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O significado histórico da vitória de Flávio Dino

Osvaldo Bertolino Publicado em 06.10.2014

Com a eleição de um de seus quadros para o governo do Estado do Maranhão, o PCdoB dá mais um passo importante para consolidar sua experiência em cargos executivos. Sempre presente na vida democrática brasileira, os comunistas comprovam que uma tática política acertada tem grande importância para impulsionar o país no rumo das mudanças e do progresso social.

Em um encontro com empresários e produtores rurais do Maranhão, realizado dia 10 de setembro, Flávio Dino, o governador que acaba de ser eleito no Estado do Maranhão pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), resumiu as prioridades da sua virtual gestão: melhorar a infraestrutura e os índices de desenvolvimento humano, os piores do Brasil. Com sua característica fala mansa, mas incisiva, ele discorreu sobre os dados maranhenses, apresentou suas propostas e debateu com seu principal concorrente, Edison Lobão Filho, do PMDB. A reação do seu opositor foi uma espécie de síntese dos ataques sistemáticos que o candidato do PCdoB enfrentou.
Com sua habitual camisa social desabotoada e um blazer, Lobão Filho, que é empresário e filho do ministro de Minas e Energia Edison Lobão — um antigo ícone político da oligarquia cujo vértice é o ex-presidente da República José Sarney —, fez pose e disparou epítetos anticomunistas. Além de acusar Dino de pretender implantar o “comunismo” no Maranhão, ele defendeu uma plataforma abertamente neoliberal. “Achei estranha a visão do comunista, vai contra sua própria filosofia. Entendo que o Estado deve ter o mínimo de participação na vida privada”, discursou.
Segundo Lobão Filho, o Maranhão precisava de “visão empresarial, não comunista”. O público não passou recibo; ao contrário, aplaudiu Flávio Dino, de forma entusiasmada, quando ele comentou uma pesquisa que indicava o Maranhão e o Amapá (onde José Sarney se elegeu senador) entre os três piores Estados para investimentos estrangeiros. “O que ambos têm em comum?”, indagou, deixando implícita a conclusão de que a causa são os 50 anos de domínio quase total da oligarquia Sarney no Maranhão e a influência representativa do mandato de senador do ex-presidente no Amapá. 
Episódio escabroso
Em um panfleto distribuído na capital do Estado, São Luís, Lobão Filho foi retratado como aquele que “tem fé em Deus”, ao passo que acusava Flávio Dino de acreditar “no comunismo”. No verso do panfleto, havia uma silhueta do agora governador eleito com a foice e o martelo estampados no peito. A campanha de Lobão Filho veiculou inserções na TV Mirante, ligada à família Sarney, nas quais dizia para os eleitores evitarem a transformação do Maranhão “no primeiro estado comunista do Brasil”. O canal reforçou o ataque em uma entrevista quando Dino foi perguntado se ele iria “implantar o comunismo”, caso eleito. Em resposta, o candidato do PCdoB reafirmou sua religiosidade.
Em outro episódio escabroso, dois diretores de uma das unidades do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, foram afastados do cargo por terem gravado um vídeo com graves acusações falsas ao candidato do PCdoB. O vídeo, levado ao ar pela TV Difusora, pertencente à família de Edison Lobão Filho, foi um dos episódios que mais gerou tensão na campanha. “De forma irresponsável, a TV de propriedade do meu adversário passou a exibir um vídeo anônimo, armado, falsificado, com personagens que ninguém sabe quem são, inventando histórias absurdas e sem nenhuma prova”, denunciou Flávio Dino.
Envergadura política
O Maranhão, que já chegou a ser chamado de “sarneystão”, não acompanhou os avanços sociais, econômicos e políticos do país nesses 50 anos. Com esse dado, ficou relativamente fácil para Flávio Dino articular um amplo arco de alianças, que abarcou desde o PSB e o PSDB até consideráveis setores petistas (o PT optou por fazer aliança com o PMDB), sobretudo os ligados ao Movimento Sem Terra (MST) e a entidades sindicais. O dirigente petista Chico Gonçalves, um dos mediadores entre a campanha de Dino e a de seu partido, chegou a afirmar que derrotar o grupo de Sarney no Maranhão não era “uma questão política, mas humanitária”.
Com essa envergadura política, o governador eleito terá um lastro seguro para enfrentar o poderio da oligarquia agora na oposição. “Nossa expectativa é fazer parcerias com prefeituras, igrejas e sindicatos e criar uma rede de proteção e prevenir a capacidade de sabotagem mostrada pelo grupo de Sarney no mandato de Lago”, afirma Dino, referindo-se à cassação do mandato do ex-governador Jackson Lago, acusado de “compra de votos” de quatro eleitoras por R$ 100 reais. Segunda colocada nas eleições de 2006, a atual governadora, Roseana Sarney, filha do ex-presidente, assumiu o cargo.
Significado histórico
Para o PCdoB, a eleição de Flávio Dino tem um significado histórico. O Partido, com 92 anos de existência, pela primeira vez tem um de seus quadros eleito para um cargo executivo de âmbito estadual. Em sua longa trajetória, contudo, sempre que o país respirou democracia a legenda dos comunistas do Brasil esteve presente, dando a sua contribuição e combinando a atuação política tradicional entre as massas com as atividades parlamentares e executivas.
Em 1928, concorrendo pelo Bloco Operário e Camponês (BOC), os comunistas elegeram Octávio Brandão para intendente (vereador) no município do Rio de Janeiro. Já em 1945, quando a democracia emergiu com força no Brasil após a derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial — com a ativa colaboração dos comunistas brasileiros — o Partido elegeu 15 deputados e um senador, além de conquistar quase 10% dos votos na eleição presidencial, com o candidato Yeddo Fiúza. Golpeado pelas forças direitistas que jamais aceitaram a presença comunista na vida política do país, teve seu registro eleitoral cassado em maio de 1947 e perdeu os mandatos dos seus parlamentares em janeiro de 1948 por força de uma lei discricionária aprovada no Congresso Nacional.
Em janeiro de 1947, elegeu mais dois deputados federais por São Paulo (Pedro Pomar e Diógenes Arruda Câmara), que concorreram pelo Partido Social Progressista (PSP), e bancadas expressivas de deputados estaduais, eleitas pela própria legenda comunista. Em 1949, os comunistas elegeram, por outros partidos, expressivas bancadas de vereadores e dois prefeitos: Manoel Calheiros, em Jaboatão dos Guararapes (PE), e Armando Mazzo, em Santo André (SP). Novamente golpeado, desta vez por uma manobra da Justiça Eleitoral, os comunistas perderam os mandatos dos vereadores eleitos em São Paulo e do prefeito andreense, que nem sequer tomou posse.
Juscelino Kubitscheck
O Partido voltou a figurar com destaque no cenário político nacional quando o candidato Juscelino Kubitscheck lançou a sua candidatura, em 1955. Para os comunistas, ele oferecia maiores garantias de respeito à legalidade constitucional do país. Segundo João Amazonas, à época já um histórico dirigente do Partido, ele e Lincoln Oest, também da direção partidária, conversaram com Juscelino. Amazonas conta que o candidato teria dito: “Vocês têm no Brasil uns trezentos mil votos? Numa eleição presidencial, trezentos mil votos não têm importância nenhuma. Agora, se eu for eleito vou mandar suspender essa perseguição jurídica que há aí contra vocês. Eu vou parar com isso.” Juscelino Kubitscheck acabou eleito com menos de trezentos mil votos de diferença em relação ao segundo colocado.
No período pós-ditadura militar, o PCdoB elegeu vários prefeitos, alguns em cidades de destaque, como Olinda (PE), Contagem (MG) e Jundiaí (SP). A eleição de Flávio Dino representa mais um passo na consolidação dos comunistas também no âmbito executivo. Ela reforça a força de uma corrente política e ideológica que tem na democracia sua principal plataforma de luta por um Brasil com justiça social sempre em progressão.