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Os 'robôs' da CIA representam o fascínio de matar adversários por controle remoto

Maureen Dowd Publicado em 23.04.2013

Durante o inverno, ouvi comandantes militares e funcionários da Casa Branca murmurarem em voz baixa sobre como eles teriam que criar uma estrutura jurídica e moral para os robôs assassinos voadores que executam alvos ao redor do mundo.

Eles estavam começando a perceber que, embora o público americano aprove o assassinato remoto de terroristas, trata-se de um buraco na alma da democracia destruir pessoas sem nenhum processo devido e pouca preocupação com a perda de inocentes.
Mas eles nunca chegaram a isso, deixando para Rand Paul assumir uma postura mais moral.
Depois de duas guerras sangrentas, intermináveis e onerosas no Afeganistão e no Iraque, a ideia de uma arma de guerra que evitava que qualquer um tivesse que de fato ir à guerra era muito cativante.
Nosso sofisticado, elegante, inteligente, e desapegado presidente foi enfeitiçado por nossa sofisticada, elegante, inteligente e desapegada máquina de guerra.
Em uma entrevista com Jon Stewart no ano passado, o presidente Barack Obama admitiu que estava sob o domínio de uma paixão poderosa.
"Uma das coisas que temos de fazer é criar uma estrutura legal", disse ele, "e precisamos da ajuda do Congresso para fazer isso e garantir que não só eu seja freado, mas também qualquer presidente o seja."
O programa secreto de aviões teleguiados dos Estados Unidos, que continuamente rebaixa as exigências para ações letais, transforma o presidente, o diretor da CIA e os conselheiros de contraterrorismo numa câmara de astros que controla a guerra longe das zonas de guerra e que utiliza um bisturi em vez de um martelo, como diz o novo diretor de Langley, John Brennan.
Mas, como Mark Mazzetti do Times observa em seu novo livro, "The Way of the Knife", "a analogia sugere que este novo tipo de guerra não é isenta de custos ou equívocos – uma cirurgia sem complicações. Não é o caso."
Mazzetti levanta a questão de saber se a CIA – que já vendeu camisas de golfe com logos do Predator em sua loja de presentes – ficou "tão apaixonada por seus aviões assassinos que deixou de fazer com que seus analistas façam uma pergunta fundamental: até que ponto os ataques teleguiados podem estar criando mais terroristas do que matando?"
Que Mazzetti escreve que Sir Richard Dearlove, o chefe do M16, o Serviço Secreto de Inteligência Britânico, assistiu a um dos primeiros ataques aéreos via satélite em Langley algumas semanas depois do 11 de Setembro. Quando viu um caminhão Mitsubishi no Afeganistão explodir, Dearlove sorriu secamente.
"Isso quase não é justo, não é mesmo?", perguntou o inglês.
Às vésperas da guerra no Iraque, Donald Rumsfeld e seu círculo íntimo ficaram desgostosos com o fato de a CIA ter descartado suas alegações espúrias de uma ligação entre Saddam e Al Qaida, então criaram sua própria CIA no Pentágono. Soldados se tornaram espiões.
Enquanto isso, a CIA estava criando seu próprio Pentágono em Langley, executando a operação paramilitar de aviões teleguiados, em constante expansão. Espiões se tornaram soldados.
Mazzetti escreve que depois de 11 de Setembro, o diretor da CIA se transformou em "um comandante militar executando uma guerra clandestina e global com uma equipe mínima e pouquíssima supervisão".
Por que a CIA, como perguntou o general James Cartwright quando era vice-presidente do Joint Chiefs of Staff, precisava construir "uma segunda Força Aérea?"
Leon Panetta militarizou ainda mais a CIA e depois fui para o Pentágono. Quando um verdadeiro comandante militar, David Petraeus, tornou-se o espião-chefe em 2011, abraçou o programa de teleguiados, esforçou-se para expandir a frota e conduziu o primeiro assassinato teleguiado de um cidadão norte-americano.
"A agência de espionagem que em 11 de Setembro de 2001 havia sido denunciada como incompetente e avessa ao risco, sob o olhar atento de quatro diretores sucessivos da CIA, havia iniciado uma matança", escreve Mazzetti.
A CIA tem agora uma base de teleguiados na Arábia Saudita, e tanto o Pentágono quanto a agência de espionagem estão realizando guerras paralelas de teleguiados no Iêmen, cada um lutando por recursos.
E o Pentágono continua sua incursão na espionagem humana. Como W. George Jameson, um advogado que passou 33 anos na CIA, lamentou: "tudo está ao contrário. Há uma agência de inteligência fazendo guerra e uma organização militar tentando reunir informações de inteligência."
Mazzetti observa que a CIA, que brincou de pega-pega durante a maior parte da Primavera Árabe, virou uma esquina perigosa, onde uma nova geração em Langley prefere "a adrenalina de estar na linha de frente", caçando e matando, ao trabalho mais paciente, tedioso, "suave" de reunir informações e fazer espionagem. Depender de espiões estrangeiros para obter informações de contraterrorismo pode cegá-lo para o que realmente está acontecendo no local.
Ross Newland, um oficial clandestino de carreira, disse a Mazzetti que o fascínio de matar pessoas por controle remoto é "tentador" e que a agência deveria ter desistido do Predators e Reapers há muito tempo. Os robôs da morte transformaram a CIA na vilã em lugares como o Paquistão, disse Newland, onde a missão da agência é supostamente nutrir relações para conseguir informações de inteligência.
Obama, que continuou com quase todos os programas secretos passados por W., claramente se sente forte quando fala sobre assassinatos com alvo definido e considera os teleguiados como uma opção atraente.
Como diz Mazzetti, "questões fundamentais sobre quem pode ser morto, onde se pode matar e quando se pode matar" ainda não foram respondidas ou discutidas publicamente.
Isso quase não é justo, não é mesmo?

Publicado no The New York Times
Tradutor: Eloise De Vylder para o UOL