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Os comunistas e os dilemas da frente única antifascista

Augusto C. Buonicore Publicado em 13.11.2014

Especialmente a partir do VI Congresso da Internacional Comunista (IC) em 1928, ocorreu um processo de esquerdização na política dos partidos comunistas em todo o mundo. Era preciso radicalizar a luta contra a socialdemocracia que, por sua influência reformista junto às massas trabalhadoras, se constituía num sério obstáculo às transformações revolucionárias em curso. Um muro intransponível foi erguido entre as duas principais correntes do movimento operário mundial. O resultado seria catastrófico.

Batalha da Praça da Sé, quando os integralistas são desbaratados pelos antifascistas.

Especialmente a partir do VI Congresso da Internacional Comunista (IC) em 1928, ocorreu um processo de esquerdização na política dos partidos comunistas em todo o mundo. Advogava-se que estávamos no chamado terceiro período, no qual o capitalismo – depois de ter passado por uma etapa de estabilização relativa – teria ingressado numa fase de crise catastrófica, colocando na ordem do dia a revolução socialista. Por isso, era preciso radicalizar a luta contra a socialdemocracia que, por sua influência reformista junto às massas trabalhadoras, se constituía num sério obstáculo às transformações revolucionárias em curso. Seria também necessário expulsar dos partidos comunistas todos os elementos considerados de direita ou conciliadores.

"I Congresso contra a Reação, o Fascismo e a Guerra Imperialista” realizado no dia 23 de agosto de 1934"

Na verdade, essa visão sobre a socialdemocracia vinha desde o congresso anterior, cujas teses já afirmavam: “Quanto mais se decompõe a sociedade burguesa, tanto mais os partidos burgueses, sobretudo a socialdemocracia, adquirem um caráter mais ou menos fascista (...). Por isso, a socialdemocracia jamais poderá ser um aliado firme do proletariado na luta contra o fascismo”. O líder soviético Joseph Stalin, indo mais longe, daria a palavra final sobre o assunto: “Objetivamente, a socialdemocracia é a ala moderada do fascismo (...). As duas organizações não se excluem, complementam-se. Não são antípodas, são gêmeas”. Assim, fecharam-se as portas para quaisquer alianças dos comunistas com as direções socialdemocratas, agora denominadas de social-fascistas.

Em 1931, Dimitri Manuilsky, dirigente da IC, diria que “a socialdemocracia já era parte integrante da ditadura burguesa em todas as suas formas e, especialmente, no sistema fascista”. Ele propõe “não renunciar à política de frente única”, mas ela deveria ser feita apenas “com a base e não com as lideranças operárias social-democratas”. Repudiava “a política de mal menor”, que advogava apoiar taticamente forças políticas reformistas contra adversários considerados mais perigosos, como o nazi-fascismo. O soviético Osip Piatnitski, um ano depois, expressou sua indignação diante da possibilidade de “um dirigente comunista sentar-se na mesma mesa que um social-traidor”. Um muro intransponível foi erguido entre as duas principais correntes do movimento operário mundial. O resultado seria catastrófico.

"Comício da Frente Popular francesa": Léon Blum (Partido Socialista), Maurice Thorez (Partido Comunista), Roger Salengro (Partido Socialista, Ministro do Interior). No segundo Plano, atrás de Blum e Thorez, (com um cigarro na mão) está Edouard Dalladier (Partido Radical e Ministro da Defesa).


Quem melhor conseguiu ver os erros que estavam sendo cometidos foi Leon Trotski, que vivia no seu exílio na Turquia e depois em Paris. Menos de um ano antes de Hitler chegar ao poder, ele afirmou: “Se as organizações mais importantes da classe operária alemã prosseguem com sua política atual, a vitória do fascismo está quase automaticamente assegurada e em prazo relativamente curto”. Referia-se aqui ao estado de beligerância existente entre comunistas e socialistas. Chegou a propor que o Partido Comunista da Alemanha chamasse o Partido Socialdemocrata a realizar “uma luta comum contra o fascismo, da base à cúpula”. Criticava a utilização do termo social-fascismo, que se propagava pelo movimento comunista. Por isso, no início da década de 1930, os trotskistas foram pioneiros na defensa da formação das frentes-únicas antifascistas.
As políticas sectárias e antiunitárias contribuíram decididamente para a ascensão de Hitler na Alemanha em janeiro de 1933. Uma das maiores derrotas sofridas pela classe operária em escala mundial. A partir daquele momento, a política da Internacional Comunista começou a se alterar, ainda que lentamente. Até a XIII Sessão Plenária do Comitê Executivo da IC, julho de 1933, os comunistas teimavam em rejeitar os pedidos de unidade feitos pelos socialistas franceses e espanhóis. Continuavam defendendo a unidade apenas pela base e nunca com as cúpulas dessas organizações. Dizia o documento da IC: “Mais do que nunca, confraternizaremos com os operários socialistas; mais do que nunca, vamos convocá-los para ação comum (...). Porém, mais do que nunca, denunciaremos os chefes socialistas, o partido socialista, servidores da burguesia, último reduto da sociedade capitalista”.
O primeiro sinal da mudança se deu no campo diplomático com a aproximação da URSS e os países capitalistas “democráticos”. Em novembro de 1933 foram estabelecidas relações com os EUA. Depois, seguiram acordos com a França e Tchecoslováquia. O objetivo era de se precaverem contra a expansão militar da Alemanha, agora sob o comando nazista.
Em janeiro de 1934, com a assinatura de um pacto entre a Alemanha e Polônia, as coisas se precipitaram. O acordo ameaçava a segurança nacional da França e da União Soviética. Então, o ministro de relações exteriores francês, Louis Barthou, passou a defender o ingresso da URSS na Sociedade das Nações e o estabelecimento de um pacto de assistência mútua com o país dos sovietes. Barthou seria assassinado em outubro daquele mesmo ano e o pacto franco-soviético só seria assinado em maio de 1935.
No dia 6 de fevereiro de 1934, diante do desgaste do governo francês nas mãos do Partido Radical, grupos de extrema-direita organizaram uma grande manifestação em frente ao parlamento. O objetivo era preparar o clima para um golpe de Estado de caráter fascista. Ocorreram violentos choques com a polícia. O governo centrista balançou e fez uma inflexão à direita. Em resposta, as organizações de esquerda convocaram uma greve geral para o dia 12 daquele mês. Num primeiro momento, a convocação foi feita separadamente por comunistas e socialistas, que não mantinham relações cordiais. Aproximadamente 4,5 milhões de operários responderam ao chamado e paralisaram o trabalho. Temendo que pudesse se repetir o que ocorrera na Itália e na Alemanha, os grevistas exigiram uma ação unitária de suas direções. Compreenderam que a sua divisão cimentava o caminho do fascismo na França.
Pouco tempo depois, no mês de maio, tendo em vista o agravamento do quadro internacional e o crescimento do fascismo, o jornal soviético Pravda publicou um artigo afirmando ser necessário que os comunistas e os socialistas franceses se unificassem para a realização de ações conjuntas contra a reação que avançava. Esse processo não se deu sem contradições. Afinal, essas duas correntes se engalfinhavam havia mais de uma década. Contudo, seguindo a tendência que vinha se desenvolvendo, o congresso do PCF, realizado em junho, aprovou o estabelecimento de uma aliança com os socialistas. O primeiro passo fora dado.
Em 27 de julho de 1934 foi formalizado o acordo entre as direções dos dois principais partidos operários franceses, que se constituiria na base da Frente Popular. Segundo Edgard Carone, os principais pontos desse acordo foram: “organizar, em comum, e por todos os meios, campanha para mobilizar a população operária contra as organizações fascistas; lutar contra o terror nazista, pela libertação do líder do PC alemão, Ernest Thaelmann; por fim, reciprocamente, renunciar a qualquer tipo de crítica entre ambas as partes.” O mesmo movimento ocorreu na Itália.
As coisas não pararam por aí. Num ato inesperado, o secretário-geral do PCF, Maurice Thorez, convidou o Partido Radical (PR) a compor a frente popular que estava se formando. O PR não era um partido operário ou socialista. Ele representava setores da pequena e média burguesia urbana democrática. Em outra atitude inusitada – em completa oposição à linha política adotada até o ano anterior –, chegou a sinalizar o apoio a um futuro governo radical, com a condição de que ele aplicasse integralmente o programa democrático e nacional que propunha a frente. Isso significaria, entre outras coisas, manter relações amistosas com a URSS e combater o fascismo.

Passeata do Comitê Antiguerreiro


Os acordos interpartidários culminaram em 14 de julho de 1935 – aniversário da grande Revolução Francesa –, quando mais de 500 mil trabalhadores, simpatizantes de todos os partidos de esquerda (inclusive o radical), se reuniram e juraram solenemente “permanecer unidos para desarmar e dissolver as ligas fascistas, para defender e desenvolver as liberdades democráticas e assegurar a paz”. A Frente Popular– que tinha como slogan “pão, paz e liberdade!” – ganharia as eleições em maio de 1936 e formaria o novo governo francês, tendo à frente o socialista Leon Blum.
Possivelmente, o debate em torno de uma mudança na política de alianças não tenha sido fácil no interior do movimento comunista. Isso explicaria o adiamento, em cima da hora, do congresso da III Internacional. Ele, inicialmente, estava convocado para outubro de 1934 e foi transferido para o final de julho de 1935. Quando a mudança na data ocorreu, vários delegados já estavam a caminho da URSS, inclusive os brasileiros. Então, aproveitou-se a ocasião para se realizar a III Conferência Latino-Americana da IC. Esta ocorreria justamente num momento de transição da linha política. Abandonavam-se as teses sectárias, predominantes no terceiro período, e se iniciava a fase das frentes democráticas e populares. As coisas, no entanto, não estavam ainda muito claras para todos os participantes daquele encontro.

Os comunistas brasileiros e a Frente Única contra o fascismo

No dia 9 de fevereiro de 1933 os comunistas de São Paulo formariam o “Comitê contra a reação, o fascismo e a guerra imperialista”, ou simplesmente “comitê antiguerreiro”, que logo aderiu ao comitê já existente no Rio de Janeiro. Em 15 de março se realizou a primeira convenção nacional desse movimento, sob hegemonia do Partido Comunista do Brasil (PCB). Um de seus manifestos dizia: “Lutar contra a guerra e o fascismo é defender a URSS, a única pátria do proletariado, e, consequentemente, defender a humanidade dessa tremenda catástrofe”. Esta, na verdade, era uma diretiva da IC. O I Congresso Internacional Contra a Guerra e o Fascismo havia ocorrido na cidade de Amsterdã em agosto de 1932. Ao lado desse movimento, os trotskistas e os socialistas brasileiros procuraram montar comitês fundamentalmente antifascistas.

Cartaz da Frente Popular trazendo o juramento feito pelos participantes do grande ato de 14 de julho de 1935.

Existia uma divergência entre eles sobre quais deveriam ser a palavra de ordem central e o inimigo principal a ser derrotado naquele momento. Os trotskistas brasileiros afirmavam que o alvo deveria ser o fascismo na sua versão tupiniquim: o integralismo. Os comunistas – sem ignorar a luta antifascista – acreditavam que o problema imediato era a ameaça da guerra imperialista contra a URSS. Para eles, o integralismo seria apenas uma das muitas formas que as organizações fascistas poderiam adquirir no Brasil. Opinião que sofreria importantes alterações no final de 1934, influenciada pelo rápido avanço do integralismo e as novas posições da Internacional Comunista.
Existia certo fatalismo na forma que os comunistas encaravam a ascensão do fascismo no mundo. Um boletim do comitê antiguerreiro afirmava: “Tão matematicamente, tão infalivelmente como a concorrência leva à formação dos grandes organismos industriais e bancários, a democracia burguesa conduz ao fascismo”. Essa é “uma necessidade política do capitalismo”. Diante dessa constatação, parecia só haver uma saída: a revolução socialista.
Os trotskistas, naquela época, eram contrários à linha esquerdista e sectária da IC. O Estatuto da Liga Comunista (1933), por exemplo, incluíam entre seus itens: o “reconhecimento da necessidade de uma larga POLÍTICA DE FRENTE ÚNICA (o grifo é do original) relativamente às organizações de massa, tanto sindicais como políticas, inclusive a socialdemocracia como partido”. Condenava a “palavra de ordem ultimatista ‘só pela base’, que significa praticamente a recusa a uma política de frente única”. E, por fim, propunha rejeitar a “teoria do SOCIAL-FASCISMO e de toda prática que dela decorre, porque serviria de um lado ao fascismo e de outro a socialdemocracia”. Mesma posição a que chegariam os comunistas poucos anos depois.
Os integralistas realizaram sua primeira marcha na cidade de São Paulo no dia 23 de março, criando muita apreensão nos setores democráticos e populares. Os trotskistas e socialistas decidiram convocar uma reunião para o dia 25 de junho no salão da União Cívica 5 de julho. Compareceu a Liga Comunista (trotskista), Partido Socialista Brasileiro, Partido Socialista Italiano, Legião Cívica 5 de Julho, União dos Trabalhadores Gráficos, Grêmio Universitário Socialista, A Bandeira dos Dezoito (do Forte), o Grupo socialista “Giacomo Matteoti” e “Itália Libera”. O evento contou ainda com o apoio dos jornais Homem Livre (ligado aos trotskistas) e A Rua e da revista O socialismo. As entidades presentes decidiram pela criação da Frente Única Antifascista (FUA). A base dessa articulação eram os trotskistas, os socialistas e os tenentes de esquerda.
Os comunistas, ainda impregnados pelo espírito do VI Congresso da IC e pelas teses do social-fascismo, não participaram da reunião que criou a FUA. Eles continuariam despendendo suas energias na constituição dos “comitês antiguerreiros”. Tudo indica que essa iniciativa teve melhor receptividade no Rio de Janeiro, onde o PCB era bem mais forte e não sofria tanta concorrência dos trotskistas e socialistas como ocorria em São Paulo.
Apesar de não participarem organicamente da FUA, os comunistas não deixavam de participar dos comícios unitários convocados por ela. Em 14 de julho de 1933 foi realizado um ato público na sede da Lega Lombarda, onde foi lido o manifesto da frente. A sessão foi presidida pelo trotskista Aristides Lobo. O PCB e a Juventude Comunista estiveram presentes e usaram a palavra, mas não aderiram formalmente à frente única.
No mês de novembro, os integralistas anunciaram uma nova manifestação em São Paulo. Desta vez, os grupos antifascistas ameaçaram com uma contramanifestação e os adeptos de Plínio Salgado tiveram que recuar. Ainda não haviam adquirido a força e a coragem necessárias para tomar as ruas, como seus congêneres italianos e alemães. Esta foi a primeira vitória da esquerda coligada contra a extrema-direita brasileira.
Para comemorar e manter a mobilização foi convocada uma nova manifestação unitária no dia 15 de dezembro. Pela primeira vez assinam conjuntamente uma mesma convocatória a Liga Comunista Internacionalista (trotskistas), o Partido Socialista Brasileiro, o Partido Comunista do Brasil e as entidades a eles ligadas. Encabeça a lista o “Comitê Antiguerreiro de São Paulo”, ligado ao PCB. O ato não foi convocado pela FUA e sim por “organizações em frente única antifascista”. Essa foi a forma encontrada para garantir a participação das entidades sob direção dos comunistas.
A última atividade realizada por essa Frente Única foi um ato em 25 de janeiro de 1934 no Largo da Concórdia na cidade de São Paulo, que terminou em conflito com a polícia e muitos feridos. Posteriormente ocorreram trocas de acusações entre os organizadores. Os trotskistas e socialistas acusaram os comunistas de serem aventureiros, por terem tentado enfrentar a polícia de armas nas mãos. Os comunistas acusavam seus adversários de terem capitulado diante da repressão.
Logo em seguida, através de um manifesto, o PCB rompeu com a FUA e começou a hostilizá-la publicamente. O jornal A Vanguarda Estudantil – ligado à juventude comunista – chamou-a de “frente única de tapeação” e afirmou que o verdadeiro representante dos antifascistas era o “comitê antiguerreiro”. Isso foi o resultado do “enquadramento” daqueles comunistas à linha política nacional e internacional abertamente antitrotskista e antissocialdemocrata. Muito provavelmente, a participação dos comunistas paulistas em atividades junto com a FUA, através de Hermínio Sachetta, tenha se dado contra a vontade da direção nacional do partido.
Alguns meses depois – em junho de 1934 –, o Comitê Central do PCB avaliaria negativamente a atuação dos comunistas paulistas: “Graves erros cometemos em São Paulo (...). Em vez de procurarmos os organismos de base do Partido Socialista, suas seções de bairro, para lhes propor a Frente Única, aceitamos os Frola, os Cabanas e Cia., como se fossem realmente representantes das aspirações dos operários enganados, que seguem o tal partido socialista (...). Declarávamos que as organizações em Frente Única tinham que se submeter às decisões da maioria. Isto é entregar o Partido, a JC e as organizações revolucionárias de mãos atadas às manobras dos trotskistas Aristides Lobo, Mário Pedrosa, Lívio Xavier, Plínio Melo, dos socialisteiros tipo Cabanas, Frola e de todos os demagogas e tapeadores”. Os erros oportunistas da direção regional se deviam à “liquidação completamente insuficiente dos diversos desvios no passado partidário. A discussão dos erros de Astrojildo e Brandão (...) foram objetos de documentos do BSA (Birô sul-americano da IC), mas o PCB não discutiu até a base estes desvios”(Boletim Interno do Comitê Central, junho de 1934).
Como podemos ver em meados de 1934 ainda persistia uma visão estreita em relação à Frente Única no interior da direção do PCB. Prova disso é um documento dos comunistas aprovado naquela época que dizia: “A tática de Frente única é uma arma de grande eficiência para fazer todos os tapeadores mostrarem na luta o seu verdadeiro semblante, o que realmente querem, as manobras e seus planos para enganar as massas e melhor servirem aos seus amos”. E continuava: “através da luta da Frente Única, os operários dos partidos, sindicatos e organizações terão a oportunidade de ver e sentir concretamente a posição dos seus dirigentes”. Ela “demonstrará toda a traição dos chefes e dirigentes dos sindicatos amarelos, ministerialistas e anarco-sindicalistas; dos socialeiros, demagogos e caudilhos de todas as correntes, os trotskistas etc.” Assim, a Frente Única teria como função apenas desmascarar os aliados e não ganhá-los para a luta unitária.

A política do PCB às vésperas de grandes mudanças

No dia 20 de abril de 1934 – quando começava a votação na Assembleia Nacional Constituinte, eleita no ano anterior –, os integralistas realizaram a sua primeira marcha no Rio de Janeiro, reunindo cerca de 4 mil pessoas. O mesmo se repetiu em São Paulo quatro dias depois. Em nenhum desses casos houve qualquer tipo de resistência da parte dos antifascistas, que pareciam estar desarticulados naquele momento.
Depois de algum debate, a nova Constituição foi aprovada. Ela tinha aspectos liberal-democráticos ao mesmo tempo em que ampliava a intervenção do Estado e estabelecia direitos sociais. Contudo, os comunistas a consideraram uma carta “clerical-fascista”. Prova de que ainda havia muita confusão quanto ao que era o fascismo e saber distingui-lo do liberalismo.
A I Conferência Nacional do PCB, realizada em julho de 1934, não foi afetada pelas  mudanças que começavam a ocorrer na Internacional Comunista pelas mãos de Dimitrov e Palmiro Togliatti. Neste conclave ainda persistiria a linha esquerdista e sectária do chamado terceiro período, que já começava a caducar na Europa. O documento aprovado afirmava que o Brasil estava às portas de uma revolução popular e que essa não seria uma situação isolada, “pois a onda revolucionária estaria crescendo em todo o mundo”. E ia ainda mais longe ao dizer que “mesmo na Alemanha, onde o capitalismo colocou no poder os seus mais sanguinários defensores – Hitler e seus comparsas – começava a decomposição”. A subestimação do perigo representado pelo nazismo alemão era mais do que evidente naquele texto.
No Brasil, apregoavam os comunistas, tratava-se de preparar a “revolução operária e camponesa contra os grandes latifundistas e burgueses nacionais e contra os imperialistas”. O objetivo imediato da revolução deveria ser a instauração de um “Governo Operário e Camponês, a Ditadura democrática, baseado nos conselhos de operários, camponeses, soldados e marinheiros”. O documento concluía com uma exótica formulação: “em marcha para a futura União das Repúblicas Soviéticas de brancos, negros e índios”. Estranhamente, nenhuma linha seria gasta para tratar do fenômeno integralista ou sobre a necessidade de se constituir uma Frente Única antifascista no país.
Em seguida, o PCB lançou outro documento tratando das eleições que se aproximavam. Novamente, o integralismo não é levado devidamente em conta. Ele aparece apenas num item, no qual se afirmava: “devemos exigir o desarmamento dos corpos de guarda-costas dos capangas dos interesses dos nossos opressores, dos integralistas, das brigadas de choques nacional-evolucionistas, patrianovistas, da polícia especial, dos corpos de voluntários etc. e tomar essas armas para nós, para defendermos nossos interesses e nossas vidas”. Uma proposta tanto radical quanto vazia, pois inócua. Propõe ainda travar a luta contra as camarilhas dominantes e “todos os tapeadores, como os Ary Parreiras, os Maurício de Lacerda, Frola, Cabanas, Zoroastro, Plínio Mello, Reykdal, Acyr Medeiros etc.”. A maioria desses nomes era de socialistas e antifascistas que, em breve, adeririam à Aliança Nacional Libertadora (ANL).
Isso não significa que os militantes do PCB não combatiam duramente os integralistas naquele momento, mas o faziam de maneira estreita. Essa ainda não era a questão central e, por isso, eles não apontavam para a necessidade de se construir uma ampla Frente antifascista. Os ataques ainda se dividiam, igualmente, entre “os tapeadores” (socialistas, tenentistas, trotskistas) e os integralistas, que começavam a ganhar espaço na sociedade e junto ao governo Vargas.
O I Congresso “contra a Reação, o Fascismo e a Guerra Imperialista”seria realizado no dia 23 de agosto de 1934. Os comunistas haviam feito um grande esforço pelo seu sucesso. Segundo um insuspeito relatório policial, “o teatro João Caetano, apesar de vasto e comportar uma lotação superior a 2.000 pessoas, tornou-se pequeno para comportar a grande massa, que se estendeu pelas cadeiras, camarotes, balcões e galerias, ficando totalmente cheio com grande número de pé na plateia, corredores das frisas e camarotes, sendo que estes continham 10 a mais pessoas, em cada um”. Contudo, a manifestação de rua que se seguiu foi duramente reprimida pela polícia, ocasionando a morte de dois operários. Alguns sindicatos dirigidos por comunistas responderam com uma greve de protesto. Novo comício e novas agressões policiais ocorreriam em 22 de setembro na Praça da Harmonia.
Alguns meses depois, em outubro, o Partido Socialista Proletário, o Partido Socialista, o Partido Trabalhista e a Liga Comunista (trotskista) fizeram um convite para que o PCB compusesse uma frente eleitoral. O jornal A Classe Operária, em editorial direcionado às bases operárias daqueles partidos (e não à direção), explicaria porque os comunistas recusavam a proposta e haviam decidido concorrer em legenda própria. “Não é por acaso que, enquanto o partido comunista se encontra na mais brutal ilegalidade, os outros partidos chamados proletários gozam da mais perfeita legalidade (...). Os representantes (no parlamento) desses partidos desfrutam da mais agradável cordialidade por parte dos representantes apodrecidos das oligarquias estaduais, agentes do imperialismo, defensores cínicos das camarilhas dominantes, dos donos de terras e capitalistas”.
Não aceitavam o convite para compor a Frente eleitoral, proposta pelos socialistas e trotskistas, porque não queriam “aumentar as ilusões democráticas, as ilusões de que uma representação proletária de ideologias heterogêneas poderia resolver os problemas que afligem o proletariado e as massas populares cariocas”. Isto seria, “uma contribuição à campanha feita por todos os demagogos e ‘esquerdistas’, instrumentos pagos ou por vocação postos ao serviço das camarilhas dominantes com o intuito de impedir uma saída revolucionária da crise, a saída da revolução operária e camponesa”. Mas os comunistas passaram a admitir uma Frente Única, inclusive com as direções das outras organizações de esquerda, em torno de ações concretas assentadas na luta de classes. Durante esse período se evitariam ataques mútuos. Eram os primeiros sinais – ainda tímidos e distorcidos – da guinada que viria no ano seguinte.
O que os comunistas brasileiros talvez não soubessem é que durante a reunião de preparação do VII Congresso da IC, em junho de 1934, Dimitrov havia afirmado: “É necessário abandonar a posição a qual só é possível dar vida à frente única pela base; é preciso deixar de considerar como oportunismo qualquer orientação que se dirija também, simultaneamente, aos organismos dirigentes dos partidos socialdemocratas”. Em maio, como já dissemos, o Pravda tinha recomendado que o Partido Comunista francês entabulasse negociações com a direção do Partido Socialista no sentido de realizar ações comuns contra a reação e o fascismo. Pavimentava-se o terreno para as grandes mudanças que ocorreriam no VII Congresso da Internacional Comunista, quando oficialmente a linha de “classe contra classe” daria lugar às políticas de Frentes Populares.
Um dos fatos mais representativos que marcou o fim de uma fase da história dos comunistas brasileiros e o início de outra foi a chamada Batalha da Praça da Sé, ocorrida em 7 de outubro. Neste dia, uma coalizão de forças de esquerda (comunista, trotskista, socialista, tenentista) se uniu para impedir na marra a realização de uma marcha integralista pelas ruas centrais de São Paulo. Três meses depois desse confronto sangrento, grande parte dessas correntes estaria se unificando na Aliança Nacional Libertadora (ANL), a principal organização antiimperialista e antifascista criada no país naqueles anos heroicos.

  * Augusto Buonicore é historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e revolução brasileira: encontros e desencontros e Meu verbo é lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos pela Editora Anita Garibaldi.

Sobre as razões da vitória de Hitler leia o artigo “80 anos de ascensão do nazismo na Alemanha” no link:
http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=8&id_noticia=10347

Sobre as resoluções do VII Congresso da IC leia o artigo “Entrevista com Jorge Dimitrov” no link: http://www.fmauriciograbois.org.br/portal/cdm/noticia.php?id_sessao=72&id_noticia=4251

Sobre a Batalha na Praça da Sé em outubro de 1934 saiba mais lendo o artigo no link:
http://grabois.org.br/portal/cdm/noticia.php?id_sessao=30&id_noticia=13494

Jornais consultados

O Homem Livre (1933-1934)
A Classe Operária (1934)


Bibliografia

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