Artigos

Oposição, inflação e pobreza

Elias Jabbour Publicado em 08.05.2014

Vocês já perceberam que é muito difícil encontrar nos discursos dos candidatos de oposição a palavra “investimento”? Perceberam também que esta mesma palavra é uma constante nos pronunciamentos de Dilma? Não somente “investimento”, mas também “emprego”.

Falar em investimento e emprego à oposição é o mesmo que falar em inflação. Aliás, inflação é algo que deixou de ser parte do ciclo econômico para se transformar em algo perfeitamente fabricável. Não se “fabrica” um clima para geração de renda e emprego. Em compensação a cada dia uma notícia nova sobre inflação é dada. A oposição se esbalda e agradece.

Os candidatos de oposição tem uma agenda macroeconômica clara e centrada na “volta” do “equilíbrio” macroeconômico. Para quem entende um pouco de economia, por detrás de determinadas expressões existe um fundo que, muitas vezes, não guarda nada de novo. Ajuste monetário já para 2015 até que a inflação volte ao “centro da meta”. Qual a novidade disso diante da ampla chantagem que o país tem sofrido por parte da oligarquia financeira internacional.

A fome com a vontade de comer neste caso é evidente. A oposição não é só política, mas também ideológica. A agenda ecológica de Marina Silva, por exemplo, tem total consonância a afirmação do candidato do PSB à presidência para quem (1), “(…) a partir de 2016, a gente já se aproxima do centro da meta. Nós queremos olhar para, a partir de 2018, um novo centro da meta, em torno de 3%”. E ainda completa, “para que o Brasil vá se aproximando de uma inflação de classe mundial para países do padrão do Brasil”.

Pressuponho que pela cabeça dos candidatos da oposição o “centro da meta” não será atingido partindo de um plano de substituição de importações capaz de equilibrar, não a moeda, e sim a oferta de bens em consonância com a demanda. Isso demandaria projeto de médio e longo prazo, pois a resposta da oferta é mais lenta que a do lado da demanda. O “centro da meta” hoje só é possível com aumento da taxa de desemprego, taxa SELIC próxima de 15%, paralisação de obras, cortes nos investimentos sociais e taxa de investimentos com relação ao PIB na casa de 16%.

Não vejo surpresa nesta opção que nada tem de política, mas também é muito ideológica. A diferença entre a turma de Dilma e a turma deles é que existe uma agenda imposta pelo Estado de ajuste macroeconômico. Trata-se de uma questão de poder, diga-se de passagem. Mas, vejamos. A resistência governamental a esta agenda não se exprime no “social”. O governo tenta ser o mais monetário possível de forma que o veneno não mate conquistas sociais e econômicas obtidas pelo povo nos últimos dez anos.

A oposição não apenas surfa na onda da fábrica midiática de inflação. Pior do que esse oportunismo será aproveitar este clima para impor uma agenda que não interessa ao país e sim a quem nos chantageia batendo no Estado, porém disputando o Estado para fins nada publicáveis. Lembremo-nos do golpe cambial de janeiro de 1999 e suas trágicas consequências sociais. Prefiro a continuidade de quem ainda tem coragem de expor que “o pré-sal não é para fazer superávit primário é para o futuro, para compor o fundo da pobreza” (2).

E a oposição quer enfrentar a inflação gerando justamente pobreza!

(1) (em entrevista ao programa Poder e Política da UOL: http://www1.folha.uol.com.br/poder/poderepolitica/2014/05/1447935-eduardo-campos-fala-em-meta-de-inflacao-de-3.shtml)

(2) “Não tenho que dar tarifaço, diz Dilma”. Valor Econômico. Quinta-feira, 08/05/2014.

Publicado no blog do Renato Rabelo