do terrorismo. Para muitos, aí não haveria novidade. A novidade, estaria apenas na russificação do marxismo, na "bolchevização", que eliminaria do marxismo a sua vinculação espontânea com as massas e seu teor democrático. Ora, chegar a essas conclusões por efeito da propaganda conservadora e contra-revolucionária é explicável. Mantê-las, depois de ler Que Fazer?, significa uma obliteração da razão socialista (se esta existe, de fato). O que Lênin faz com o marxismo só pode ser definido de uma maneira: ele converte o marxismo em processo revolucionário real. Se o faz tendo em vista as condições políticas do tzarismo e da sociedade russa, disso ele não se poderia livrar...

Portanto, Lênin inaugura uma concepção do marxismo: a que rompe frontalmente com o elemento burguês em todos os sentidos, ainda dentro e contra a sociedade capitalista. Os grande teóricos do socialismo revolucionário europeu esperavam a vitória da revolução para extirpar a condição burguesa que impregnasse a todos os revolucionários, dos militantes de base ao tope da vanguarda, o que significa que a massa de seguidores poderia oscilar livremente, das opções socialistas às opções democrático-burguesas. O combate dos "métodos artesanais” significa acabar com isso na medida do possível. O que fica de “entranhadamente burguês” em um militante submetido a um treinamento profissional e para atuar clandestinamente? Depois que um partido revolucionário aceita tal evolução, ele tem condições para dar uma volta atrás, procedendo como os socialistas alemães, franceses ou ingleses que traíram o socialismo para não traírem seus governos nacionais? De outro lado, um partido revolucionário que organiza a revolução deixa de vincular-se à oscilação das, massas populares, de aproveitar produtivamente sua espontaneidade? Ele perde, por isso, seu caráter democrático? De onde vem a estrutura revolucionária e democrática de um partido socialista e da revolução socialista: da ordem que ambos combatem e devem destruir ou dos princípios fundamentais do socialismo? Por aí se verifica que Lênin converteu o marxismo em uma realidade política antes mesmo que o regime tzarista se desagregasse e ocorresse a revolução proletária. Os que se apegaram demais às condições "democráticas" da ordem existente e pretendiam avançar suavemente, cultivando o oportunismo, o reformismo, o gradualismo, o obreirismo, o populismo ou, no outro extremo, a violência episódica sem uma estrutura e continuidade políticas não podiam entender a sua linguagem. Pareciam-lhes que a passagem para o socialismo perdia, desse modo, todo o encanto pequeno-burguês e toda a atração heróica. Uma revolução que se organiza politicamente, que centraliza suas forças, surge, como um anti-Estado, sob a aparência de uma "militarização", de um despotismo dissimulado sob o centralismo democrático.

Essa "leitura" dê Lênin é a de todos os que se identificam com o socialismo como uma fonte de compensação psicológica ou moral. Depois que a burguesia se converteu em classe dominante reacionária ou contra-revolucionária, na Europa e nos Estados Unidos, que utilizou exemplarmente o que Engels descreveu como o "terrorismo burguês", não existia outro caminho para chegar não “ao poder", mas à construção de uma sociedade socialista. O que dizer da Rússia? Lênin aponta com sagacidade as diferenças: o que um regime ultra-opressivo deixa como espaço político "democrático" para as reivindicações do Povo, das classes trabalhadoras, dos movimentos radical-democráticos ou socialistas. Um espaço zero. O teórico socialista se defronta com a necessidade de partir desse espaço zero: criar a revolução a partir de dentro da contra-revolução. Ou seja, o combate organizado à contra-revolução institucionalizada e estabilizada politicamente deve ser, desde o inicio, um processo revolucionário. Daí as frases famosas deste livro: “Sem teoria revolucionária, não existe movimento revolucionário”; "toda a vida política é uma cadeia sem fim composta de um número infinito de elos”; “é preciso sonhar" etc. A contraparte dessas frases famosas: sem organização não se mede a força de um movimento revolucionário e sem movimento revolucionário não se testa a teoria revolucionária. Lênin completa o marxismo. Introduz a dialética na esfera da ação política direta e do movimento de massas pelo socialismo.

Quanto ao terceiro ponto, Que Fazer? é um divisor de águas. Escrito e publicado no alvor do século XX, ele sintetiza os avanços do socialismo e do marxismo na Rússia no século anterior e assinala as promessas revolucionárias realmente fundadas. O livro todo constitui uma polêmica com o passado, com os contemporâneos, com os que se voltavam para a construção de uma Rússia democrática ou socialista. Onde se escreve um livro como esse, no momento em que um livro como esse pode ser publicado, a partir do combate ou da aceitação das idéias contidas em um livro como esse, pode-se constatar a existência de um movimento revolucionário denso, inquieto, maduro e indomável. A vitalidade do movimento socialista não nasce de si mesmo, apenas,. nasce da sociedade em que se constitui e na qual se expande. O requisito histórico e o patamar de um movimento dessa envergadura é a existência de uma sociedade que caminha inexoravelmente, pelas pressões de baixo para cima, pela insatisfação das massas e pelo inconformismo das classes trabalhadoras, na direção da desagregação da ordem existente e da revolução social. Nesses quadros históricos há um socialismo potencial (diria, mesmo, um socialismo revolucionário potencial). O marxismo como teoria e como praxis pode ser facilmente irradiado nas várias direções da sociedade: as tarefas dos militantes, dos "teóricos" e "publicistas" nem por isso é mais fácil. Porque essa potencialidade traz consigo uma repressão feroz, uma autodefesa cega e impiedosa. Contudo, a violência institucional da contra-revolução não consolida a si própria. Ela fortalece as forças antagônicas, os inimigos da opressão e da contra- revolução, ou seja, em um primeiro momento, a revolução democrática de base popular, em outro momento seguinte, o controle do Estado pelas forças da revolução democrática, e a transição para o socialismo. Em resumo, se não existissem peixes nos rios e no mar seria impossível pescar. O movimento socialista exige um mínimo de condições “objetivas" e “subjetivas" (e o mesmo se pode dizer da revolução socialista).

Dadas certas dessas condições, o que depende dos próprios socialistas para que o seu movimento se consolide, se irradie e, através das massas populares e das classes trabalhadoras, se converta em força política revolucionária? Excluindo-se Cuba, a experiência chilena e algumas manifestações verdadeiramente políticas da guerrilha, a América Latina foi o paraíso da contra-revolução (da contra-revolução mais elementar e odiosa, a que impede até a implantação de uma democracia-burguesa autêntica). Hoje, mais do que nunca, ela continua a ser o paraíso da contra-revolução, só que, agora, conjugando o "terrorismo burguês interno" com o "terrorismo burguês externo”, Os partidos que deveriam ser revolucionários (anarquistas, socialistas ou comunistas), devotaram-se à causa da consolidação da ordem, na esperança de que, dado o primeiro passo democrático, ter-se-ia uma situação histórica distinta. Em suma, bateram-se pela democracia-burguesa, como se fossem os campeões da liberdade. Trata-se de uma avaliação dura? Quanto tempo as burguesias nacionais ter-se-iam agüentado no poder se fossem atacadas de modo direto, organizado e eficiente? Ou estamos sujeitos a uma "fatalidade histórica", que prolonga o período colonial e a tirania colonizadora depois da independência e da expansão do Estado nacional?

O diagnóstico correto, embora terrível para todos nós, é que nunca fizemos o que deveríamos ter feito. Os “revolucionários" quiseram manter seus privilégios, ou os seus meio-privilégios, sintonizando-se com as elites no poder e com as classes dominantes. Formaram a sua ala radical, sempre pronta a esclarecer os donos do poder sobre o que certas reformas implicariam, para evitar uma aceleração da desagregação da ordem e os seus efeitos imprevisíveis...

Não estou inventando. Voltamos as costas à organização da revolução e auxiliamos a contra-revolução, uns mais outros menos, uns conscientemente, outros sem ter consciência disso. E a "massa" da esquerda tem os olhos fitos no desfrute das vantagens do status de classe média. O que ameaça esse status entra em conflito com o socialismo democrático...
Todas essas reflexões pungentes precisam ser feitas e refeitas. Que Fazer? desvenda essa realidade incômoda. Não fomos fascinados pelo “espontaneísmo" das massas: estas exerceram pouca atração sobre o pensamento político propriamente revolucionário, sempre preso a fórmulas importadas de fora, com freqüência fórmulas com alta infeção burguesa (para usar outra expressão de Lênin). Fomos paralisados pela idéia do gradualismo democrático-burguês e pelo poder de coação da ordem. O que quer dizer que, na era da polivalência no "campo socialista", ainda não sabemos quais são os caminhos que nos levarão à desagregação do nosso capitalismo selvagem e a soluções socialistas apropriadas à presente situação histórica. Um atraso monumental. O que Lênin fez, por exemplo, em O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia só tentamos no plano da erudição. Por conseguinte, fora de Cuba não se criou um pensamento socialista revolucionário original. A principal tarefa, teórica foi negligenciada até hoje, porque líderes, vanguardas e partidos da esquerda ou vivem a sua integridade socialista com extremo purismo ascético - e bem longe da atividade prática concreta - ou se concentram no "economismo" e, pior que isso, em táticas imediatistas, de composição dentro da ordem, como se o socialismo pudesse ser o último estágio, a Quinta essência da "democracia" burguesa. O reformismo pequeno-burguês como estilo de prática política. Ora, tudo isso está ocorrendo numa época em que a transição para o socialismo ficou mais difícil. Depois das grandes revoluções - da Rússia, da China, do Vietnã da Iugoslávia e de Cuba - o cerco capitalista ao socialismo se aperta a partir de dentro e a partir de fora. A contra-revolução deixa de ser o produto de uma autocracia secular: a autocracia é organizada deliberadamente, como a barreira, o bastião de defesa e a base política de contra-ataque militar e policial do chamado "capitalismo tardio". De outro lado, essa contra-revolução corrompe tudo, pelos meios de educação, comunicação de massa, consumo de massa, cooptação etc. Depois de setenta e seis anos, Que Fazer? Continua válido. Todavia, a teoria revolucionária e a organização do movimento revolucionário precisam ser adaptadas a uma situação política muito diversa. Os que esperam que o "campo socialista" resolverá todos os problemas e dificuldades cometem um equívoco. A cooperação e o auxílio efetivo só poderão amparar os movimentos revolucionários viáveis, que comprovarem sua vitalidade e a sua eficácia.

Em outras palavras, é urgente superar a nossa circularidade e a nossa fraqueza inventiva. Os que são socialistas precisam devotar-se à tarefa de construir a teoria revolucionária exigida pela situação atual da América Latina.

Essas ponderações podem parecer exageradas. A partir do Brasil? O país que ficou no maior atraso dentro do movimento sindical, socialista e revolucionário na América Latina? Na época em que Lênin escreveu e publicou Que Fazer? quem pensaria que a Rússia, e não alguma nação avançada da Europa, se colocaria na vanguarda da história? Não penso que poderemos "queimar etapas". O avanço real só pode ser conquistado graças e através das massas populares e das classes trabalhadoras. A nossa tarefa urgente consiste em propagar o socialismo revolucionário nesses setores da sociedade e, com o amadurecimento da sua experiência política, tentar-se o equacionamento de "por onde começar,?"
Nem uma coisa nem outra será possível se se mantiver a tática “economista", o falso obreirismo e o populismo das classes dominantes, a submissão a burguesias pró-imperialistas e entranhadamente antidemocráticas e contra-revolucionárias. Parece claro que voltamos, no momento que corre, a erros crônicos do passado, lançando as forças vivas de uma revolução democrática na maior confusão, abandono e impotência. Oitenta e nove anos de "regime republicano" já nos ensinaram o bastante. Não serão as classes possuidoras, especialmente os seus setores privilegiados nacionais e estrangeiros, que irão favorecer e levar a cabo a revolução democrática. E esta não pode ser pensada, por um socialista, como um desdobramento de etapas. Onde as massas populares e as classes trabalhadoras se afirmam como as únicas alavancas da revolução democrática, esta só poderá conter uma transição burguesa extremamente curta. Cabe aos socialistas dinamizar a "revolução dentro da revolução". Hoje, mais que no passado, a civilização de consumo de massas constitui um ópio do Povo. As massas populares e as classes trabalhadoras só podem ser educadas para o socialismo através de um forte movimento socialista, dentro do qual elas forneçam as bases, os quadros e as vanguardas, e através do qual elas disputem o poder das classes dominantes, deslocando-as do controle do Estado e do sistema de opressão institucional "democrático”. O que assinala que, se os caminhos são diversos, várias lições de Que Fazer? preservam toda a atualidade, sob a condição de que a opção pelo socialismo seja tomada para valer.

São Paulo, 19-20 de março de 1978

Florestan Fernandes

Prefácio

De acordo com a intenção original do autor, este trabalho que apresentamos ao leitor devia ser dedicado ao desenvolvimento detalhado das idéias expostas no artigo "Por Onde Começar?" (Iskra, n.º 4, maio de 1901). Antes de tudo, devemos desculpar-nos perante o leitor pelo atraso verificado no cumprimento da promessa feita nesse artigo (e repetida em resposta a numerosas perguntas e cartas particulares). Uma das razões desse atraso foi a tentativa de unificação de todas as organizações sociais-democratas no estrangeiro, empreendida em junho do ano passado (1901). Seria natural que se aguardasse os resultados dessa tentativa, pois, se tivesse êxito, talvez fosse preciso expor sob um ângulo um pouco diferente os pontos de vista do Iskra em matéria de organização; em todo o caso, o êxito de tal tentativa teria permitido pôr termo, de modo bastante rápido, à existência de duas tendências na social-democracia russa. Como o leitor não ignora, essa tentativa fracassou e, como procuraremos demonstrar mais adiante, não poderia ter outro fim após a mudança inesperada do Rabótcheie Dielo, em seu número 10, em direção ao “economismo”. Tornou-se absolutamente necessário empreender uma luta decisiva contra esta tendência vaga e pouco determinada, porém tanto mais persistente e suscetível de renascer sob as mais variadas formas. Desse modo, o plano inicial deste trabalho foi modificado e consideravelmente ampliado.

O tema principal deveria abranger as três questões propostas no artigo "Por Onde Começar?", ou seja: o caráter e o conteúdo essencial de nossa agitação política; nossas tarefas de organização, o plano para a construção de uma organização de combate para toda a Rússia dirigido simultaneamente para diversos fins. Desde há muito tais problemas vêm interessando ao autor, que já procurou abordá-los na Rabótchaia Gazeta, em uma das tentativas malogradas de se renovar essa publicação (ver cap. V). Contudo, minha intenção inicial de me limitar, neste trabalho, somente à análise dessas três questões e de expor meus pontos de vista, sempre que possível, de forma positiva evitando recorrer à polêmica, tornou-se completamente impraticável por duas razões. Por um lado, o "economismo" revelou-se muito mais forte do que os supúnhamos (empregamos o termo "economismo” em sentido amplo, como foi explicado no artigo do, Iskra, n.º. 12, dezembro de 1901: “Uma Conversa com os Defensores do Economismo”, artigo que traça por assim dizer, o esboço do trabalho que apresentamos ao leitor). Hoje é inegável que as diferentes opiniões a respeito desses três problemas explicam-se muito mais pela oposição radical das duas tendências na social-democracia russa, do, que pelas divergências quanto a detalhes. Por outro lado, a perplexidade suscitada entre os “economistas" pela exposição metódica de nossos pontos de vista no Iskra evidenciou que, freqüentemente, falamos línguas literalmente diferentes: que, por conseguinte, não podemos chegar a qualquer acordo se não começarmos ab ovo; que é necessário tentar .Uma explicação metódica tão popular quanto possível, ilustrada com exemplos concretos muito numerosos, com todos os "economistas", sobre todos os pontos capitais de nossas divergências. E resolvi tentar tal "explicação”, compreendendo perfeitamente que ela aumentaria consideravelmente as dimensões deste trabalho e retardaria seu aparecimento, mas não encontrei outro meio de cumprir a promessa feita no artigo “Por Onde Começar?". As desculpas por esse atraso, é necessário acrescentar outras quanto à extrema insuficiência da forma literária deste trabalho: tive de trabalhar com a maior das pressas e, ademais, foi interrompido freqüentemente por toda a sorte de outros trabalhos.

A análise das três questões indicadas anteriormente continua a ser o objeto deste trabalho, mas tive de começar por duas outras questões de ordem mais geral: por que uma palavra de ordem tão "inofensiva" e “natural" como "liberdade de crítica” constitui para nós um verdadeiro grito de guerra? Por que, não podemos chegar a um acordo nem sequer sobre a questão fundamental do papel da social-democracia, em relação ao movimento espontâneo das massas? Além disso, a exposição dos meus pontos de vista sobre o caráter e o conteúdo da agitação política visa a explicar a diferença entre a política sindical e a política social-democrata, e a exposição dos meus pontos de vista sobre as tarefas de organização visa a explicar a diferença entre os métodos artesanais de trabalho, que satisfazem os "economistas", e a organização dos revolucionários que consideramos indispensável. Em seguida, insisto mais uma vez sobre o "plano" de um jornal político para toda a Rússia, pois as objeções que têm sido feitas a esse respeito são inconsistentes e não respondem à natureza da questão proposta no artigo "Por Onde Começar?": como poderemos empreender, simultaneamente e por todos os lados, a formação da organização de que necessitamos? Enfim, na última parte do trabalho espero demonstrar que fizemos tudo o que dependia de nós para evitar a ruptura definitiva com os "economistas", ruptura que, entretanto, tornou-se inevitável; que o Robótcheie Dielo adquiriu uma importância especial, "histórica", se quiserem, porque exprimiu da maneira mais completa e com maior relevo, não o "economismo" conseqüente,. mas a dispersão e as incertezas que constituíram o traço peculiar de todo um período da história da social-democracia russa; que, por conseguinte, apesar de parecer bastante desenvolvida à primeira vista, a polêmica com o Rabótcheie Dielo tem sua razão de ser, pois não podemos seguir adiante sem, liquidar definitivamente esse período.

fevereiro de 1902. N. Lênin

I - Dogmátismo e liberdade de crítica

a) Que significa a "liberdade de crítica"?

"Liberdade de crítica” é, sem dúvida alguma, a palavra de ordem, mais em voga atualmente, aquela que aparece com mais freqüência nas discussões entre socialistas e democratas de todos os países. A primeira vista, nada parece mais estranho do que ver um dos contraditores exigir solenemente a liberdade de crítica. Acaso nos partidos avançados ergueram-se vozes contra a lei constitucional que. na maioria dos países europeus, garante a liberdade da ciência e da investigação científica? “Há algo escondido” dirá necessariamente todo homem imparcial que ouviu essa palavra de ordem em moda, repetida em todos os cantos, porém ainda não aprendeu o sentido do desacordo. ”Essa palavra de ordem é, evidentemente. uma daquelas pequenas palavras convencionais que, como os apelidos são consagrados pelo uso e tornam-se quase nomes comuns”. De fato, não constitui mistério para ninguém que, na social-democracia internacional de hoje, se tenham formado duas tendências, cuja luta ora “se anima e se inflama, ora se extingue sob as cinzas das grandiosas resoluções de tréguas”. Em que consiste a “nova tendência que "critica” o "velho” marxismo "dogmático", disse-o Bernstein, e demonstrou-o Millerand com suficiente clareza.
A social-democracia deve transformar-se de partido da revolução social em partido democrático de reformas sociais. Essa reivindicação política, foi cercada por Bernstein com toda uma bateria de "novos" argumentos e considerações muito harmoniosamente orquestrados. Nega ele a possibilidade de se conferir fundamento científico ao socialismo e de se provar, do ponto de vista da concepção materialista da história, sua necessidade e sua inevitabilidade, nega a miséria crescente, a proletarização e o agravamento das contradições capitalistas; declara inconsistente a própria concepção do "objetivo final", e rejeita categoricamente a idéia da ditadura do proletariado; nega a oposição de princípios entre o liberalismo e o socialismo, nega a teoria da luta de classes, considerando-a inaplicável a uma sociedade estritamente democrática, administrada segundo a vontade da maioria etc.

Assim, a exigência de uma mudança decisiva - da social-democracia revolucionária para o reformismo social burguês - foi acompanhada de reviravolta não menos decisiva em direção à crítica burguesa de todas as idéias fundamentais do marxismo. E como essa crítica, de há muito, era dirigida contra o marxismo do alto da tribuna política e da cátedra universitária, em uma quantidade de publicações e em uma série de tratados científicos: como, há dezenas de anos, era inculcada sistematicamente à jovem geração das classes instruídas, não é de se surpreender que a "nova” tendência "crítica” na social-democracia tenha surgido repentinamente sob sua forma definitiva, tal como Minerva da cabeça de Júpiter. Em seu conteúdo, essa tendência não teve de se desenvolver e de se formar; foi transplantada diretamente da literatura burguesa para a literatura socialista.

Prossigamos. Se a crítica teórica de Bernstein e suas ambições políticas permaneciam ainda obscuras para alguns, os franceses tiveram o cuidado de fazer uma demonstração prática, do "novo método". Ainda desta vez a França justificou sua velha reputação de "país em cuja história a luta de classes, mais do que em qualquer outro, foi resolutamente conduzida até o fim" (Engels, trecho do prefácio ao Der 18 Brumaire de Marx). Ao invés de teorizar, os socialistas franceses agiram deliberadamente; as condições políticas da França, mais desenvolvidas no sentido democrático, permitiram-lhes passar imediatamente ao "bernsteinismo prático” com todas as suas conseqüências. Millerand deu um exemplo brilhante desse bernsteinismo prático; também, com que empenho Bernstein e Volimar apressaram-se em defender e louvar Millerand! De fato, se a social-democracia não constitui, no fundo, senão um partido de reformas e deve ter a coragem de reconhecê-lo abertamente, o socialismo não somente tem o direito de entrar em um ministério burguês, como também deve mesmo aspirar sempre a isso. Se a democracia significa, no fundo, a supressão da dominação de classe, por que um ministro socialista não seduziria o mundo burguês com discursos sobre a colaboração das classes? Por que não conservaria ele sua pasta, mesmo após os assassínios de operários por policiais terem demonstrado pela centésima e pela milésima vez o verdadeiro caráter da colaboração democrática das classes? Por que não facilitaria pessoalmente o czar a quem os socialistas franceses não chamavam senão de knouteur, pendeur et déportateur? E para contrabalançar esse interminável aviltamento e autoflagelação do socialismo perante o mundo inteiro, essa perversão da consciência socialista das massas operárias - única base que nos pode assegurar a vitória -, são nos oferecidos os projetos grandiloqüentes de reformas insignificantes, insignificantes ao ponto de se poder ter obtido mais dos governos burgueses!

Aqueles que não fecham os olhos, deliberadamente, não podem deixar de ver que a nova tendência “crítica” no socialismo nada mais é que uma nova variedade do oportunismo. E se tais pessoas forem julgadas, não a partir do brilhante uniforme que vestiram, nem tampouco do título pomposo que se atribuíram, mas a partir de sua maneira de agir e das idéias que realmente divulgam, tornar-se-á claro que “a liberdade de crítica" é a liberdade da tendência oportunista na social-democracia, a liberdade de transformar esta em um partido democrático de reformas, a liberdade de implantar no socialismo as idéias burguesas e os elementos burgueses.

A liberdade é uma grande palavra, mas foi sob a bandeira da liberdade da indústria que foram empreendidas as piores guerras de pilhagem, foi sob a bandeira da liberdade do trabalho, que os trabalhadores foram espoliados. A expressão “liberdade de crítica”, tal como se emprega hoje, encerra a mesma falsidade. As pessoas verdadeiramente convencidas de terem feito progredir a ciência não reclamariam, para as novas concepções, a liberdade de existir ao lado das antigas, mas a substituição destas por aquelas. Portanto, os gritos atuais de "Viva a liberdade de crítica!” lembram muito a fábula do tonel vazio.

Pequeno grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e difícil, segurando-nos fortemente pela mão. De todos os lados, estamos cercados de inimigos, e é preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decisão livremente tomada, precisamente a fim de combater o inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes desde o início nos culpam de termos formado um grupo à parte, e preferido o caminho da luta ao caminho da conciliação. Alguns dos nossos gritam: Vamos para o pântano! E quando lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam: Como vocês são atrasados! Não se envergonham de nos negar a liberdade de convidá-los a seguir um caminho melhor! Sim, senhores, são livres não somente para convidar, mas de ir para onde bem lhes aprouver, até para o pântano; achamos, inclusive, que seu lugar verdadeiro é precisamente no pântano, e, na medida de nossas forças, estamos prontos a ajudá-los a transportar para lá os seus lares. Porém, nesse caso, larguem-nos a mão, não nos agarrem e não manchem a grande palavra liberdade, porque também nós somos “livres” para ir aonde nos aprouver, livres para combater não só o pântano, como também aqueles que para lá se dirigem!

______________________

* A propósito. É um fato quase único na história do socialismo moderno e extremamente consolador no seu gênero; pela primeira vez uma disputa entre tendências diferentes no seio do socialismo ultrapassa o quadro nacional para se tornar internacional. Anteriormente, as discussões entre lassalianos e eisenachianos, entre guesdistas e possibilistas, entre fabianos e sociais-democratas, entre norodovoltsy e sociais-democratas eram puramente nacionais, refletiam particularidades puramente nacionais, desenrolavam-se, por assim dizer, em planos diferentes. Atualmente (isto aparece, hoje, claramente) os fabianos ingleses, os ministerialistas franceses, os bernsteinianos alemães, os críticos russos formam todos uma única família, elogiam-se mutuamente, aprendem uns com os outros, e conduzem campanha comum contra o marxismo “dogmático”. Será que nessa primeira amálgama verdadeiramente internacional com o oportunismo socialista. a social-democracia revolucionária internacional fortalecer-se-á suficientemente para acabar com a reação política que há tanto tempo prejudica a Europa?

b) Os novos defensores da "liberdade de crítica"

É esta palavra de ordem (“liberdade de crítica”) que o Rabótcheie Dielo (n.º 10), órgão da "União dos Sociais-Democratas Russos" no estrangeiro, formulou solenemente nesses últimos tempos, não como postulado teórico, mas como reivindicação política, corno resposta à questão: “É possível a união das organizações sociais-democratas funcionando no estrangeiro?" - "Para uma união sólida, a liberdade de crítica é indispensável" (p. 36).

Daqui, duas conclusões bastante precisas são extraídas: 1ª) o Rabótcheie Dielo assume a defesa da tendência oportunista na social-democracia internacional, em geral; 2ª) o Rabótcheie Dielo reclama a liberdade de oportunismo na social-dernocracia russa. Examinemos estas conclusões.

O que desagrada "acima de tudo” ao Rabótcheie Dielo, é a "tendência que têm o Iskra e a Zaria de prognosticar a ruptura entre a Montanha e a Gironda da social-democracia internacional”.*1

“Falar de uma Montanha e de uma Gironda nos escalões da social-democracia, escreve o redator-chefe do Rabótcheie Dielo, B. Kritchévski, parece-nos uma analogia histórica superficial, singular na pena de um marxista: a Montanha e a Gironda não representavam temperamentos ou correntes intelectuais diversas como poderá parecer aos historiadores ideólogos, mas classes ou camadas diversas: de um lado, a média burguesia, de outro, a pequeno-burguesia e o proletariado. Ora, no movimento socialista contemporâneo, não existe coalizão de interesses de classe; em todas (sublinhado por Kritchévski) as suas variedades, aí compreendidos os bernsteinianos mais declarados, o movimento coloca-se inteiramente no campo dos interesses da classe do proletariado, da luta de classe do proletariado para sua emancipação política e econômica”(p. 32-33).

Afirmação ousada! Ignora B. Kritchévski o fato, há muito observado, de que foi precisamente a grande participação da camada de "acadêmicos", no movimento socialista dos últimos anos, que assegurou a rápida difusão do bernsteinismo? E, ainda mais, em que fundamenta o autor sua opinião para declarar que os "bernsteinianos mais declarados” colocam-se, também eles, no campo da luta de classe para a emancipação política e econômica do proletariado? Não seria possível dizê-lo. Esta defesa resoluta dos bernsteinianos mais declarados não encontra nenhum argumento, nenhuma razão para apoiá-la. Mas, o que de mais "superficial” pode haver do que esta maneira de julgar toda uma tendência, a partir das próprias convicções daqueles que a representam? O que há de mais superficial do que a moral que acompanha esses dois tipos ou caminhos diferentes, e mesmo diametralmente opostos, do desenvolvimento do Partido (p. 34-35 do Rabótcheie Dielo)? Observem que os sociais-democratas alemães admitem a completa liberdade de crítica; os franceses, ao contrário, não o fazem, e é o seu exemplo que demonstra todo o “mal da intolerância".

Respondemos que é precisamente o exemplo de B. Kritchévski aquele que mostra haver pessoas que, intitulando-se, por vezes marxistas, consideram a história exatamente “à maneira de Ilováiski". Para explicar a unidade do partido alemão e a dispersão do partido socialista francês, não há nenhuma necessidade de se buscar as particularidades da história de um ou outro país, de se fazer comparações entre as condições do semi-absolutismo militar e do parlamentarismo republicano, de se examinar as conseqüências da Comuna e da lei de exceção contra os socialistas, de se comparar a situação e o desenvolvimento econômicos, de se levar em conta o fato de que o “crescimento ímpar da social-democracia alemã” foi acompanhado de uma luta de vigor sem precedentes na história do socialismo, não somente contra os erros teóricos (Mühlberger, Dühring,*2 os socialistas da Cátedra), mas também contra os erros táticos (Lassalle) etc. etc. Tudo isto é supérfluo! Os franceses discutem entre si, porque são intolerantes; os alemães são unidos, porque são bons rapazes.
E, note-se bem, através dessa incomparável profundidade de pensamento, "recusa-se" um fato que arruina completamente a defesa dos bernsteinianos. Colocam-se estes últimos no campo da luta de classe do proletariado? Tal questão não pode ser definitivamente resolvida, e sem se voltar atrás, senão pela experiência histórica. Por conseguinte, o mais importante aqui é o exemplo da França, o único país onde os bernsteinianos tentaram voar com suas próprias asas, com a calorosa aprovação de seus colegas alemães (e em parte, dos oportunistas russos: cf. Rab, Dielo, n.º. 2-3, p., 83-84). Alegar a “intransigência" dos franceses, além do valor "histórico” de tal alegação (à maneira de Nozdrev, é simplesmente dissimular, sob palavras acrimoniosas, fatos extremamente desagradáveis.

Aliás, não temos nenhuma intenção de abandonar os a emães a B. Kritchévski e a outros inúmeros defensores da "liberdade de crítica". Se os "bernsteinianos mais declarados" ainda são tolerados no partido alemão, é unicamente na medida em que se submetem à resolução de Hanôver, que rejeita deliberadamente as "emendas” de Bernstein, e a de Lübeck, a qual (apesar de toda a diplomacia) contém uma advertência formal dirigida a Bernstein. Do ponto de vista dos interesses do partido alemão, pode-se discutir a oportunidade desta diplomacia e perguntar se, neste caso, um mau acordo vale mais do que uma boa discussão; em uma palavra, pode-se discordar sobre este ou aquele meio de rejeitar o bernsteinismo. mas não seria possível ignorar o fato de o partido alemão tê-lo repudiado por duas vezes, portanto, aceitar que o exemplo dos alemães confirma a tese de que "os bernsteinianos mais declarados colocam-se no campo da luta de classe do proletariado para sua emancipação econômica e política", significa que não se compreende absolutamente nada do que se passa sob os olhos de todos.*3

E ainda mais. O Rabótcheie Dielo, como já mostramos, apresenta à social-democracia russa a reivindicação da “liberdade de crítica" e defende o bernsteinismo. Aparentemente, deve ter-se convencido de que nossos "críticos" e nossos bernsteinianos eram injustamente maltratados. Mas, quais? Por quem, onde e quando? Por que injustamente? A esse respeito, o Rabótcheie Dielo cala-se; nem uma só vez menciona um crítico ou um bernsteiniano russo! Só nos resta escolher entre as duas hipóteses possíveis. Ou a parte injustamente ofendida não é senão o próprio Rabótcheie Dielo (o que é confirmado pelo fato de os dois artigos do n.º. 10 falarem unicamente das ofensas infligidas pela Zaria e pelo Iskra ao Rabótcheie Dielo). Mas, daí, como explicar o estranho fato de o Rabótcheie Dielo, que sempre negou obstinadamente qualquer solidariedade com o bernsteinismo, não ter podido se defender senão em favor dos “bernsteinianos mais declarados” e da liberdade de crítica? Ou, então, foram terceiros os injustamente ofendidos. Neste caso, quais seriam, pois, os motivos para não serem mencionados?

Assim, vemos que o Rabótcheie Dielo continua o jogo de esconde-esconde, ao qual se dedica (como demonstraremos mais adiante) desde que existe. Ademais, note-se esta primeira aplicação prática da famosa “liberdade de crítica". De fato, esta liberdade logo reconduziu não somente à ausência de toda crítica, mas também à ausência de todo julgamento independente em geral. O mesmo Rabótcheie Dielo que oculta, como uma doença secreta (segundo a feliz expressão de Satrover), a existência de um bernsteinismo russo, propõe para curar essa doença copiar pura e simplesmente a última receita alemã para o tratamento da forma alemã de tal doença! Ao invés de liberdade de crítica, imitação servil... pior ainda: simiesca! As manifestações do atual oportunismo internacional, em toda a parte idêntico em seu conteúdo social e político, variam segundo as particularidades nacionais. Em um país, as oportunidades há muito agrupam-se sob uma bandeira distinta; em outro, desdenhando a teoria, seguem praticamente a política dos socialistas radicais; em um terceiro, alguns membros do partido revolucionário, que se passaram para o campo do oportunismo, desejam atingir os seus fins, não através de luta aberta por princípios e táticas novas, mas através de corrupção gradual, imperceptível e, se é que se pode dizer, não passível de punição pelo seu partido; enfim, em outro lugar, esses desertores empregam os mesmos procedimentos nas trevas da escravatura política, onde a relação entre a atividade "legal" e a atividade "ilegal" etc., é completamente original. Fazer da liberdade de crítica e da liberdade do bernsteinismo a condição da união dos sociais democratas russos, sem uma análise das manifestações concretas e dos resultados particulares do bernsteinismo russo, é falar sem nada dizer.

Portanto, tentemos nós próprios dizer, ao menos em poucas palavras, o que não quis dizer (ou talvez não tenha sabido compreender) o Rabótcheie Dielo.

_______________

*1 A comparação entre as duas tendências do proletariado revolucionário (tendência revolucionária e tendência oportunista) e as duas tendências da burguesia revolucionária do século XVIII (a tendência jacobina - a "Montanha" - e a tendência girondina) foi feita no editorial do número 2 do Iskra (fevereiro de 1901). Plekhânov é o autor deste artigo. Falar do “jacobinismo” na social-dernocracia russa é ainda hoje o tema favorito dos "cadets". Dos “bezzaglavtsy”, e dos mencheviques. Mas, como Plekânov utilizou esta noção, pela primeira vez, contra a ala direita da social-democracia, hoje em dia prefere-se esquecer ou silenciar sobre o fato. (Nota do autor à edição russa de 1907. N. R.).

*2 Quando Engels atacou Dühring, para quem se inclinavam muitos representantes da social-democracia alemã, as acusações de violência, de intolerância, de falta de camaradagem na polêmica ergueram-se contra ele, até mesmo em público, no congresso do partido. Most e seus companheiros propuseram (no congresso de 1877) de não mais publicar no Vorwärts os artigos de Engels por “não apresentarem interesse para a grande maioria dos leitores”; Vahlteich declarou, de sua parte, que a inclusão desses artigos prejudicara muito o Partido; que Dühring também prestara serviços à social-democracia: "Devemos utilizar todo o mundo no interesse do Partido. e se os professores discutem, o Vowärts não é arena para tais disputas”. (Vorwärts n.º. 65, 6 de junho de 1877). Como se vê, também esse é um exemplo de defesa da “liberdade de crítica", exemplo sobre o qual fariam bem em refletir os nossos críticos legais e oportunistas ilegais, que tanto gostam de se referir aos alemães!

*3 É preciso notar que, sobre a questão do bernsteinismo no Partido alemão, o Rabótcheie Dielo sempre se contentou em relatar pura e simplesmente os fatos, "abstendo-se" totalmente de uma apreciação própria. Ver, por exemplo, o número 2-3, p. 66, sobre o congresso de Stuttgart: todas as divergências se dirigem para a "tática" e se constata apenas que a grande maioria permanece fiel à tática revolucionária anterior. Ou o número 4-5, p. 25 e seguintes, simples repetição dos discursos no congresso de Hanôver, reproduzindo a resolução de Bebel a exposição e a crítica de Bernstein são novamente remetidas a um “artigo especial”. 0 curioso é que na página 33, no número 4-5, lê-se: “... Acepções, expostas por Bebel, contam com o apoio da grande maioria do congresso”, e um pouco mais adiante: “... David defendia as concepções de Bernstein... Em primeiro lugar, procurava mostrar que... Bernstein e seus amigos colocavam-se, apesar de tudo (sic) no campo da luta de classes”... Isto foi escrito em dezembro de 1899, e, em setembro de 1901,o Rabótcheie Dieto sem dúvida já perdeu a confiança na exatidão das afirmações de Bebel e retoma o ponto de vista de David como o seu próprio!

c) A crítica na Rússia

No que concerne à nossa análise, a particularidade essencial da Rússia consiste em que o próprio começo do movimento operário espontâneo, de um lado, e a evolução da opinião pública avançada em direção ao marxismo, de outro, foram marcados pela combinação de elementos notadamente heterogêneos sob uma mesma bandeira para a luta contra o inimigo comum (contra uma filosofia política e social obsoletas).

Referimo-nos à lua-de-mel do “marxismo legal", um .fenômeno de extrema originalidade, em cuja possibilidade ninguém teria acreditado na década de 1880, ou no início da década de 1890. Em um país autocrático, onde a imprensa é completamente subjugada, em uma época de terrível reação política que reprimia as menores manifestações de descontentamento e de protesto político, a teoria do marxismo revolucionário abre repentinamente o caminho em uma literatura submissa à censura, e esta teoria foi exposta na linguagem de Esopo, compreensível. porém, a todos “aqueles que se interessavam”. O governo tinha se habituado a não considerar como perigosa senão a teoria da “Norodnaia Volia” (revolucionária); e não notava, como é comum, a sua evolução interna regozijando-se com toda crítica dirigida contra ela. Antes de o governo se aperceber, antes de o pesado exército de censores e policiais descobrir o novo inimigo e atirar-se sobre ele, muito tempo se passou (muito tempo para nós, russos). Ora, durante esse tempo, as obras marxistas foram editadas sucessivamente, foram fundados jornais e revistas marxistas; todo o mundo literalmente tornou-se marxista; os marxistas eram elogiados, adulados, os editores estavam entusiasmados com a venda extremamente rápida das obras marxistas. É compreensível que entre os marxistas principiantes, mergulhados na embriaguez do sucesso, tenha havido mais de um “escritor envaidecido”-...

Hoje, pode-se falar desse período tranqüilamente, como se fala do passado. Ninguém ignora que a efêmera emergência do marxismo à superfície de nossa literatura provém da aliança com elementos bastante moderados. No fundo, esses últimos eram democratas burgueses, e esta conclusão (evidenciada por sua evolução "crítica" ulterior) já se impunha a alguns à época em que a "aliança" ainda estava intacta.*1

Mas, assim sendo, a quem pertence a maior responsabilidade pelo "problema" ulterior, senão aos sociais-democratas revolucionários que concluíram esta aliança com os futuros "críticos"? Esta é a questão, seguida de uma resposta afirmativa, que se ouve, por vezes, das pessoas que vêem as coisas de maneira demasiado linear. Tais pessoas, porém, não têm razão alguma. Só podem temer as alianças temporárias, mesmo com elementos inseguros, os que não possuem confiança em si próprios. Nenhum partido político poderia existir sem essas alianças. Ora, a união com os marxistas legais foi, de qualquer modo, a primeira aliança, política verdadeira realizada pela social-democracia russa. Esta aliança permitiu alcançar uma vitória surpreendentemente rápida sobre o populismo, e assegurou a prodigiosa difusão das idéias marxistas (é verdade que vulgarizadas). Além disso, esta aliança não foi concluída completamente sem “condições" . Testemunha-o a compilação marxista, Documentos Sobre o Desenvolvimento Econômico da Rússia, queimada em 1895 pela censura. Se se pode comparar o acordo literário com os marxistas legais a uma aliança política, pode-se comparar tal obra a um contrato político.

Evidentemente, a ruptura não se deve ao fato de os "aliados” se terem declarado democratas burgueses. Ao contrário, os representantes dessa última tendência constituem, para a social-democracia, aliados naturais e desejáveis, sempre que se trate de tarefas democráticas que a situação atual da Rússia coloca em primeiro plano. Mas, a condição necessária para tal aliança, é que os socialistas tenham a plena possibilidade de revelar à classe operária a oposição hostil entre os seus interesses e os da burguesia. Ora, o bernsteinismo e a tendência "crítica" a que aderiram, em geral, os marxistas legais, em sua maioria, removiam essa possibilidade e pervertiam a consciência socialista, aviltando o marxismo, pregando a teoria da atenuação dos antagonismos sociais, proclamando absurda a idéia da revolução social e da ditadura do proletariado, reconduzindo o movimento operário e a luta de classes a um sindicalismo estreito e à luta "realista” por reformas pequenas e graduais. Isso eqüivalia perfeitamente à negação, para a democracia burguesa, do direito do socialismo à independência e, por conseguinte, de seu direito à existência; e, na prática, tendia a transformar o movimento operário, então em seus primórdios, em apêndice do movimento liberal.

É evidente que, nessas condições, impunha-se a ruptura. Porém, pela particularidade original da Rússia, essa ruptura de novo consistiu em simplesmente eliminar os sociais-democratas da literatura "legal" , a mais acessível ao público e a mais amplamente difundida. Os “ex-marxistas", que se agruparam "sob o signo da crítica" e obtiveram quase o monopólio da "execução" do marxismo, aí se entrincheiraram. Os slogans, "contra a ortodoxia" e "viva a liberdade de crítica" (retomados agora pelo Rabótcheie Dielo) tornaram-se imediatamente palavras em moda. Nem mesmo os censores e os policiais puderam resistir a essa moda, como o mostram as três edições russas do livro famoso (famoso à maneira de Eróstrato) Bernstein, ou a recomendação de Zoubatov das obras de Bernstein, de M. Prokopovitch etc. (Iskra n.º. 10). Aos sociais-democratas impunha-se, então, a tarefa já em si difícil, e ainda mais incrivelmente dificultada pelos obstáculos puramente exteriores, de combater a nova corrente. Ora, tal corrente não se limitava à literatura. A evolução em direção à “crítica" encontrou-se com o entusiasmo dos sociais-democratas práticos pelo “economismo".*2

O nascimento e o desenvolvimento da ligação e da dependência recíproca, entre a crítica legal e o "economismo" ilegal, constituem questão interessante, que poderia servir de objeto de um artigo especial. Aqui, basta-nós assinalar a existência incontestável dessa ligação. O famoso Credo adquiriu tão merecida celebridade por ter formulado abertamente essa ligação, e divulgado incidentalmente a tendência política fundamental do "economismo": para os operários, a luta econômica (ou, mais exatamente, a luta sindical, que abrange também a política especificamente operária); para os intelectuais marxistas, a fusão com os liberais para a “luta" política. A atividade sindical “no povo" foi a realização da primeira metade da tarefa; a crítica legal, da segunda. Essa declaração era uma arma tão preciosa contra o “economismo" que se o Credo não tivesse existido, teria sido necessário inventá-lo.
O Credo não foi inventado, mas publicado sem o consentimento e talvez mesmo contra a vontade de seus autores. Em todo o caso, o autor destas linhas, que contribuiu para trazer à luz o novo "programa",*3 teve ocasião de ouvir lamentações e censuras pelo fato de o resumo dos pontos de vista dos oradores, por eles esboçado, ter sido divulgado em cópias, rotulado com o nome de Credo, e mesmo publicado na imprensa com o protesto! Se recordamos esse episódio, é porque ele revela um traço muito curioso de nosso "economismo": o temor à publicidade. Este é um traço do "economismo” em geral, e não somente dos autores do Credo:

Manifesta-se na Robótchaia Mysl o mais franco e honesto adepto do "economismo", e no Rabótcheie Dielo (que se ergueu contra a publicação de documentos “economistas” no Vademecum, e. no Comitê de Kiev, há cerca de dois anos, não quis autorizar que se publicasse sua "Profissão de Fé" em conjunto com a refutação*4 desta última; e manifesta-se, também. em muitos e muitos representantes do “economismo”.

Esse temor da crítica, que demonstram os adeptos da liberdade de crítica, não poderia ser explicado unicamente pela astúcia (ainda que a astúcia, por vezes, desempenhe o seu papel: não é vantajoso expor ao ataque do adversário as tentativas ainda frágeis de uma nova tendência!). Não, a maioria dos “economistas” com uma sinceridade absoluta vê (e pela própria essência do "economismo” tem de fazê-lo) sem benevolência todas as discussões teóricas, divergências de facção, grandes problemas políticos, projetos de organização dos revolucionários etc. "Seria melhor deixar tudo isto aos estrangeiros.” disse-me um dia um dos “economistas” bastante conseqüentes, exprimindo, assim, esta opinião extremamente difundida (puramente sindical, mais uma vez), de que nossa incumbência é o movimento operário, as organizações operárias internas de nosso país, e que todo o resto é invenção dos doutrinários, uma “sobrestimação da ideologia”, segundo a expressão dos autores da carta publicada no número 12 do Iskra, em uníssono ao número 10 do Rabótcheie Dielo.
Agora, a questão que se coloca é: dadas essas particularidades da “crítica” e do bernsteinismo russos, qual devia ser a tarefa daqueles que, realmente e não apenas em palavras. desejam ser adversários do oportunismo? Em primeiro lugar, era necessário retomar o trabalho teórico que, apenas começado à época do marxismo legal, voltara então a recair sobre os militantes ilegais, sem esse trabalho, o crescimento normal do movimento seria impossível. Em seguida, era necessário empreender uma luta ativa contra a “crítica” legal que corrompia profundamente os espíritos. Enfim, era preciso combater vigorosamente a dispersão e as flutuações do movimento prático, denunciando e refutando toda tentativa de rebaixar, consciente ou inconscientemente, nosso programa e nossa tática.

Sabe-se que o Rabótcheie Dielo não cumpriu nenhuma dessas tarefas, e mais adiante analisaremos detalhadamente essa verdade bem conhecida, sob os mais diversos ângulos. No movimento, desejamos simplesmente mostrar a contradição flagrante que existe entre a reivindicação da “liberdade de crítica" e as particularidades de nossa crítica nacional e o "economismo" russo. Olhem a resolução pela qual a “União dos Sociais-Democratas Russos no Estrangeiro" confirmou o ponto de vista do Rabótcheie Dielo: “No interesse do desenvolvimento ideológico ulterior da social-democracia, reconhecemos que a liberdade de criticar a teoria social-democrata é absolutamente necessária na literatura do partido, na medida em que esta crítica não contradiga o caráter de classe e o caráter revolucionário desta teoria." (Dois Congressos, p. 10).

E os motivos que se apresentam são: a resolução "em sua primeira parte, coincide com a resolução do congresso do Partido em Lübeck", a propósito de Bernstein”... Na sua simplicidade, “os (membros) da União" nem sequer notam o testimonium paupertatis (certificado de indigência) que passam a si próprias!... "mas...., em sua segunda parte, restringe a liberdade de crítica de forma mais estrita do que no congresso de Lübeck".

Assim, a resolução da "União” será dirigida contra os bernsteinianos russos? Senão, seria completamente absurdo referir-se a Lübeck!. Mas, é falso que "restringe de forma mais estrita a liberdade de crítica". Pela sua resolução de Hanôver, os alemães rejeitaram, ponto por ponto, exatamente as emendas de Bernstein, e na resolução de Lübeck, endereçaram uma advertência pessoal a Bernstein mencionando-o na resolução. Entretanto, nossos imitadores "livres" não fazem a menor alusão a uma única das manifestações da “crítica" e do "economismo" especificamente russos. Dada esta reticência, a alusão pura e simples ao caráter de classe e do caráter revolucionário da teoria deixa muito mais margem a falsas interpretações, sobretudo se a "União" recusa-se a classificar no oportunismo a "tendência dita economista" (Dois Congressos, p. 8 § 1). Mas, dizemos isso de passagem. O importante é que as posições dos oportunistas, em relação aos sociais-democratas revolucionários, são diametralmente opostas na Alemanha e na Rússia.

Na Alemanha, os sociais-democratas revolucionários, como se sabe, são favoráveis à manutenção do que existe: ao antigo programa e à antiga tática conhecidos de todos e explicados em todos os seus detalhes pela experiência de dezenas e dezenas de anos. Ora, os “críticos" desejam fazer modificações e, como estão em ínfima maioria e suas tendências revisionistas são demasiado tímidas, compreende-se os motivos por que a maioria limita-se a rejeitar friamente sua "inovação". Na Rússia, ao contrário, críticos e “economistas” são favoráveis à manutenção do que existe: os “críticos” desejam que se continue a considerá-los marxistas e que se lhes assegure à "liberdade de crítica", da qual se beneficiam sob todos os aspectos (pois, no fundo, nunca reconheceram qualquer coesão dentro do Partido;*5 além disso, não tínhamos um órgão do Partido universalmente reconhecido e capaz de "limitar" a liberdade de crítica, nem sequer por um conselho); os "economistas" desejam que os revolucionários reconheçam "os plenos direitos do movimento no momento atual" (Rab. Dielo n.º. 10, p. 25), isto é, a "legitimidade” da existência do que existe; que os “ideólogos não procurem desviar o movimento do caminho "determinado pela interação recíproca dos elementos materiais e do meio material" ("carta" do número 12 do Iskra); que se reconheça como desejável a luta, "a mesma luta que os operários podem conduzir nas circunstâncias atuais", e como possível aquela "que eles conduzem. na realidade, no momento presente" ("Suplemento especial da Rabótchaia Mysl”, p. 14).

Porém, para nós, sociais-democratas revolucionários, este culto do espontâneo, isto é do que existe "no momento presente", não nos diz nada. Exigimos que seja modificada a tática que tem prevalecido nesses últimos anos; declaramos que "antes de nos unir, e para nos unir, devemos começar por nos demarcar nítida e resolutamente" (anúncio da publicação do Iskra). Em uma palavra, os alemães conformam-se ao estado atual das coisas e rejeitam as modificações; quanto a nós, rejeitando a submissão e a resignação ao estado atual das coisas, exigimos a modificação.

É esta a “pequena" diferença que nossos "livres" copiadores das resoluções alemãs não notaram!
______________

*1 Alusão ao artigo de K. Touline contra Struve, artigo redigido com base na conferência intitulada: Influencia do Marxismo Sobre a Literatura Burguesa.

*2 0 termo “economismo” foi utilizado entre aspas, da mesma forma que na tradução francesa, tendo em vista a intenção do Autor de ressaltar seu sentido irônico. (Nota da tradução brasileira).

*3 Trata-se do Protesto dos 17 contra o Credo. 0 autor dessas linhas participou da redação desse protesto (fins de 1899). 0 protesto e o Credo foram impressos no exterior, na primavera de 1900. Sabe-se, agora, por um artigo da Senhora Kuskova (publicado no Byloie, creio eu) que foi ela a autora do Credo. E entre os "economistas” dessa época, no exterior, um papel marcante foi desempenhado por M. Prokopovitch.

*4 Pelo que sabemos, a composição do Comitê de Kiev foi modificada posteriormente.

*5 Esta ausência de coesão verdadeira no partido e de tradição de partido constitui, por si só, uma diferença fundamental entre a Rússia e a Alemanha, que deveria ter posto qualquer socialista de espírito sensato em guarda contra qualquer imitação cega. Aqui está uma amostra daquilo a que chegou a “liberdade de crítica" na Rússia. O critico russo, M. Bulgákov, faz esta observação ao crítico austríaco, Hertz: “Apesar de toda a independência de suas conclusões, Hertz, quanto a esse ponto (a cooperação), permanece aparentemente bastante ligado à opinião de seu partido e, embora em desacordo quanto aos detalhes, não se revolve a abandonar o princípio geral” (0 Capitalismo e a Agricultura. t. 11, p. 287). Um súdito de um Estado politicamente escravizado, no qual 999/1000 da população estão corrompidos até a medula dos ossos pelo servilismo político e não têm qualquer idéia sobre a honra e a coesão do partido, repreende à altura um cidadão de um Estado constitucional, por estar demasiado “ligado à opinião do partido”! Nada mais resta às nossas organizações ilegais do que põe-se a redigir resoluções sobre a liberdade de crítica....

D) Engels e a importância da luta teórica

"O dogmatismo, o doutrinarismo", a fossilização do Partido, castigo inevitável do estrangulamento forçado do pensamento", tais são os inimigos contra os quais entram na arena os campeões da "liberdade de crítica" do Rabótcheie Dielo. Apreciamos que esta questão tenha sido colocada na ordem do dia; apenas proporíamos completá-la com esta outra questão:
Mas, quem são os juizes?

Temos diante de nós dois prospectos de edições literárias. O primeiro é o "programa do Rabótcheie Dielo, órgão periódico da 'União dos Sociais-Democratas Russos’” (separata do número 1 do Rab. Dielo). O segundo é o "anúncio da retomada das edições do grupo 'Liberação do Trabalho’”.
Todos os dois são datados de 1899, época em que a "crise do marxismo" estava, há muito, na ordem do dia. Portanto, em vão procuraríamos na primeira obra as indicações sobre esta questão e uma exposição precisa da posição que pensa tomar, a esse respeito, perante o novo órgão.

Quanto ao trabalho teórico e suas tarefas essenciais à hora presente, esse programa e seus complementos adotados; pelo Terceiro Congresso da "União"(em 1901) nada mencionam (Dois Congressos, p. 15-18).

Durante todo esse tempo, a redação do Rabótcheie Dielo deixou de lado as questões de teoria, apesar de essas preocuparem os sociais-democratas do mundo inteiro.
O outro prospecto, ao contrário, assinala logo de início o descuramento do interesse pela teoria, no decurso desses últimos anos; reclama, insistentemente, “uma atenção vigilante para o aspecto teórico do movimento revolucionário do proletariado”, e exorta a urna “crítica implacável das tendências anti-revolucionárias, bernsteinianas, e outras", em nosso movimento. Os números publicados da Zaria mostram como este programa foi aplicado.

Vê-se assim, portanto, que as grandes frases contra a fossilização do pensamento etc. dissimulam o desinteresse e a impotência para fazer progredir o pensamento teórico. O exemplo dos sociais democratas russos ilustra, de uma forma particularmente notável, esse fenômeno comum à Europa (e de há muito assinalado pelos marxistas alemães), de que a famosa liberdade de crítica não significa a substituição de uma teoria por outra, mas a liberdade com respeito a todo sistema coerente e refletido; significa o ecletismo e a ausência de princípios. Quem conhece, por pouco que seja, a situação de fato de nosso movimento não pode deixar de ver que a grande difusão do marxismo foi acompanhada de certo abaixamento do nível teórico. Muitas pessoas, cujo preparo era ínfimo ou nulo, aderiram ao movimento pelos seus sucessos práticos e importância efetiva. Pode-se julgar a falta de tato demostrada pelo Rabótcheie Dielo, pela definição de Marx, que lançou de forma triunfante:

"Cada passo avante, cada progresso real valem mais que uma dúzia de programas". Repetir tais palavras nessa época de dissensão teórica eqüivale a dizer à vista de um cortejo fúnebre: "Tomara que sempre tenham algo para levar!" Além disso, essas palavras são extraídas da carta sobre o programa de Gotha, na qual Marx condena categoricamente o ecletismo no enunciado dos princípios. Se a união é verdadeiramente necessária, escrevia Marx aos dirigentes do partido, façam acordos para realizar os objetivos práticos do movimento, mas não cheguem, ao ponto de fazer comércio dos princípios, nem façam "concessões" teóricas. Tal era o pensamento de Marx, e eis que há entre nós pessoas que, em seu nome, procuram diminuir a importância da teoria!

Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário. Não seria demasiado insistir sobre essa idéia em uma época, onde o entusiasmo pelas formas mais limitadas da ação prática aparece acompanhado pela propaganda em voga do oportunismo. Para a social-democracia russa em particular, a teoria assume importância ainda maior por três razões esquecidas com muita freqüência, a saber: primeiro, nosso partido apenas começou a se constituir. a elaborar sua fisionomia, e está longe de ter acabado com as outras tendências do pensamento revolucionário que ameaçam desviar o movimento do caminho certo. Ao contrário, assistimos justamente nesses últimos tempos (como Axelrod já há muito havia predito aos "economistas”) ao recrudescimento das tendências revolucionárias não sociais-democratas. Nessas condições, um erro "sem importância" à primeira vista pode acarretar as mais deploráveis conseqüências, e é preciso ser míope para considerar inoportunas ou supérfluas as controvérsias de facção e a estrita delimitação dos matizes. Da consolidação deste ou daquele matiz pode depender o futuro da social-democracia russa por muitos e longos anos.

Segundo, o movimento social-dernocrata é, pela sua própria essência, internacional. Isso não significa somente que devemos combater o chauvinismo nacional. Significa, também que um movimento iniciado em um país jovem só pode ter êxito se assimilar a experiência dos outros países. Ora, para tanto não é suficiente apenas conhecer essa experiência, ou limitar-se a copiar as últimas resoluções. É preciso saber proceder à análise crítica dessa experiência e controlá-la por si próprio. Somente quando se constata o quanto se desenvolveu e se ramificou o movimento operário contemporâneo, pode-se compreender a reserva de forças teóricas e de experiência política (e revolucionária) necessárias para se realizar essa tarefa.
Terceiro, a social-democracia russa tem tarefas nacionais como nenhum outro partido socialista do mundo jamais o teve. Mais adiante, falaremos das obrigações políticas e da organização que nos impõe essa tarefa: liberar todo um povo do jugo da autocracia. No momento, apenas indicaremos que só um partido guiado por uma teoria de vanguarda é capaz de preencher o papel de combatente de vanguarda E para se fazer uma idéia mais concreta do que isso significa, lembre-se o leitor dos predecessores da social-democracia russa, tais como Herzen, Bielínski, Tchernichévski e a brilhante pleiade de revolucionários de 1870-1880; pense na importância mundial de que a literatura, russa atualmente se reveste; e. mas, basta!

Citaremos as observações, feitas por Engels em 1874, sobre a importância da teoria no movimento social-democrata. Engels; reconhecia na grande luta da social-democracia não apenas duas formas (política e econômica) - como se faz entre nós - mas três, colocando a luta teórica no mesmo plano. Suas recomendações ao movimento operário alemão, já vigorosa prática e politicamente, são tão instrutivas do ponto de vista dos problemas e discussões atuais, que o leitor, esperamo-lo, não se importará que transcrevamos o longo trecho do prefácio ao livro Der deutsche Bauernkrieg, que há muito já se tornou uma raridade bibliográfica:

"Os operários alemães apresentam duas vantagens essenciais sobre os demais operários da Europa. Primeiramente, pertencem, ao povo mais teórico da Europa; além disso, conservaram o senso teórico já quase completamente desaparecido nas classes por assim dizer “cultivadas" da Alemanha. Sem a filosofia alemã que o precedeu, notadamente a de Hegel, o socialismo. alemão - o único socialismo científico que já existiu - não teria sido estabelecido. Sem o sentido teórico dos operários, estes não teriam jamais assimilado esse socialismo científico, como o fizeram.

E o que prova esta imensa vantagem é, de um lado, a indiferença com respeito a toda teoria, uma das causas principais do pouco progresso do movimento operário inglês, apesar da excelente organização dos diferentes ofícios, e, de outro lado, a perturbação e a confusão provocadas pelo proudhonismo, em sua forma inicial, entre os franceses e os belgas, e, na sua forma caricaturada, que lhe deu Bakunin, entre os espanhóis e os italianos.

A segunda vantagem é que os alemães integraram tardiamente o movimento operário, tendo sido quase os últimos. Do mesmo modo que o socialismo alemão jamais se esquecerá de que foi erigido sobre os ombros de Saint-Simon, de Fourier de Owen, três homens que, apesar de toda a fantasia e a utopia de suas doutrinas, encontram-se entre os maiores cérebros de todos os tempos e se anteciparam genialmente a inumeráveis idéias, cuja exatidão presentemente demonstramos de maneira científica, também o movimento operário prático alemão jamais deve esquecer-se que desenvolveu sobre os ombros dos movimentos inglês e francês, que pôde simplesmente beneficiar-se de suas experiências adquiridas penosamente e evitar, no presente, seus erros, então na maioria inevitáveis. Sem o passado dos sindicatos ingleses e das lutas políticas dos franceses, sem o impulso gigantesco dado especialmente pela Comuna de Paris, onde estaríamos nós, hoje?

É preciso reconhecer que os operários alemães souberam aproveitar as vantagens de sua situação, com rara inteligência. Pela primeira vez, desde que existe um movimento operário, a luta é conduzida em suas três direções - teórica, política e econômico-prática (resistência contra os capitalistas) - com tanto método e coesão. É neste ataque concêntrico, por assim dizer, que reside a força invencível do movimento alemão.

De um lado, em ramo de sua posição vantajosa; de outro, em decorrência das particularidades insulares do movimento inglês e da violenta repressão do movimento francês, os operários alemães, no momento, colocam-se na vanguarda da luta proletária. Não é possível prever durante quanto tempo os acontecimentos, lhes permitirão ocupar esse posto de honra.. Mas, enquanto o ocuparem, é de se esperar que cumprirão seu dever, como convém. Para tanto, deverão redobrar os esforços, em todos os domínios da luta e da agitação. Os dirigentes, em particular, deverão instruir-se cada vez mais sobre todas as questões teóricas, libertar-se cada vez mais da influência das frases tradicionais, pertencentes às concepções obsoletas do mundo, e jamais se esquecer que o socialismo, desde que se tornou uma ciência, exige ser tratado, isto é, estudado, como uma ciência. A tarefa consistirá, a seguir, em difundir com zelo cada vez maior entre as classes operárias, as concepções sempre mais claras, assim adquiridas, e em consolidar de forma cada vez mais poderosa a organização do partido e dos sindicatos...

... Se os operários alemães continuarem a agir assim, não digo que marcharão à frente do movimento - não é de interesse do movimento que os operários de uma única nação, em particular, marchem à frente -, mas ocuparão um lugar de honra na linha de combate; e estarão armados e prontos se provas difíceis e inesperadas, ou ainda grandes acontecimentos exigirem deles maior coragem, decisão e ação”.

As palavras de Engels revelaram-se proféticas. Alguns anos mais tarde, os operários alemães foram inesperadamente submetidos à dura provação da lei de exceção contra os socialistas. E os operários alemães encontram-se de fato suficientemente preparados para sair vitoriosos.

O proletariado russo terá de sofrer provas ainda infinitamente mais duras, terá de combater um monstro perto do qual o da lei de exceção, em um país constitucional, parece um pigmeu. A história nos atribui, agora, uma tarefa imediata, a mais revolucionária de todas as tarefas imediatas do proletariado de qualquer país. A realização dessa tarefa, a destruição do baluarte mais poderoso, não somente da reação européia, mas também (podemos agora dize-lo) da reação asiática, fará do proletariado russo a vanguarda do proletariado revolucionário internacional. E temos o direito de esperar que obteremos este título honorário merecido já pelos nossos predecessores, os revolucionários de 1870-1880, se soubermos animar com o mesmo espírito de decisão e a mesma energia irredutível. nosso movimento, mil vezes mais amplo e mais profundo.