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Ustra e o sangue de Carlos Danielli

Osvaldo Bertolino Publicado em 13.05.2013

O nome do torturador e assassino Carlos Alebrto Brilhante Ustra lembra o sangue de um heroi, de um exemplo de dedicação infinita à causa do socialismo: Carlos Nicolau Danielli.

Os rompantes do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, o chefe da repressão em São Paulo durante um período da ditadura de 1964, na sexta-feira (10) em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV), rememoram, de certa forma, a visão dos degenerados que comandaram o país durante a vigência do regime golpista. Segundo Ustra, a presidenta Dilma Rousseff participou de "organizações terroristas" com intenção de implantar o “comunismo” no Brasil e, se eles não tivessem lutado, o país estaria sob uma "ditadura do proletariado".

A ignorância e a arrogância são um traço comum dos criminosos de 1964 que se manifestam sobre os acontecimentos daquele período. Mas a mentira se sobressai. Ustra afirmou que agiu “com consciência” e “tranquilidade”. “Nunca ocultei cadáver, nunca cometi assassinatos, sempre agi dentro da lei e da ordem. Nunca fui um assassino, graças a Deus, nunca fui", mentiu. Durante o depoimento, o conselheiro Claudio Fontelles apresentou documentos que apontam 50 mortes atribuídas à responsabilidade do coronel.

Há algum tempo Ustra esteve nas dependências da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra onde proferiu palestra sobre como o Brasil “ruma para o socialismo”. No evento, prestigiado por movimentos neofascistas, ele também respondeu a perguntas “sobre o paradigma entre capitalismo e comunismo”. São assuntos que não merecem atenção além do registro de que se depender desses neofascistas gente como Ustra deve voltar à ativa o quanto antes. O importante é relembrar sua trajetória para que a memória de democratas e patriotas trucidados pela máquina de torturas dirigida por ele não seja esquecida.

Uma das vítimas que mais sofreu em suas garras chamava-se Carlos Nicolau Danielli. Dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ele foi covardemente torturado até à morte. O coronel comandou pessoalmente o massacre de Danielli, que durou quase quatro dias, depois da prisão efetuada em uma operação que tinha por objetivo restabelecer o contado da direção do PCdoB com a Guerrilha do Araguaia — interrompido quando o Exército atacou o Sul do Estado do Pará em abril de 1972.

História de terror

O assassinato de Danielli talvez tenha sido o mais importante êxito da repressão durante a passagem de Ustra por São Paulo. Ele foi designado para a função de comandante da tortura pelo general José Canavarro Pereira, no dia 28 de setembro de 1970. Em setembro daquele ano, o presidente da República, general Emílio Garrastazu Médici, expediu uma diretriz de “segurança interna” determinando que em cada comando do Exército existissem um Destacamento de Operações de Informações (DOI) e um Destacamento de Operações de Defesa Interna (Codi). Nasciam os tristemente famosos DOI-Codi.

O objetivo era unificar as ações repressivas do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, do Serviço Nacional de Informações (SNI), das secretarias de segurança pública (polícias militar e civil) e da Polícia Federal. Em São Paulo, a Operação Bandeirantes (Oban) já funcionava nos moldes do que seriam os DOI-Codi. Foi a partir da experiência paulista que a repressão teve a idéia de criar essas organizações em várias cidades. Era uma organização “ilegal”, que foi “legalizada” pela diretriz de Médici. Ou seja: foi a “legalização” do terrorismo de Estado, cujo laboratório era a Oban.

Ustra seria o principal personagem da história de terror daquele DOI-Codi. Sob seu comando, aquela sinistra organização se transformou numa galeria de torturas cruéis e assassinatos brutais. Ele seria desmascarado, muito tempo depois, pela atriz Bete Mendes e respondeu às denúncias escrevendo, em 1987, o livro Rompendo o Silêncio. Danielli, o secretário de organização do Comitê Central do PCdoB, era um alvo perseguido pela repressão por ser o principal responsável pela ligação da direção do Partido que estava em São Paulo e no Rio de Janeiro com a Guerrilha do Araguaia.

Carta de Grabois

Para restabelecer o contato interrompido pelo ataque da repressão ao Sul do Estado do Pará em abril de 1972, Maurício Grabois, que comandava a Guerrilha junto com João Amazonas, enviou uma carta por intermédio da guerrilheira Criméia Schmidt de Almeida — irmã de Maria Amélia Teles, conhecida como Amelinha, responsável com o marido César Teles pelo “aparelho” onde Danielli redigia e imprimia o jornal A Classe Operária — aos dirigentes comunistas que estavam em São Paulo e no Rio de Janeiro. Criméia chegou à capital paulista na tarde do dia 28 de dezembro de 1972. Danielli, previamente comunicado da missão, marcou um encontro com Lincoln Oest, que viria do Rio de Janeiro, para o mesmo dia no começo da noite na Rua Loefgreen, na Vila Mariana.

A missão teria o apoio de César e Amelinha. Os três deixaram Criméia com os dois filhos do casal no “aparelho” e se dirigiram ao “ponto” previamente marcado com Lincoln Oest. Danielli desceu antes e disse para os dois buscá-lo algum tempo depois. Na volta, foram recebidos de armas em punho. Danielli havia caído numa cilada armada pela “comunidade de informações”, que ligava os DOI-Codi. A operação começou com a prisão de dirigentes locais do Partido no Estado do Espírito Santo e chegou a Lincoln Oest, que neste dia já estava morto. Em seu lugar, a repressão mandou outro militante do Partido, que serviu de isca para atrair Danielli.

Vida de heroísmo

Levado ao DOI-Codi, Danielli foi posto num cubículo infecto. Assim que chegou, foi interrogado por Ustra sobre a Guerrilha do Araguaia. “É disto que querem saber? Pois é comigo mesmo. Mas não vou falar”, disse ele. No dia seguinte, a repressão invadiu o “aparelho” e levou Criméia com as criaças para o DOI-Codi. Todos foram vítimas das brutais torturas comandas por Ustra. Danielli era torturado pessoalmente pelo coronel. Num dos intervalos das sevícias, ele escreveu com seu próprio sangue na parede: “Este sangue será vingado.”

Ele foi torturado sistematicamente por três equipes de assassinos. À sua volta, na tarde do dia 31 de dezembro de 1972, a equipe comandada por Ustra viu a respiração de Danielli sumir e com ela toda a esperança de obter as informações persistentemente buscadas em quatro dias que entraram para a história com a marca da crueldade sem limite. Acabava ali, aos 43 de idade, uma vida de heroísmo, de dedicação infinita à causa do socialismo e de exemplo de dignidade.

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Editor do Portal Grabois