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Uma estrela (iraniana) ascendente

MK Bhadrakumar Publicado em 01.04.2013

Absolutamente todos sabem que Velayati manifesta e representa os interesses mais radicalmente fundamentais do regime iraniano. Mas é pragmático, dos que sabem que a política é a arte do possível.

The best laid schemes o'mice an'men / Os melhores planos que ratos e homens façam,

Gay aft a-gley/Alegres depois do trabalho,
An'lea'e us nought but grief an'pain/Só trazem luto e dor
For promised pay/pelo que um prometeu ao outro, mas não cumpriu.

[Robert Burns, “To a Mouse”/Para um rato]*


Há exatamente um mês, quando escrevi[1] que um candidato a ser observado nas eleições presidenciais do Irã de 12/6 próximo seria Ali Akbar Velayati, ex-ministro de Relações Exteriores, foi um tiro no escuro, mas também opinião cevada na observação atenta dos corredores da política bizantina em Teerã e em Qom, nos últimos meses.

Bloomberg Businessweek acaba de chegar à mesma conclusão.[2] BB evidentemente serve-se de fontes de alto nível em Washington e em Teerã, para instruir seus artigos, e a minha única fonte é pura, incansável paixão por observar o Irã, alimentada por velha paixão por aquele país e seu belo povo.

De fato, é também minha opinião desejante, enviesada, indiano-cêntrica. Estive várias vezes na mesma sala com Velayati em Teerã e em Delhi, quando ele ali esteve como ministro; e não tenho dúvidas de que sua ascensão ao poder como presidente do Irã será magnífica novidade para a Índia – desde que, é claro, Delhi procure genuinamente reconstruir seus laços estratégicos com o Irã.

Velayati teve papel chave no movimento ascendente da curva das relações entre Índia e Irã, nos dez anos a partir do fim dos anos 1980s (quando o então primeiro-ministro da Índia fez movimento dramático de aproximação com Teerã).

O entendimento estratégico deu excelentes frutos, quando Teerã ajudou a Índia a conter a tempestade nos países muçulmanos, depois da destruição de Babri Masjid (1992), e a liderança iraniana mostrou incansável compreensão na questão das atrocidades então em curso nas regiões da Caxemira, no início dos anos 1990s.

Depois, o Irã ajudou a Índia a conter a detonação diplomática, relacionada ao problema da Caxemira, que os sauditas promoviam na Organização de Cooperação Islâmica, com o Irã, de fato, já organizando a resistência anti-Talibã conhecida como Aliança do Norte (1997)[3].

Eram tempos em que nenhum indiano se atreveria a subestimar o Irã como fator de estabilidade, com certeza no que tivesse a ver com interesses centrais da Índia. Boa parte de tudo isso aconteceu sob a orientação de Velayati. Tinha visão clara sobre as relações Irã-Índia e via essas relações como crucialmente importantes para o Irã.

Lembro perfeitamente a conversa, em Hyderabad House, no final de 1989, quando Velayati falou pela primeira vez da ideia do corredor Norte-Sul, como acesso da Índia à rota para a Rússia e a Ásia Central – de fato, delineou ali as potencialidades do projeto de um óleogasoduto Irã-Paquistão-Índia (IPI).

É homem cordial, erudito, tem nervos de aço[4] e cabeça de negociador incansável. E é muito bem-humorado, capaz de fechar com risadas um dia de negociações duríssimas – talentos que muito ajudarão o Irã a acalmar as águas do Estreito de Ormuz.

Absolutamente todos sabem que Velayati manifesta e representa os interesses mais radicalmente fundamentais do regime iraniano. Mas é pragmático, dos que sabem que a política é a arte do possível.

Tudo isso volta a ser extraordinariamente importante, porque o próximo presidente do Irã tem papel decisivo na modelagem do ‘Novo Oriente Médio’ e da segurança regional e internacional.

E se e quando as conversações se iniciarem entre EUA e Irã, como provavelmente começarão depois de passadas as eleições de junho no Irã, Velayati é o homem mais qualificado para melhor negociar pelo Irã: goza da confiança do Supremo Líder Ali Khamenei; tem ampla e clara compreensão da política mundial e de como opera o sistema internacional; e fala perfeito inglês (embora com sotaque norte-americano). É garantia de conversa iluminadora, caso o presidente dos EUA Barack Obama algum dia apareça para conversar com ele sobre guerra e paz no Oriente Médio – e depois resolva continuar o papo numa mesa menos formal, para falarem de ratos e homens.[5]

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NOTAS

* Em inglês, na íntegra, em Poesia Escocesa, em http://www.visitrannoch.com/burns-poems.htm [epígrafe acrescentada pelos tradutores]

[1] 5/2/2013, “A rising star in Iranian politics” [Uma estrela ascendente na política iraniana] em http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2013/02/05/a-rising-star-in-irans-politics/

[2] 26/3/2013, Business Week, em http://www.businessweek.com/news/2013-03-26/velayati-may-run-for-iran-president-as-calm-to-ahmadinejad-storm

[3] Aliança Afegã do Norte, oficialmente, Frente Islâmica Unida para Salvação do Afeganistão (em persa Jabha-yi Muttahid-i Islami-yi Milli bara-yi Nijat-i Afghanistan), foi frente militar formada no final de 1996, depois que os Talibã (Emirado Islâmico do Afeganistão) tomaram Cabul. A Aliança do Norte foi proposta por afegãos e lutou guerra de defesa contra o governo dos Talibã – com apoio de Rússia, Irã, Índia, Tadjiquistão e outros; os Talibã era apoiados pela al-Qaeda e pelo exército do Paquistão. Depois que os EUA invadiram o Afeganistão e lá implantaram o governo Karzai, no final de 2001, a Aliança do Norte dividiu-se, dando origem a vários partidos políticos [NTs, com informações de http://en.wikipedia.org/wiki/Northern_Alliance].
[4] “Ali Akbar Velayati discursava na ONU, como ministro de Relações Exteriores do Irã, quando um dissidente saltou sobre ele, arrancou-lhe das mãos o discurso que lia e rasgou-o. Um segurança tirou o homem da sala. Velayati esperou calmamente, de mãos no bolso. ‘Alguém, da nossa delegação tinha cópia do texto e me entregou” – conta Velayati, recordando o episódio do início dos anos 1980s, em entrevista para a televisão iraniana. – “Achei a página 10, onde lembrava que havia parado, e continuei a ler” (26/3/2013, Business Week, em http://www.businessweek.com/news/2013-03-26/velayati-may-run-for-iran-president-as-calm-to-ahmadinejad-storm) [NTs].

[5] Orig. of mice and men. A expressão, do verso de Burns que se lê na epígrafe, dá título também a um romance de John Steinbeck, de 1937, cujo enredo também é relevante para compreender a metáfora que se lê aqui. Sobre o romance, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Ratos_e_Homens [NTs].

Publicado em 27/3/2013, Indian Punchline
http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2013/03/27/catch-a-rising-iranian-star/

Traduzido pelo coletivo Vila Vudu