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O preço da desigualdade no futebol

PAULO REIS MOURÃO Publicado em 03.01.2014

Joseph Stiglitz apresentou, neste ano de 2013, o livro “O preço da desigualdade” onde defende a ideia de que a troika mais ricos/mais políticos/mais influentes ganha com a desigualdade sócio-económica. Quem investiga o futebol, depressa observará também que a desigualdade entre “Grandes” e os outros (que acontece em todos os campeonatos profissionais europeus) tem alimentado a pretensa grandeza de uns e poderá, em breve, levar a uma implosão (no mínimo, a um retrocesso histórico) do desporto-rei no Velho Continente. Esta ameaça tem três dimensões: desregulação financeira, descapitalização e desigualdade.

Desregulação financeira

Os atuais fundos de investimento mais não são que a modernização do patronato que nas décadas de 50 a 70, alguns mecenas realizavam sobre determinados clubes assegurando a fidelização dos craques. Neste momento, os empresários/investidores reúnem capital, criam um fundo (por vezes, sediado em offshores) e adquirem percentagens dos passes dos jogadores, beneficiando das mais-valias pelas sucessivas transferências. Em primeiro lugar, quem perde algum controlo é a figura do agente tradicional que recebia a figura da comissão. Em segundo lugar, devido à emergência da figura no panorama financeiro, creio que a mesma possibilita perdas de receitas fiscais para os Estados. Por último, complexifica as finanças do futebol – cada vez mais anónimas e cada vez mais longe dos estádios. O pedido da UEFA em 2012 (dirigido à FIFA, para proibir a atividade global destes fundos, agilizadores de transferências de jogadores de campeonatos emergentes) é um toque a rebate.

Descapitalização

No caso de um clube de futebol representado por uma SAD, os primeiros decisores deveriam ser os sócios detentores do capital da SAD. Desde o momento que o clube não está controlado pelos sócios locais e pelos adeptos, fica à mercê dos interesses dos verdadeiros “donos da bola”. Obviamente, esta ausência de controlo pode, numa escala maior, deteriorar os respectivos campeonatos e a indústria no global, se existir um ciclo de descapitalização das SAD devido a necessidades financeiras. Nessa altura, corremos o risco de deixar de ter clubes, mesmo num sentido estético. Para acautelar a realidade contra a eventualidade desse cenário, seria útil que as Ligas internas, mas também a UEFA/FIFA criassem um fundo de capitalização obrigatória por parte dos clubes SAD que funcionasse como um seguro de resposta imediata perante os cenários de descapitalização emergente (este fundo teria alguma semelhança com o Fundo de Resgate europeu sedeado no BCE).

A transição para que os clubes voltem a deter, por inteiro, os passes dos jogadores é um processo complexo que ninguém quer discutir. Haverá possivelmente direitos compensatórios, haverá possivelmente jogadores a perder valor, e haverá muito possivelmente clubes sem capacidade de intervenção.

Desigualdade

O financiamento por obrigações (que virou ‘moda’ no futebol português) é tão só o resultado das necessidades de reestruturar o passivo dos clubes, levando a que a dívida aos fornecedores de capital de curto prazo seja atirada para os passivos de médio e longo prazo, dando alguma margem de liquidez para os clubes. No entanto, quando estes empréstimos vencerem, gera-se a necessidade de recorrer novamente ao processo de pagar as dívidas em vencimento com dívidas em contração. No entanto, este processo não é garantido para sempre; chega um ponto em que os financiadores duvidam da capacidade dos clubes solverem as dívidas, quer pelo crescendo das taxas de juro, quer pelo peso dos seus passivos. Nesse momento, não bastarão garantias reais – a liquidez só será garantida com a alienação de curto prazo dos ativos. Neste momento, as fontes de financiamento mais adequadas passam pela capitalização dos direitos dos ativos intangíveis: marcas, publicidade/merchandising, e direitos televisivos. Obviamente o aproveitamento dos direitos de formação, se bem gerido, pode ser uma almofada nestes tempos para clubes de menor dimensão.

A crise agrava o fosso entre clubes ricos, com mais craques e com mais pontos, e os clubes menos ricos, com menos craques, com menos pontos. A crise nunca diminui esse fosso. Olhem-se os resultados dos clubes portugueses por exemplo e a exposição conseguida com a representação nas provas europeias. Observe-se ainda uma representação histórica.

Muitos dirão que a desigualdade é aceite tacitamente. Todos, no caso português, têm uma preferência de 1ª ou 2ª escolha por um dos “3 grandes”. E depois há o nosso hedonismo intrínseco – todos gostamos de apostar no cavalo que ganha, de sofrer durante e ganhar no fim, de saborear mais golos que o vizinho. Daí, tendermos a ser simpatizantes, adeptos e sócios dos Grandes que concentram maiores probabilidades de vitória e de sucesso. Afinal, a desigualdade começa em nós.

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Público