Artigos

As duas faces do modelo econômico alemão

Laura Britt Publicado em 02.10.2013

O Estado Social que beneficiava os trabalhadores não existe mais

Estudando a economia alemã nos últimos 25 anos, a época da globalização, constata-se que o modelo alemão tem para apresentar consideráveis sucessos, principalmente, no setor das exportações, tendo sido proclamado 11 vezes campeão mundial.

Consequentemente, para o atual bem-estar dos habitantes da maior economia da Europa contribuem, em grau elevado, as exportações, e menos a demanda interna. Isto é resultado de vários fatores, o mais básico a dedicação de todos os governos alemães a uma política de incessante melhoria de competitividade da economia.

Realmente, nenhum outro país da Europa conseguiu reerguer-se da crise de 2007–2009 tão rapidamente e, ainda, conseguir vantagens, quanto a Alemanha. Aliás, o desemprego reduziu-se de 12% em 2005, para 6.9% hoje. Mas isto é apenas uma face.

Na realidade, os dados mostram que, de 1999, quando foi constituída a União Monetária, os desempenhos de crescimento da Alemanha eram muito inferiores àqueles dos problemáticos países do Sul, Espanha, Itália, Portugal ou Grécia, com os conhecidos problemas que seguiram.

Ainda, a competitividade da economia alemã apoiou-se quase exclusivamente nos cortes dos salários e na parcial dissolução do Estado-Social. Com base na dimensão dos salários reais, assim como dos gastos reais de consumo, a Alemanha classifica-se nas últimas posições dos países industrializados.

Hoje, muitos trabalhadores alemães recebem salários menores do que aqueles que recebiam há 15 anos. A classe média está contraída, enquanto, a distância para a classe de rendimento superior aumenta. Os beneficiários de subsídios sociais (Hartz-IV) atingiram os 6,1 milhões de cidadãos, que recebem para sua sobrevivência, mensalmente, 380 euros os solteiros e 680 euros os casais.

Governo social-democrata

Esta evolução é resultado da Agenda 2010, uma política adotada pelo governo social-democrata do chanceler Gerhard Schröder, a quem, aliás, agradeceu a conservadora chanceler reeleita, Angela Merkel, no momento em que assumia, oficialmente, o cargo. A receita previa Estado menor, salários estáveis, flexíveis condições de trabalho, assim como redução dos gastos sociais.

Assim, o Partido Social-Democrata (SPD), até então, seguia uma clara política keynesiana, que proporcionava peso na participação do Estado, adotada tanto pelo ex-ministro da Economia Karl Schiller quanto pelo chanceler Helmut Schmidt com muito sucesso. Mas afastou-se, gradualmente, desta linha e seguiu políticas mais conservadoras de orientação neoclássica.

Os elogiáveis esforços do último tempo do candidato a chanceler Peer Steinbrück para afastar-se das políticas de severa frugalidade, acrescentando dados de política social desenvolvimentista, não constituem uma completa proposta alternativa que proporcione uma nova e esperançosa história tanto ao povo alemão, quanto para os demais povos da Europa.

Apesar de tudo isso, a perspectiva de uma governança de coalizão com Merkel deixa algumas esperanças por uma pequena diferenciação na política seguida no início e o reconhecimento da necessidade de uma revisão radical durante o itinerário total da governança.

Fonte: Monitor Mercantil