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Capital financeiro, “inflação de alimentos” e os movimentos sociais

Elias Jabbour Publicado em 19.03.2014

A moda inventada pelos formadores de opinião da grande finança é atribuir a necessidade de maiores taxas de juros toda vez que um choque nos preços dos alimentos surgir no horizonte. Afora o fato estapafúrdio de se utilizar juros que indexam títulos da dívida pública para combater o preço do tomate, fica uma pergunta necessária a ser respondida: quem governa a lógica da produção e formação dos preços na agricultura?

Incertezas no mercado de papéis financeiros puros de um lado e demanda por commodities em novos mercados como a China e a Índia transformou o mercado futuro de commodities em algo mais seguro que o convencional. Preços internacionais de produtos primários passaram a ser formados tendo por base a Bolsa de Chicago subsumindo a “oferta pela oferta”. O papel da demanda asiática é menor que o imaginado em comparação com o crescimento geométrico deste mercado futuro no que cerne a tal inflação dos alimentos no Brasil.

Trata-se de uma realidade amplamente encoberta pela mídia encarregada dos assuntos econômicos e interesses da grande especulação financeira. Desta forma não é nenhum exagero afirmar que o capital rentista é mais afetado, positivamente, pelas variações climáticas do que a própria produção de alimentos. É muito complicado acreditar no poder do clima, apesar de existir, sobre a produção quando a realidade atesta a existência de grandes propriedades especializadas na produção de uvas, melões e melancias no semiárido brasileiro, no deserto de Negev ou na região autônoma chinesa do Xinjiang.

Minimizar o problema climático neste aspecto não significa desprezo para com a questão. E sim, perceber que as mesmas leis econômicas que regem a compra, venda e securitização de títulos financeiros também dão conta deste mercado futuro de produtos primários. Logo, os preços destes produtos deixam de ser estipulados em plena concordância com a safra em si e sim partindo de expectativas longe de qualquer materialidade. A lógica da grande finança passa a governar a dinâmica da formação dos preços em detrimento da própria produção de alimentos.

Neste aspecto coloco-me em franca oposição ao texto assinado pela senadora Kátia Abreu. E não é sempre que discordo dela. Em artigo na Folha de S. Paulo (“O preço dos alimentos”, 19/03/2014) Abreu, no afã de advogar maior oferta de alimentos como forma de resolver o problema da “inflação de alimentos”, confunde alhos com bugalhos. Ao advogar os inadvogáveis, ela diz o seguinte: “Antes de qualquer coisa, devemos indagar por que os preços estão subindo. Se quisermos respostas precisas, temos de ignorar os suspeitos habituais. É o caso dos mercados futuros de produtos agrícolas. A exemplo dos mordomos de filmes policiais, eles podem até parecer, mas não são os culpados. Por uma razão elementar: com exceção de períodos curtos, as cotações ali não se descolam dos fundamentos que regem a oferta e a demanda dos produtos”. E continua: “(...) Mercados futuros, na verdade, ajudam a dar transparência ao processo de formação dos preços”.

A senadora (ou quem escreve por ela) deve perceber que a lei da oferta e da procura é um argumento tão démodé quanto a culpa impingida aos mordomos nos filmes policiais. O exemplo dos mordomos é apenas expressão “da corda que estoura em seu lado mais fraco”. No caso da relação entre produtor e consumidor de alimentos no Brasil, a referida lei nunca existiu no Brasil onde oligopsônios e monopsônios agem abertamente – e há décadas – contra o povo e sua capacidade de consumo. Em outro nível, mercados financeiros são tão oligopolizados quanto o “mercado” de insumos agrícolas. Mas há quem acredite que a Monsanto, a Cargill e a Bunge concorrem entre si. Ou será a concorrência que prescreve coincidência no aumento, por parte destas três empresas, nos preços de produtos que vão de sementes até vacinas? Os mordomos, e o povo, são mais inocentes do que Kátia Abreu imagina...

Retornando, como dito mais acima, esta realidade não é nem triscada quando o assunto é a manutenção da “estabilidade monetária” no Brasil e a variação para cima da taxa de juros. Os interesses são imensos e envolve poder político de fato, não governo de direito. O que vale é a desinformação para fins de manutenção de uma extensa base material garantida pela iliquidez inerente a atividades de cunho financeiro. Trata-se de dois níveis de especulação que afetam diretamente tanto o desenvolvimento da nação quanto o poder de compra das massas populares brasileiras. Enfrentar esse debate, portanto, não tem sentido somente nacional. É internacional na justa medida em que milhões de seres humanos ainda sofrem de flagelos como a fome, a subnutrição e doenças correlatas. A agenda da segurança alimentar deve bater de frente com a lógica – cada vez mais – especulativa por detrás da formação de preços de gêneros alimentícios.

Por fim, ainda permito-me ao espanto diante da insistência dos “intelectuais” dos movimentos sociais, e os próprios movimentos sociais, em por ênfase – em pleno século XXI – na velha dicotomia entre campo x cidade e agronegócio x agricultura familiar na problemática da agricultura. Ou mesmo em atacar o aspecto “conservador” da modernização agrícola do Brasil. Em ambos os casos, argumentos “politicamente corretos” pouco servem para resolver problemas não criados por nós (eles). O tempo passou e a agricultura deixou de ser um ato em si para se subsumir à lógica da divisão social do trabalho (especialização), tornar-se um ramo da indústria e hoje estar inerente a grandes mecanismos financeiros de financiamento e mesmo ser parte integrante da imensa rede especulativa em escala mundial. 

Será mais interessante classificar uma propriedade fundiária pelo seu tamanho e não pela composição orgânica do capital e acesso ao financiamento em detrimento da realidade dura e crua que se coloca e desafia os destinos de nosso país e nosso povo? Com a palavra, os “intelectuais” dos movimentos sociais subsidiados pela Fundação Ford.

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* Geógrafo, doutor e mestre em Geografia Humana pela FFLCH-USP. É membro do Comitê Central do PCdoB.