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Do trem blindado a Brest-Litovsk (ou as concessões do camarada Lênin)

Augusto C. Buonicore Publicado em 10.10.2013

Lênin, de fato, fez um acordo com o governo alemão. Os dois, por motivos diferentes, tinham interesse em que os principais líderes bolcheviques voltassem para o centro da luta revolucionária na Rússia. O primeiro estava interessado apenas na derrubada (ou na desestabilização) do governo pró-Entente. O segundo queria conduzir a Rússia pela senda da revolução socialista. Por um breve momento, esses interesses contraditórios se cruzaram e Lênin soube tirar proveito da situação.

Assinatura do Tratado de Paz de Brest-Litovsk durante a noite entre 9 e 10 de fevereiro de 1918. Sentado no meio a partir da esquerda: Conde Ottokar Czernin, Richard von Kühlmann e Vasil Radoslavov

**Rumo à Estação Finlândia

Em fevereiro de 1917 Lênin ainda estava na Suíça. Foi ali que recebeu as primeiras notícias da eclosão da revolução democrático-popular que derrubou o czar e da constituição de um duplo poder: o do governo provisório (burguês) e o dos sovietes. Existia muita confusão nas fileiras bolcheviques e era necessário voltar imediatamente para a Rússia revolucionária. Mas as fronteiras estavam ocupadas pelas tropas da Entente (Inglaterra e França) e esta não tinha o menor interesse no regresso dos bolcheviques exilados, que defendiam a saída da aliada Rússia da guerra. Por outro lado, o governo provisório russo defendia a manutenção daquela aliança militar e procurava manter o seu esforço de guerra contra a Alemanha.
Se Lênin quisesse voltar a seu país só havia uma saída: negociar com o governo imperialista alemão. Os alemães, por sua vez, tinham interesse em que os bolcheviques voltassem para a Rússia e a tirassem da guerra. Assim, poderiam concentrar suas tropas na frente ocidental. Lênin, desde 1914, defendia o chamado derrotismo revolucionário e a necessidade de transformar a guerra imperialista numa revolução popular. Os defensores desta tese na Alemanha estavam encarcerados, mas na Rússia eles deveriam ser incentivados, pensava o Kaiser Guilherme II.
Parvus, que era membro da ala direita do Partido Social-Democrata da Alemanha, e um dos mais ardentes defensores da guerra imperialista, convenceu o governo alemão sobre a importância do imediato envio dos bolcheviques à Rússia. O próprio imperador autorizou os revolucionários a, se não pudessem entrar na Suécia, atravessarem as linhas de guerra alemãs na frente oriental. Felizmente, isto não foi necessário.
Quando Lênin recebeu a notícia de que o alto-comando havia concordado, disse eufórico à sua esposa Nadejda Krupskaia: “Vamos no primeiro comboio!”. Alguns socialistas ficaram horrorizados com os planos de Lênin e tentaram dissuadi-lo. Recusavam-se a aceitar qualquer acordo com as autoridades militares alemãs e, principalmente, a ideia de cruzar o território inimigo sob proteção militar. Lênin nem recebeu a delegação de descontentes. A situação não comportava qualquer concessão ao moralismo pequeno-burguês de verniz esquerdista.
Em 9 de abril, Lênin, Krupskaia e mais 19 bolcheviques atravessaram o território alemão. Foram transportados num trem fechado e bem guardado por oficiais alemães. Na noite do dia 16 de abril, a comitiva cruzou a fronteira da Finlândia, que na ocasião pertencia à Rússia, e chegou a Petrogrado. Naquele momento os rumos da revolução russa começavam se ser definidos.
Iniciou-se, então, uma grande campanha internacional contra Lênin, dizendo que ele era um agente a serviço do governo imperial alemão. Esta, por exemplo, foi a tônica das primeiras notícias sobre ele divulgadas no Brasil. O jornal O combate, de 25 de julho de 1917, num artigo intitulado “Quem é Lênin?”, afirmou: “O verdadeiro nome dele é Leão Ulianov e pode ser considerado como chefe da espionagem alemã na Rússia, tendo gasto nos últimos meses vários milhões de rublos (...). Lênin é considerado um criminoso de alta traição.” O jornal A Noite, na mesma linha de desinformação, escreveu: “foi assassinado em Petrogrado (...) o socialista Lênin, apontado como agente alemão e que fazia propaganda a favor da paz.”.
O anarquista Astrojildo Pereira, futuro fundador do Partido Comunista do Brasil, comentando as notícias da imprensa burguesa da época afirmou: “E assim o mundo inteiro, guiado pelo que diz a imprensa moderna, está absolutamente convencido de que Lênin é, de fato, um traidor da pior espécie, fomentador de desordem de que se aproveitam os inimigos da Rússia, miserável vendido ao ouro teutônico”.
Lênin, de fato, fez um acordo com o governo alemão. Os dois, por motivos diferentes, tinham interesse em que os principais líderes bolcheviques voltassem para o centro da luta revolucionária na Rússia. O primeiro estava interessado apenas na derrubada (ou na desestabilização) do governo pró-Entente. O segundo queria conduzir a Rússia pela senda da revolução socialista. Por um breve momento, esses interesses contraditórios se cruzaram e Lênin soube tirar proveito da situação. No final das contas, o polêmico acordo acabou sendo amplamente favorável à revolução e ao socialismo no mundo. Só os tolos, ou moralistas pequeno-burgueses, poderiam se negar a subir no trem blindado alemão rumo à estação Finlândia. Os acordos e compromissos dos bolcheviques com o alto-comando do imperialismo alemão foram necessários e não parariam aqui.

O Tratado de Brest-Litovsk

Em 7 novembro de 1917 os bolcheviques, liderados por Lênin, tomaram o poder na Rússia. No mesmo dia foi anunciado o Decreto sobre a Paz. Dizia ele: “O governo (...) propõe a todos os povos beligerantes e aos seus governos o início de conversações imediatas com vistas a uma paz justa e democrática”. Dez dias depois o governo alemão transmitiu ao governo soviético o seu interesse em entabular negociações. Sem demora, na cidade de Brest-Litovsk, se reuniram os representantes da jovem República Soviética e do governo imperial alemão.
Lênin desejava uma paz sem anexações e os alemães exigiam a entrega de 215 mil km2 de território russo e uma indenização de três milhões de rubros em ouro. O líder revolucionário russo deu instruções claras para que a delegação soviética procurasse ganhar tempo, mas, caso se estabelecesse um impasse ou diante de um ultimato, que assinasse o acordo de paz. Este era essencial para salvar a revolução socialista em curso. Trotsky não seguiu as instruções de Lênin e recusou-se a assinar o acordo. Lênin escreveu: “Todo aquele que for contra a paz imediata, ainda que seja extremamente penosa, trabalha para a perda do poder dos sovietes”.
Aproveitando-se dos erros de Trotsky, em 18 de fevereiro, os exércitos alemães iniciaram uma ofensiva relâmpago. Eles já haviam ocupado Ucrânia, Lituânia, Estônia, Finlândia e chegaram perto da cidade de Petrogrado, a capital da revolução. Ou seja, haviam tomado pelas armas mais de 400 mil km2 do território russo, nos quais habitava uma população de mais de 55 milhões de pessoas. Além disso, nessas regiões, se encontravam 90% da reserva de combustível e 45% da produção de trigo.
Os soviéticos tiveram que retomar as negociações em piores condições e o governo alemão apresentou novas e maiores exigências para assinar o acordo de paz. Exigiu a entrega de todos os territórios já ocupados e aumentou o valor da indenização a ser paga. A maioria dos bolcheviques e dos social-revolucionários – com apoio da direita nacionalista – recusou a proposta.
Em 24 de fevereiro, o Comitê do Partido Bolchevique de Moscou chegou a aprovar, por unanimidade, uma moção que expressava a sua “desconfiança em relação ao Comitê Central” e que não se via mais obrigado a se submeter às suas determinações, decorrente da “implementação dos termos do tratado de paz com a Alemanha.” O documento moscovita dizia ser melhor, em nome da revolução mundial, arriscar uma destruição do governo soviético do que submeter-se a um acordo como aquele. Lênin respondeu que a derrota da Revolução Russa em nada ajudaria o proletariado mundial, pelo contrário ajudaria apenas os reacionários.
Outro dirigente bolchevique, Nicolai Bukharin, defendeu que deveria se levar a guerra revolucionária ao território inimigo, como forma de forçar os alemães a recuarem em suas reivindicações territoriais. Lênin considerou uma proposta idealista, pois não correspondia à correlação de forças existente, e novamente defendeu a assinatura imediata do acordo, apesar das condições humilhantes que foram impostas. Ele tinha a convicção de que era preciso manobrar e recuar para poder avançar num futuro não muito distante.
Uma pesquisa entre os principais sovietes apontou uma grande resistência ao acordo de paz sob as condições impostas pelos alemães. Buscando impedir o processo de paz, os social-revolucionários de esquerda assassinaram o embaixador alemão e planejaram atentados contra autoridades soviéticas. Instalou-se um clima de rebelião contra a proposta de Lênin. Mas ele estava convicto da justeza de suas posições.
Mais tarde, sistematizando a experiência dos bolcheviques, ele afirmou que os partidos revolucionários deveriam completar sua instrução aprendendo também a recuar. “E se os bolcheviques conseguiram tal resultado (vencer a contrarrevolução) foi exclusivamente porque desmascararam impiedosamente (...) os revolucionários de boca, obstinados em não compreender que é necessário recuar, que é preciso saber recuar.”, disse ele.
A superioridade alemã e os riscos representados para a revolução ficaram tão evidentes que a proposta de Lênin acabou sendo aprovada pelo Partido Bolchevique. Em 3 de março de 1918 foi assinado o acordo de paz. Para a imprensa burguesa, ligada à Entente, esta era a prova definitiva de que o líder russo era um agente alemão no governo soviético. Esta ideia foi amplamente divulgada no interior da Rússia. Os social-revolucionários, que possuíam ampla base de massa, romperam com o governo soviético e passaram para o campo da oposição. Poucos meses depois, em 30 de agosto, organizaram um atentado contra o próprio Lênin.
Durante o processo de paz de Brest-Litovsk, Lênin foi obrigado a estabelecer um compromisso com o alto-comando militar alemão. Um compromisso extremamente desfavorável, mas necessário para salvar a revolução que estava prestes a ser derrotada no campo militar. Novamente os esquerdistas e os moralistas pequeno-burgueses se levantaram contra ele, acusando-o de não ter princípios e de estabelecer acordos e compromissos inaceitáveis com os inimigos da revolução. “Preferimos que a revolução morra a aceitar acordos com o imperialismo”, afirmavam. Não sabiam que esta posição, aparentemente radical, representava um acordo implícito, de longo termo, com os interesses dos piores inimigos dos trabalhadores. Para Lênin, nenhum princípio poderia ser sustentado sob o cadáver da revolução socialista russa. No livro Esquerdismo, doença infantil do comunismo (1921) ele voltou a justificar sua posição: “A paz de Brest-Litovsk era a seu ver (dos esquerdistas) um compromisso com os imperialistas, e inadmissível por princípio (...). Era efetivamente um compromisso com os imperialistas, mas era exatamente isso que as circunstâncias tornavam obrigatório”.
A vitória da revolução socialista na Rússia animou o proletariado alemão que, em 1918, pôs abaixo a monarquia e o império dos junkers. Em alguns anos o exército vermelho recuperou a quase totalidade das regiões cedidas no acordo de Brest-Litovsk. A história mostrou que as difíceis concessões feitas por Lênin, que levantaram contra ele as forças esquerdistas e nacionalistas burguesas, mostraram-se fundamentalmente corretas. Na maioria das vezes, em situações de crise, as concessões não podem ser compreendidas imediatamente pelos doutrinários. Elas só podem ser compreendidas plenamente no transcorrer de um período histórico mais ou menos longo. Como cansou de afirmar Lênin, somente os dirigentes marxistas experientes possuem esta capacidade de firmar compromissos complexos e sabem recuar com suas tropas, organizadamente, quando a situação assim o exige. Foi esta sagacidade política que fez de Lênin o maior estrategista do proletariado revolucionário no século XX.

* Artigo publicado originalmente no sítio Rebelion, em 20 de agosto de 2003, durante os acesos debates em torno do problema de apoiar e participar do governo Lula, que acabava de aprovar a reforma neoliberal da previdência.

** Augusto Buonicore é historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira e Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos publicados pela Editora Anita Garibaldi.