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Barbas de molho - Daniel Galera e sua barba ensopada de sangue

Karl Erick Shollhammer Publicado em 14.11.2015

Não há novidade em dizer que o escritor Daniel Galera é uma das grandes esperanças jovens na literatura brasileira contemporânea. Seus romances e contos foram todos promissores, no sentido pleno da palavra. Exemplos competentes de uma narrativa em formação e indicadores de uma força ficcional cuja maturidade ainda era difícil de determinar.

Além de Barba Ensopada de Sangue, Daniel Galera também publicou Dentes guardados (2001) e Até o dia em que o cão morreu (2003), Mãos de Cavalo (2006) e Cordilheira Foto: Divulgação

De certa maneira, Galera foi vítima do próprio talento, pois escreve tão bem que aquilo que em outros escritores seria um resultado altamente satisfatório em seu caso parecia aquém de suas reais possibilidades. Seu surgimento na cena literária é parte da estória de um grupo de escritores de Porto Alegre que começou a publicar na rede em revistas virtuais.

Fundou e participou do projeto editorial Livros do Mal, em colaboração com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, onde publicou seus primeiros livros Dentes guardados (2001) e Até o dia em que o cão morreu (2003), romance adaptado pro cinema por Beto Brant com o título Cão sem dono (2007). Estreou na Companhia das Letras, em 2006, com Mãos de Cavalo, que teve uma excelente recepção crítica, e participou do polêmico projeto Amores Expressos com o romance premiado Cordilheira (2008) situado em Buenos Aires.

Desde os primeiros livros se percebia que Galera era dotado de uma capacidade artesanal na ficção com bons enredos e um estilo fluente, ainda que fechado num universo demasiado juvenil e numa cultura pop tratada sem muita distância. Por todos esses motivos foi com muita curiosidade e expectativa que iniciei a leitura do romance Barba ensopada de sangue (Cia das Letras), lançado com a promessa de ser um salto qualitativo na carreira de Galera – talvez seu primeiro grande romance e pelo menos, a julgar pelo tamanho de 422 páginas, a realização mais ambiciosa até agora.

No blog da editora não faltam comentários sobre a importância desse livro que Galera levou quatro anos para escrever e a nova exposição internacional que seu lançamento garantiu ao autor e à editora, obviamente.

Vamos ao livro. Desde as primeiras páginas o enredo cativa. Já conhecia o início do romance pelo trecho publicado recentemente na seleção da revista Granta dos 20 melhores escritores jovens brasileiros, e na segunda leitura continua instigante. O jovem protagonista da história, um triatleta formado em Educação Física e professor de natação de Porto Alegre, tem um encontro revelador com o pai na véspera do suicídio deste. Contrariado, promete matar seu cachorro Beta, e escuta com interesse o relato do pai sobre o avô, um homem intenso, de paixões violentas e contraditórias, que ao ficar viúvo foge para uma aldeia de pescadores em Santa Catarina onde desaparece aparentemente assassinado pela comunidade num ato primitivo de sacrifício coletivo.

A história do protagonista então se desenvolve em paralelo com a história do avô. Ele adota o cão do pai e viaja para Garopaba, no litoral de Santa Catarina, onde se estabelece num apartamento à beira-mar e consegue um emprego na academia local enquanto busca informações sobre o desaparecimento misterioso do avô — assunto ainda sensível e perigoso na pequena cidade.

Há neste sentido um enredo forte na narrativa que segura o leitor habilmente e que se desenvolve sem obviedades para um desenlace bastante surpreendente que foge ao imperativo do gran finale e que obviamente não pretendo contar aqui.

Essa capacidade narrativa também era patente nos romances anteriores, como em Mãos de Cavalo em que uma viagem do narrador para escalar o Cerro Bonete na Bolívia numa espécie de fuga da banalidade cotidiana de repente se desdobra numa revisitação do passado à procura de um evento de violência que determinou sua vida adulta. Homens introspectivos, calados, fortes e enigmáticos “à gaúcha”, com dificuldades afetivas apesar de grande popularidade entre as mulheres, são os heróis prediletos de Galera. Mesmo em Cordilheira em que a personagem principal é Anita, jovem escritora brasileira em Buenos Aires, o eixo da história está no personagem portenho por quem se apaixona e que a introduz numa seita oculta de escritores.

Mas o leitor dificilmente deixa de simpatizar com o personagem, que, levado por princípios intransigentes, beirando a psicopatologia, vai em direção aos extremos prometidos pela escalação gradativa da história com agilidade de trama policial. No início de Cordilheira o autor deixa uma referencia metaliterária ao conto O Sul de Jorge Luis Borges, sobre um homem da capital que numa viagem às pampas se envolve num duelo de facas fatal, aparentemente preso por uma chamada enigmática do destino. A narrativa de Galera consegue resguardar seu próprio segredo, não cai na tentação de desatar todos os nós ou de arrematar todas as pontas soltas, e assim se salva da banalidade escamoteada pelos enredos detetivescos. Mas sua qualidade não se reduz a isso.

Realismo íntimo

Barba Ensopada de Sangue não é propriamente um “page-turner” cheio de ação que garante a progressão através de capítulos curtos com ganchos apelativos. A história progride num ritmo gostosamente tranquilo, sem abrir mão de uma densidade particular no estofo da história que seduz sobretudo pela motivação convincente dos pormenores na construção narrativa dos ambientes. Galera cria um realismo peculiar e sensível pela densidade que consegue dar ao cotidiano sem excessos de gordura descritiva. É uma espécie de “realismo íntimo” em que a intimidade não provém dos sentimentos nem das meditações psíquicas e diálogos interiores do protagonista senão da precisão descritiva dos cenários escolhidos e da empatia que sempre expressa com os humores do personagem.

Galera lança mão aqui de um dispositivo muito feliz ao inventar uma doença neurológica — prosopagnosia — para o protagonista, moléstia que o impede de reconhecer os traços faciais de outras pessoas e até de si mesmo. Assim cria-se certa elipse na narrativa em que a cegueira relativa do personagem contrasta com a clareza dos ambientes descritos. Não sabemos bem com quem ele interage e uma provável ameaça se instala pela dificuldade de interpretar os gestos alheios. O invisível se introduz no visível sem abrir mão da transparência descritiva e introduz nela uma ambiguidade que corrobora com o clima de tensão no desenrolar da história.

Percebe-se com facilidade a vizinhança literária de Galera com a narrativa contemporânea de língua inglesa, uma indubitável referência para o autor. Como tradutor, Galera trabalhou com clássicos modernos como John Cheever, Hunter S. Thompson e Robert Crumb além de ter vertido as vozes atuais de Zadie Smith, Jonathan Safran Foer e Irvine Welsh em português. É nessa paisagem, por exemplo nos romances de Paul Auster e de Haruki Murakami, que encontraremos personagens como o deste livro: um homem do nosso tempo, catapultado por um evento de crise — o suicídio do pai, a traição do irmão, a separação da mulher amada — e então levado a procurar explicações num labirinto de acontecimentos não sempre decifráveis.

O que é interessante na narrativa de Galera é sua capacidade de criar uma visão convincente da realidade brasileira sem nenhum resquício dos eternos resgates de uma identidade histórica ou cultural e sem as tentações pitorescas e exóticas. Estamos no sul, em Santa Catarina e sem dúvida no contexto contemporâneo com características históricas claras e conflitos socioculturais rapidamente identificados. Criar personagens vivos em ambientes e enredos convincentes é a força fabuladora de Galera. Se estamos diante um romance à altura de seu tempo capaz de refletir a complexidade de seu momento talvez nem seja uma pergunta pertinente. É uma boa história e um romance excelente? Com certeza! Se vai ser o romance da década e de sua geração? Ainda não.