Artigos

Demagogia nas ruas

Aldo Rebelo Publicado em 01.06.2014

Certos atos públicos estão sendo articulados por facções políticas que desprezam a Política e interditam a via democrática. São setores derrotados e ressentidos e sem perspectiva histórica. Acham que estão na Comuna de Paris em 1871 e sonham levar o Brasil ao inferno de assalto, vibrando metas delirantes como “não vai ter Copa”.

As jornadas da Copa do Mundo têm projetado antigas virtudes e deformidades do Brasil, entre estas uma crise de valores que há muito esgarça relações na sociedade nacional. A crise não se localiza apenas nos desvãos do aparelho de Estado nem nos estratos sociais mais vulneráveis à delinquência. Pessoas, grupos e categorias profissionais de que se esperam práticas éticas, debate esclarecedor e militância transformadora têm protagonizado o vale-tudo nas ruas.

Certos atos públicos estão sendo articulados por facções políticas que desprezam a Política e interditam a via democrática. São setores derrotados e ressentidos e sem perspectiva histórica. Acham que estão na Comuna de Paris em 1871 e sonham levar o Brasil ao inferno de assalto, vibrando metas delirantes como “não vai ter Copa”.

Cada manifestação traveste-se de microinsurreição a que, desta vez sim, o povo assiste bestificado, quando não indignado por ter negado seu direito de ir e vir. Ganham 15 minutos de fama, mas, como já dito, a infâmia que praticam dura para sempre.

O recente episódio de encurralamento da Seleção por um grupelho de professores no Rio de Janeiro é exemplo eloquente do ativismo deformado pela histeria política. A pretexto de pleitear benefícios profissionais, grevistas que se apresentam como educadores deram aula pública de grosseria ao agredir os jogadores, vaiando-os e acusando-os de simbolizar o desvio para a Copa de recursos que deveriam ir para a Educação.

Está exaustivamente demonstrado que o argumento é tão falso quanto os bordões gritados nessas algaravias. Segundo dados compilados pela Secretaria de Comunicação, desde 2010, quando prosperaram as obras associadas à Copa, com orçamento-teto de R$ 30 bilhões, o Governo Federal destinou R$ 850 bilhões para Educação e Saúde.

A Copa, e agora nossos craques, viraram, no entanto, um palanque de papel onde ecoa a parolagem dos demagogos.

Comparações absurdas desse naipe são a bandeira de grupos que, a pretexto de defender direitos, sabotam a Democracia. Felizmente, a contraposição a esses desatinos também já está nas ruas.
 

*Aldo Rebelo é ministro do Esporte e deputado federal licenciado pelo PCdoB de SP.

 

Artigo originalmente publicado no Diário de S. Paulo