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O estrago do fantasma da inflação

Amir Khair Publicado em 12.06.2013

Como resposta à inflação, que, diga-se de passagem, é cadente desde janeiro, o governo apelou para o crescimento da Selic e deixou porta escancarada para a especulação internacional em cima dos títulos do governo federal ao retirar o IOF dessas aplicações. É um presentão ao capital internacional em tempos de juros internacionais no chão.

Espremido pela inflação, pelo baixo crescimento, e vendo a pressão crescente nos rombos das contas externas, o governo optou pelas medidas de curto prazo tentando evitar o desgaste causado pela inflação, que atingiu o orçamento doméstico da população de renda média e baixa, com reflexos mais fortes nas regiões onde o governo desfruta de poderoso cacife eleitoral.

Como resposta à inflação, que, diga-se de passagem, é cadente desde janeiro, o governo apelou para o crescimento da Selic e deixou porta escancarada para a especulação internacional em cima dos títulos do governo federal ao retirar o IOF dessas aplicações. É um presentão ao capital internacional em tempos de juros internacionais no chão.

Inflação - O medo do fantasma da inflação acabou por inverter mais uma vez a política econômica, passando o bastão ao presidente do Banco Central, que anunciou novas rodadas de elevação da Selic, que conjugada com o IOF zerado, vai no curto prazo atrair dólares especulativos, o que aprecia o real reduzindo os preços dos bens importados. O problema é que alguns meses após o ingresso desses dólares, eles retornam mais gordos aos seus aplicadores com os lucros financeiros das aplicações, o que causa depreciação do real. Assim, ao final do ciclo financeiro saem mais dólares do que entraram, depreciando o real, numa verdadeira bomba de sucção de dólares. Esse lucro é pago pela população via mais impostos. Além disso, eleva a despesa com juros do governo federal e, no final do processo eleva o rombo externo com a saída dos dólares.

A causa central da inflação foi o choque climático que atacou a produção dos alimentos in natura, que cresceram 55% nos últimos doze meses, impactando os preços dos alimentos. O IPCA sem esse efeito da subida dos alimentos gira desde meados do ano passado no entorno de 4% (!) ao ano, portanto, abaixo do centro da meta de inflação de 4,5%. Como está se dissipando o choque agrícola e entrando no mercado a nova safra recorde, os preços dos alimentos já retrocedem levando a inflação para baixo. Em maio foi de 0,37%, que anualizada é de 4,5%.

O problema é que a inflação acumulada em doze meses irá superar neste mês o teto da meta de 6,5%, pois a inflação de junho do ano passado foi de 0,08%. Como no final de maio a inflação acumulada em doze meses chegou a 6,5%, basta neste mês ficar acima de 0,08% para ultrapassar o teto.

Tem-se inflação mensal refluindo e inflação acumulada em doze meses subindo. Os guardiões da inflação olham só para a superação do teto e a política do Banco Central (BC), também.

Assim, há erro na condução do combate à inflação, pois o BC usa sempre o argumento de que a alteração na Selic leva de 6 a 12 meses para surtir efeito. Como a inflação tende a cair pelo impacto favorável dos alimentos e, pela diminuição da expansão do consumo devido à inflação passada, que foi alta nos meses precedentes, não se poderá atribuir ao BC a queda da inflação, mas sim ao retorno dos preços dos alimentos à situação anterior ao choque agrícola. Além disso, a inflação traz consigo seu próprio antídoto ao reduzir o poder de compra da população.

Crescimento - Ao optar pela resposta dada ao fantasma da inflação o governo jogou um balde de água fria no tímido crescimento rebaixando sua estimativa de 4% para 2,7%.

O câmbio mantido valorizado vai continuar facilitando a importação e dificultando a exportação, que sofre dura concorrência internacional. Isso equivale à redução do PIB. Nesse primeiro trimestre a balança comercial do País infringiu uma queda maior no crescimento. Ao continuar isso será difícil até alcançar os 2,7% da última previsão.

Questão fiscal - Os analistas ortodoxos estão lamentando a redução do superávit primário (receitas menos despesas exclusive financeiras) de 3,1%. Afirmam que com isso o Banco Central terá que elevar mais anda a Selic para controlar a inflação que estaria sendo elevada por conta da expansão das despesas do governo. Parecem ignorar que quem está criando mais despesas para o governo é o BC ao elevar a Selic.

Se o governo tivesse continuado a queda da Selic para o nível médio praticado pelos países emergentes de 5,5%, a conta de juros estaria bem menor e o mesmo para o custo de carregamento das reservas internacionais. Assim, assustado pelo fantasma da inflação que é cadente, o governo errou elevando a Selic e retirando o IOF. Armou, assim, problema maior a complicar a vida mais à frente. Vale acompanhar.