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Obama amua com Putin

Thierry Meyssan Publicado em 15.08.2013

Enquanto a imprensa ocidental descreve a anulação da cimeira Obama-Putin como a mais grave crise diplomática após o fim da Guerra fria, e aplaudia a firmeza da Casa Branca, a imprensa chinesa via nisso um sinal da fraqueza dos Estados Unidos face à Rússia. Para Thierry Meyssan, este assunto não se reveste, no fundo, de importância. Significa apenas barulho mediático, e não terá nenhuma consequência para a paz no Próximo-Oriente

Quarta-feira de manhã, a Casa-Branca anunciou que o presidente Barack Obama anulava a sua viagem à Rússia e, portanto, qualquer hipótese de encontro com o presidente Putin. Ele irá, sem dúvida, à cimeira do G20, de 5 a 6 de Setembro, em São Petersburgo, mas unicamente para participar nesta cimeira internacional, sem ter qualquer encontro informal com o seu homólogo russo. É a primeira vez após a Guerra fria que Washington manifesta, assim, o seu descontentamento face a Moscovo.

Segundo a imprensa dos EU, os dois presidentes estão agora tão longe um do outro, na maior parte dos assuntos, que eles nada teriam a dizer-se. Os comentadores colocam o asilo concedido ao ex-consultor da NSA Edward Snowden, como a gota de água que fez transbordar o copo. Por um feliz acaso, o anuncio da Casa Branca foi precedido, na véspera, por um editorial do New York Times — quotidiano perfeitamente independente do Poder, como se sabe — apelando, precisamente, a este boicote como resposta à fuga de Snowden [1]. O jornal fala de « decisão provocatória » das autoridades russas dando asilo a um individuo, que não é perseguido « pela sua raça, a sua etnia, a sua religião, a sua pertença a um grupo social ou político, ou pelas suas crenças », mas sim por « atentado à segurança do Estado » (sic). Na realidade, esta desculpa de cancelamento seria altamente ridícula : isto equivaleria a dizer que Washington punia Moscovo por se defender face à espionagem de que é vítima, junto com o resto do mundo.

A cimeira devia ser consagrada às relações militares entre os dois países : a redução dos arsenais e o « escudo anti-míssil ». As duas grandes potências não chegaram a diminuir significativamente os seus arsenais nucleares, conservando cada uma poder de destruição suficiente para aniquilar várias vezes o planeta. Apesar dos cortes orçamentais, os Estados Unidos mostram-se relutantes em destruir uma parte do seu arsenal, enquanto a Rússia — cujo exército convencional está muito menos bem equipado que o seu homólogo dos EU — considera a avaliação de armamento num todo, e recusa separar as negociações sobre o desarmamento nuclear das do convencional. Em relação ao « escudo anti-míssil », Moscovo rejeita o enganador apelo americano, e denuncia tal sistema ofensivo como sendo dirigido contra si. Tomando a propaganda de Washington à letra, Vladimir Putin propôs que este « escudo » seja colocado sob comando conjunto, e que protegesse as duas grandes potências e seus aliados de alguns ditadores loucos. Barack Obama respondeu-lhe com um « Não ! ». Depois, Vladimir Putin exigiu que, para acabar com a sua desconfiança, a colocação no terreno deste « escudo », fosse recheada de garantias diplomáticas que ele não seria utilizado contra a Rússia. Mais uma vez, o presidente Obama respondeu com um « Não ! ».

Do lado russo há poucas dúvidas que Barack Obama apareceria, pois, de mãos vazias nesta cimeira, tanto mais que sempre se mostrou particularmente pouco à vontade, face ao seu homólogo russo, aquando das precedentes. Acabando de impôr cortes orçamentais drásticos ao Pentágono, ele não pode fazer mais. Tentando disfarçar a sua fraqueza, agarrou-se, pois, ao escândalo Snowden, para saltar fora do combinado. O Global Times, equivalente chinês do New York Times — e, neste caso, porta-voz oficial de Pequim —, constata, num editorial, que a Rússia sai vencedora do jogo Snowden, e que os Estados Unidos não dispõem de nenhum meio de pressão significativo contra ela [2].

Entretanto esta anulação não terá nenhuma consequência para a paz no PróximoOriente. Com efeito, esta sexta-feira, os ministros dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores - Br, NdT) e da Defesa dos dois países encontraram-se discretamente na capital dos EU. John Kerry e Chuck Hagel mostraram-se, na altura, muito pouco afectados pelo cancelamento da cimeira Obama-Putin. Eles fizeram o balanço da situação com os seus homólogos, (russos), sobre a Coreia do Norte, e da evolução do Irão sob a direcção do xeque Hassan Rohani. Acima de tudo, eles discutiram os « objectivos comuns no Afeganistão » e a « possível cooperação na Síria ».

*Intelectual francês, presidente fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. Publica análises de política estrangeira na imprensa árabe, latino-americana e russa. Último livro publicado: L’Effroyable imposture : Tome 2, Manipulations et désinformations (éd. JP Bertand, 2007).