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O golpe já começou

João Paulo Cunha Publicado em 07.03.2016

Não adianta mais gritar “não vai ter golpe”. O golpe já está em andamento. Não no modelo tradicional da interrupção violenta da ordem institucional pelos militares, mas na forma sutil da criação de um Estado de exceção no país

Não adianta mais gritar “não vai ter golpe”. O golpe já está em andamento. Não no modelo tradicional da interrupção violenta da ordem institucional pelos militares, mas na forma sutil da criação de um Estado de exceção no país.

A decisão de tirar Dilma Rousseff do poder, de destruir os partidos de esquerda e de desmoralizar a figura do maior líder popular do Brasil, o ex-presidente Lula, são as etapas mais visíveis nesse neogolpe autoritário, midiático e antipopular.

Mas tem mais. A movimentação golpista não quer apenas o ganho presente, com o impeachment da presidente, nem mesmo as conquistas futuras, como impedir Lula de concorrer em 2018. É preciso destruir as conquistas populares de uma vez por todas.

As ações de hoje, quando instituições, como o Ministério Público e a Polícia Federal deixaram de lado sua função de controle para assumir postura nitidamente política, fere o Estado de Direito no Brasil. Não se trata de uma investigação ou de um julgamento, mas da aplicação de uma pena antecipada: o constrangimento a qualquer preço. Mesmo que arrisque a democracia e quebre a economia.

O que está na mira da oposição, travestida de combate à corrupção? São as conquistas sociais, a distribuição de renda, a política externa independente, as cotas, a defesa das empresas nacionais, a ampliação dos direitos humanos.

Por isso o que vale para o governo não vale para a oposição. A delação pode ser prova em alguns casos e desprezada em outros. Um pedalinho vale mais que um avião cheio de pasta de cocaína. Propina de Furnas não tem o mesmo valor de mercado que a da Petrobras. Não somos todos iguais perante a lei, como arroga insistentemente a turma de Curitiba.

O neogolpe tem um ingrediente a mais: o papel da mídia. Os telejornais, revistas e jornais seguem hoje o cronograma da Lava-Jato. Servem para testar, incitar e criar atmosfera. Não servem mais para informar.

A irresponsabilidade de todo esse processo, que chega ao seu ápice com as operações de hoje, escorado no show midiático e na falta de consistência jurídica, ganha agora as ruas. Não dá para evitar a disputa política, mas é preciso deixar de lado o ódio de classe e defender as conquistas populares.

 

João Paulo Cunha é jornalista e colunista do Brasil de Fato MG.