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Estado de bem-estar social é sustentado por quem vive do salário

Raquel Varela Publicado em 22.04.2013

Não foram os benefícios à população que criaram a impagável dívida pública portuguesa

Nas últimas semanas fortaleceu-se um discurso, que vem de longe, sobre a impossibilidade de os portugueses arcarem com o Estado de bem-estar social. O aumento da dívida pública é associado à impossibilidade de sustentar os gastos sociais do Estado. Primeiro-ministro, demais ministro, comentaristas da grande imprensa assumem esta premissa como verdadeira, com escasso espaço para o contraditório. Mas ela é falsa. Quem vive do salário em Portugal (e não de lucro, renda ou juros) paga todos os seus gastos sociais.

O argumento do peso “excessivo” do Estado-providência deve ser rebatido com fatos.

Em um estudo que publicamos (“Quem Paga o Estado Social em Portugal?”, Editora Bertrand, 2012) calculamos quanto quem trabalha e vive do salário entrega ao Estado em contribuições e impostos (diretos e indiretos) e quanto recebe deste em serviços públicos prestados (saúde, educação, segurança social, transportes, esportes, espaços públicos, cultura). Chegamos à conclusão de que os déficits do Estado não podem ser imputados aos gastos sociais e, na maioria dos anos, há mesmo um excedente, isto é, os trabalhadores entregam mais ao Estado do que recebem dele em gastos sociais.

Não nos surpreenderam os resultados, estando Portugal neste campo a par de outros países da OCDE, onde foram já realizados estudos semelhantes, como o do economista norte-americano Anwar Shaikh, que traduzimos no referido livro.

Acrescenta-se nas nossas conclusões que, em Portugal, o rendimento dos trabalhadores correspondia já em 2010 e 2011 a cerca de 50% do PIB (incluindo os pagamentos para a Segurança Social, tanto dos trabalhadores como a TSU [Taxa Social Única], e antes de impostos); mas cerca de 75% da tributação entregue ao Estado provinha desses mesmos trabalhadores.

Um governo de um país não tem legitimidade para apresentar uma dívida, uma fatura para pagar, sem explicar porque a contraiu, como a contraiu e em benefício de quem. Mas não é indispensável auditar a dívida para concluir que quem trabalha em Portugal não deve.

O montante da dívida gera uma renda sempre crescente na forma de juros – estando acordado no plano com a Troika o constant crescimento da dívida portuguesa a pagar: 2007 (68,3% do PIB), 2011 (107,8% do PIB), 2013 (117,1% do PIB), previsão do governo ( ). Este grande aumento da dívida é acompanhado por um gigantesco aumento da massa de juros. Na sua aparência trata-se de uma dívida – que apela à honestidade dos trabalhadores para pagarem –, mas na sua essência é uma renda fixa de capital.

O Orçamento do Estado para 2013 (OE-2013) explica porque aumentou a produtividade (aumentou porque a queda do PIB foi acompanhada de uma queda maior no emprego) e diminuiu o custo unitário do trabalho (CUT) . Mas não explica porquê mesmo assim a dívida cresce cada vez mais.

Nós avançamos uma explicação que ainda ninguém rebateu: a dívida cresce porque os trabalhadores pagam cada vez mais para o Estado social e esse valor é desviado das funções sociais do Estado para o pagamento de “rendas privadas”, entre elas os casos óbvios das parcerias público-privadas, do BPN, das subcontratações externas nos hospitais-empresa.
Uma das conclusões que apresentamos é a de que, desde que se iniciam os hospitais-empresa, o custo com salários baixa (de 2,4% do PIB em 1995 para 0,9% em 2010), a contração de serviços externos aumenta (no mesmo período passa de 2% do PIB para mais de 5%) e o custo final do serviço prestado ao utente aumenta (mais que o aumento dos gastos totais em cerca de 0,5% do PIB).

Ou seja, a produtividade cai, com um custo acrescido para os contribuintes. A “refundação do Estado social” proposta pelo governo não parece ser mais do que pegar nestes exemplos infelizes e generalizá-los.

Menos óbvio, mas essencial para explicar os gastos sociais foi o uso do dinheiro da Segurança Social (resultado da poupança dos trabalhadores) para financiar a reestruturação das empresas privadas e privatizadas, impelindo os trabalhadores para a reforma antecipada. Ainda menos perceptível é a forma como o governo, em nome do equilíbrio das contas públicas, opta por uma política de queda da produção e de aumento do desemprego, de forma a reforçar os ganhos dos setores exportadores (e abrindo um conflito nacional com as empresas que vivem do consumo interno), financiando essa política de desemprego massivo com os recursos da Segurança Social. O desemprego não é uma inevitabilidade, mas sim uma política consciente deste governo e estipulada no Memorando de Entendimento com a Troika. No OE 2013 prevê-se um aumento do desemprego até 16,4% (pp. 24 e 25 do Relatório OE 2013).

O dogma neoliberal é um dogma porque assume a economia como uma ciência a –hlistórica, ou seja, o homem não seria artífice da sua história, não faria escolhas na forma como a sociedade produz e se reproduz, ou seja, não escolheria as suas relações de trabalho, mas estaria fadado a aceitar a produção para o lucro, o desemprego, as dívidas “públicas” como se de inexoráveis leis da gravidade se tratassem.

Na verdade, a primeira questão que nos devemos colocar hoje, em Portugal, é a seguinte: somos um país que produz uma riqueza anual em torno de 170 bilhões de euros, podendo esse valor ser bem maior caso toda a mão-de-obra desempregada fosse utilizada, e não temos riqueza para pagar as necessidades mais básicas de qualquer sociedade? Se a riqueza de uma sociedade que tem um dos salários mais baixos da Europa e mais longas jornadas de trabalho, de acordo com a OCDE, não vai para a saúde, educação, auxílio mútuo e bem-estar na reforma, vai para onde?

Raquel Varela, historiadora, e coordenadora do livro “Quem Paga o Estado Social em Portugal?”