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O trauma da ilha do tesouro

Paul Krugman Publicado em 27.03.2013

É incrivel que os refúgios fiscais como Chipre e ilhas Caimã continuem funcionando mais ou menos como antes da crise financeira mundial. Todo o mundo viu o dano que os banqueiros fora de controle podem infligir.

Há alguns anos, o jornalista Nicholas Shaxson publicou um livro fascinante e desanimador chamado treasure Islands (Ilhas do tesouro), no qual explicava a maneira como os paraísos fiscais internacionais — que também são como o autor afirmava “jurisdições com segredo bancário” nas quais muitas regras não se aplicam — debilitam as economias em todo o mundo. Não só escamoteiam os ingressos aos Governos escassos de dinheiro e facilitam a corrupção, mas também distorcem o movimento de capital, o que contribui para alimentar crises financeiras cada vez maiores.

Entretanto, uma questão na qual Shaxson não aprofunda muito, é o que acontece quando uma jurisdição com segredo bancário quebra. Esta é a história do Chipre atualmente. Independentemente de qual seja o desenlace para o próprio Chipre (pista: seguramente não vai ser feliz), a confusão do Chipre mostra até que ponto continua sem ser reformado o sistema bancário mundial, quase cinco anos depois de começada a crise financeira mundial.

Em relação ao Chipre: pode ser que perguntem por que importaria a alguém um pequeno país com uma economia não muito maior que a do Scranton metropolitano, na Pensilvânia. Entretanto, o Chipre é um membro da eurozona, de modo que os acontecimentos que ali tem lugar podem provocar o contágio (por exemplo, pânicos bancários) em países maiores. E tem mais: ainda que a economia cipriota seja minúscula, o Chipre é um ator financeiro surpreendentemente importante, com um setor bancário quatro ou cinco vezes maior do que se poderia esperar levando em conta o tamanho de sua economia.

Por que os bancos cipriotas são tão grandes? Porque o país é um paraíso fiscal no qual as corporações e os estrangeiros abastados botam seu dinheiro em lugar seguro. Oficialmente, 37% dos depósitos nos bancos cipriotas procedem de não residentes; a cifra verdadeira, contabilizando os expatriados ricos e as pessoas que são residentes no Chipre só de nome, seguramente é muito mais elevada. Basicamente, o Chipre é um lugar no qual as pessoas - sobretudo, mas não só, os russos — ocultam sua riqueza tanto dos arrecadadores de impostos como dos reguladores. Independentemente do verniz que queiramos dar-lhe, é basicamente uma questão de lavagem de dinheiro.

Os ricos e os paraísos fiscais
A verdade é que grande parte da riqueza nunca se mexeu; só se tornou invisível. No papel, por exemplo, o Chipre se converteu em um enorme investidor na Rússia, superior à Alemanha, cuja economia é muito maior que a sua. Naturalmente, na realidade isso não era mais que “viagens de ida e volta” para os russos que utilizavam a ilha como refúgio fiscal.

Desgraçadamente para os cipriotas, entrou suficiente dinheiro de verdade para financiar alguns investimentos realmente ruins, uma vez que seus bancos adquiriram dívida grega e concederam empréstimos para uma imensa bolha imobiliária. Antes ou depois, as coisas estavam ameaçadas de saírem mal. E assim foi.

E agora o quê? Existe um forte paralelismo entre a situação no Chipre atualmente e a da Islândia (uma economia de tamanho similar) há alguns anos. Como o Chipre agora, a Islândia tinha um setor bancário enorme, inflado pelos depósitos estrangeiros, que era simplesmente muito grande para ser resgatado. A resposta da Islândia foi basicamente deixar que quebrassem os bancos e aniquilar estes investidores estrangeiros, ao mesmo tempo em que se protegiam os depositantes nacionais; e os resultados não foram tão ruins. De fato, a Islândia, com uma taxa de desemprego bastante inferior a da maior parte de Europa, driblou a crise surpreendentemente bem.

Infelizmente, a resposta do Chipre à sua crise foi um desastre absoluto. Isto reflete, em parte, o fato de que já não tem sua própria divisa, o que lhe faz depender dos responsáveis de tomar as decisões em Bruxelas e em Berlim, os quais não estiveram dispostos a deixar que os bancos quebrem abertamente.

Mas também reflete a pouca vontade do próprio Chipre para aceitar o final de seu negócio de lavagem de dinheiro; seus líderes ainda estão tratando de limitar as perdas para os depositantes estrangeiros com a vã esperança de que possam retomar a normalidade, e estavam tão ansiosos por proteger as grandes fortunas que tentaram limitar as perdas dos estrangeiros expropriando os pequenos depositantes nacionais. No final, entretanto, as pessoas comuns manifestaram sua indignação, o plano foi rejeitado e, a estas alturas, ninguém sabe o que acontecerá.

Eu acredito que no fim o Chipre adotará uma solução parecida à islandesa. Mas, a menos que termine se vendo obrigado a abandonar o euro nos próximos dias — uma possibilidade real — é possível que primeiro perca muito tempo e dinheiro em soluções provisórias para evitar enfrentar a realidade ao tempo que incorre em dívidas enormes com países mais ricos. Logo veremos.

Mas detenhamo-nos um minuto para pensar no incrível fato de que os refúgios fiscais como o Chipre, as ilhas Caimã e muitos mais continuem funcionando mais ou menos como antes da crise financeira mundial. Todo o mundo viu o dano que os banqueiros fora de controle podem infligir, mas mesmo assim, grande parte do negócio financeiro mundial continua sendo canalizado através de jurisdições que permitem aos banqueiros esquivar até as normativas mais suaves que estabelecemos. Todo o mundo se lamenta pelos déficits orçamentários, mas apesar disso, as sociedades anônimas e os ricos continuam utilizando livremente os paraísos fiscais para evitar o pagamento de impostos como as pessoas comuns.

Portanto, não chorem pelo Chipre; chorem por todos nós, que vivemos em um mundo cujos líderes parecem decididos a não aprender com os desastres.

*Paul Krugman é professor de Economia de Princeton e prêmio Nobel de 2008

Tradução: Liborio Júnior

Publicado na agência Carta Maior