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Horizonte cerrado* 28: Dois poemas para Lukács

Alexandre Pilati Publicado em 23.11.2015

O ano de 2015, tão nebuloso para o mundo inteiro, sugere aproximações entre Pasolini e Lukács. Há notícias de que este tenha sido lido por aquele com algum afinco, embora não sistematicamente. Ambos partilhavam, no fundo, uma visão da arte como função desfetichizadora da atividade humana sobre o seu mundo. Escrevi o poema que vai a seguir, também como forma de tentar ser mais fiel ao original de Pasolini, que não fui capaz de traduzir para não traí-lo.

Em agosto de 2014, em uma das sessões do VII Coloquio Internacional “Teoría Crítica y Marxismo Occidental”, eu apresentava uma comunicação sobre a poesia de Pier Paolo Pasolini. O Professor Miguel Vedda da Universidade de Buenos Aires, assistindo-a, gentilmente me indicou a leitura do poema de Pasolini sobre o filósofo húngaro György Lukács, cuja Estética era uma das referências fundamentais para a interpretação que naquela altura eu fazia de As cinzas de Gramsci, livro de poemas de Pasolini.

Algum tempo depois, recebi do Professor Vedda um email com o poema de Pasolini, “Poesia in forma di polemica”, escaneado de uma edição da revista Lettera Internazionale, N. 23, ano 6, Inverno de 1990. Agradeci-lhe e repassei o poema aos meus colegas do Grupo de Pesquisa Literatura e Modernidade Periférica, da Universidade de Brasília. Fiquei, então, com a missão de traduzi-lo.

Entretanto, não consegui cumprir a tarefa. Aproximar-me do poema sempre causava muita emoção e, como nunca antes, senti o quanto pode imobilizar o trabalho a consciência de que “toda tradução é traição”. Acho que a beleza e a riqueza política que o poema de Pasolini condensa e exprime seriam mesmo irrepetíveis numa tradução para o português. Senti-me um pouco frustrado, mas também feliz por não ceder à tentação da tradução traidora para o português.

Aos poucos, foi crescendo em mim, após um relativamente longo período de leituras conjuntas de Pasolini e Lukács, um outro sentimento. E era, sobretudo, um sentimento de gratidão. Gratidão ao filósofo e ao poeta. Gratidão aos companheiros que me ajudaram e a meu lado estiveram, na leitura de um e de outro, ao longo dos três anos de minha pesquisa sobre As cinzas de Gramsci.

Foi aí que se me impôs um outro dever: se não fiz a tradução do poema de Pasolini, porque realmente não me achei capaz, não pude deixar de registrar o contato engrandecedor que tive com essas duas grandes figuras do pensamento marxista ocidental e com os companheiros de pesquisa.

Por isso, escrevi o poema que vai a seguir, também como forma de tentar ser mais fiel ao original. Ele tem vigência, sobretudo, se lido em contraste com o de Pasolini, pois não deixa de ser, é claro, uma versão do que ele escreveu.

O ano de 2015, tão nebuloso para o mundo inteiro, sugere aproximações entre Pasolini e Lukács. Há notícias de que este tenha sido lido por aquele com algum afinco, embora não sistematicamente. Ambos partilhavam, no fundo, uma visão da arte como função desfetichizadora da atividade humana sobre o seu mundo. Ademais, completam-se em 2015 quarenta anos da morte de Pasolini e cento e trinta anos do nascimento de Lukács.

Para não deixar a efeméride passar em branco, abaixo seguem, portanto, “Dois poemas para Lukács”, escritos com um intervalo de 50 anos (1965-2015). Publico-os agora na esperança de contribuir para que os autores e as reflexões aqui reunidos possam continuar inspirando o sonho, a vontade, a inteligência.

Lukács

Através da cidade que atravesso,
mercadorias que se tornaram versos
se me aparecem como sol vento flora gente e bichos...

 

Através da cidade atravessam-me,
em mudo assediar, encantadas triviais coisas
ainda sem dono, mas devotas a deuses
com grifes quase de nervos e músculos.

 

Nos ossos aprendi essa língua demoníaca:
na escola de carne dos beijos
na escola de sangue das dores.

 

Não paro de caminhar e apalpo uma frase: “o essencial é viver”.

 

Violino de morte, vida frustra, alienada,
Chegará o (suspenso) dia de tua reinvenção!
– E, todavia, será pedestre, mas de um modo tão insuportável! –

 

Teu coração de companheiro estoicamente resiste escava
o século e cai num solo de diárias cotas transformando-se
em erva (ainda no sonho), que daninha delicadamente nega
e afirma meu olhar através de tua cerebral paixão.

 

Um ritmo de fortes bemóis, tua pele de homem,
uma força líquida adaptável e a resistência do humano
respirar entre fumaças – um tecido do devir tocar intenso –
como é difícil dizer!: “meus caros, a noite desenredar-se-á!”

 

Lá estarão no futuro os homens a te encontrar e a te acolher;
não no cérebro mas nos ombros o sei.

 

Como estão aqui os homens a meu lado
e assim em ti intimamente sem mesmo saberem,
amando-te como quem ama (e apenas ama)
as manhãs azuis que superam as tormentas...

 

Alexandre Pilati (mai.-nov. 2015)

*   *   *

Poesia in forma di polemica (1965)

Lei, Sartre, non giudica male
che Notre Dame sia stata illuminata dai suoi preti
per questo interlocutore anfibio?
No!
Il Peperizzo di Pressis Passe, se ne va.
Nel Café di Port Royal cala l’ombra delle due.
No!
È necessario che gli scandali avvengano, ma io non mi scandalizzo
E guai all’uomo per cui gli scandali avven­gono. Ma io non mi scandalizzo
affatto! E allora? Cristo stinge al Café di Port Royal (C’è qualcuno a questo mondo che, non scandalizzandosi,
cancella qualche paragrafo del Vangelo).
Ma là (a Est) si scandalizzano.
E inoltre (aggiunge il dolce uomo che non si scandalizza seduto sulla poltrona come una stupenda cicala
messaggera d’amore)
non c’è la «critica al marxismo».
Tutto, dunque, si spiega.
Ma intanto un’altra cicala
sola in due stanzette a Budapest, sul Da­nubio,
cui si giunge
da una strada di metallo nero come un cor­ridoio,
tra brume depresse,
attraverso un ingresso senza portinaio,
con sei grandi monumenti contenenti la morte della piccola borghesia
che là visse e ora vi lascia il dolore di una morte non pianta
— sei monumenti, degradanti sui sei scali­ni, pieni
della forma del dolore ora empita dalla grandezza del popolo,
spazzature gelide per la pressione di ester­ne brume implacabili
— sei monumenti scoperchiati, con parte del loro contenuto
accese bucce d’un frutto mediterraneo pa­teticamente espatriato
Basta.
Al quinto piano viene la cicala ad aprire la porta,
non si scandalizza, ma non si appassiona,
le macchine per pensare non lo possono fare.
Non c’è ansia per quello che contesto.
La cicala ha ancora «tanto da cantare», non ha
tempo per rispondere. Le vieux! (Lo ab­braccerò andandomene, avrò
coraggio di dirgli «Per tutti gli Anni Cin­quanta sei stato nostra
Sfinge, lascia che ti abbracci»?)
Era
questa cicala prigioniera di un Quinto Pia­no e della Filosofia.
La sua luce era carismatica.
Ci possono essere due pezzi di pensiero, non due pezzi di luce.
Ringiovanito dalle età delle cicale, sembro
una formica catecumena, e la mia anima in­fatti,
come quella di un ragazzo
ha bisogno di tornare in patria con qualche regalo.
Mi palpo nella saccoccia del vestito italiano
le due battute parigine, sicuro del trionfo.
Non posso abbracciare la povera cicala magiara
che i suoi compatrioti disprezzano (amusez-vouz, avec le vieux):
uomini oscuri, funzionari, giovani letterati
che di Budapest sono l’anima nuova, come un nuovo Natale,
non sanno neanche dire dove abita,
io sono forse uno dei pochi che ne hanno notizia.
come un giornalista giovane,
e quando le sette di sera
fanno notte alta (quella silenziosa che pre­cede le albe)
sulla capitale delle sfingi e del dolore espo­sto come una bandiera,
me ne vado senza regalo
con i saluti per Cesare Cases e Elsa Mo­rante.
Me ne vado, espletato il mio dovere di gior­nalista sconosciuto
col suo volto minaccioso e le sue crudeli pre­tese di giovane,
me ne vado
come quando si lascia per sempre una città non vista.
Addio, Lukács, colombella tra le sfingi,
quanto deve ancora tubare la colomba col suo cervello d’uomo,
tra le sfingi depositarie del silenzio!

Pier Paolo Pasolini, 1965.

(Este poema, de janeiro de 1965, recolhido em Le belle bandeire, Roma, Editori Rinuniti, 1977, contém referências explícitas a experiências então recentes de Pasolini: o debate sobre O evangelho segundo São Mateus, ocorrido na catedral de Notre-Dame, uma conversa com Sartre em um café de Paris e uma viagem a Budapeste ocorrida em seguida.)

*“Horizonte cerrado” é a expressão que inicia o primeiro verso do soneto de abertura do livro Poesias (1948) do poeta carioca Dante Milano. Sendo microcosmo do poema, a expressão também serve para expor a situação atual de um mundo cujas perspectivas nos aparecem sempre encobertas por nuvens ideológicas cada vez mais intrincadas. O que pode o olhar do poeta, do escritor e do crítico literário diante disso tudo? Esta coluna, inspirada na lição de velhos mestres, quer testar as possibilidades de olhar algo do real detrás da névoa, discutindo literatura, arte, política e pensamento hoje.

Sobre a foto ilustrativa: Usando a metáfora dos vagalumes para uma sociedade passada, uma exposição de arte na França tematiza "O desaparecimento dos vagalumes". Poucos meses antes de sua morte em 1 de fevereiro de 1975, Pier Paolo Pasolini publicou o Artigo Vagalume. Este texto agora famoso foi adotado como tema da exposição na ex-prisão de Avignon - e é especialmente significativo reler esse texto fundador da cultura social, estética e político de 1970 na Itália. Ao escolher vagalumes como uma metáfora para uma sociedade passada, PP Pasolini lança luz sobre o mundo. A coleção Lambert agora ocupa as células, corredores e pátios, exibindo obras da coleção particular de prestígio da Enea Righi, com conjuntos de artistas complementados por obras de outras grandes coleções públicas e privadas ... onde os temas da prisão, o passagem do tempo, a solidão e o amor são exploradas.