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Organizar a guerra cambial

Antonio Delfim Netto Publicado em 26.02.2013

Há mais de dois anos, quando o ministro Guido Mantega falou em guerra cambial, seus críticos mais ferozes diziam que tratava-se de um ente metafísico inventado pela retórica extravagante de uma autoridade monetária do mundo subdesenvolvido para justificar políticas heterodoxas.

Cannes (França) - A presidenta Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, conversam com o presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Mbasogo, durante sessão de trabalho na Cúpula de Líderes do G20 Foto: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República

A confusão na reunião dos G-20 a respeito da guerra cambial tem um significado importante para o Brasil. Todos lembram que há mais de dois anos, quando o ministro Guido Mantega falou no assunto, foi objeto de jocosas observações internas e externas. Segundo seus críticos mais ferozes, tratava-se de um ente metafísico inventado pela retórica extravagante de uma autoridade monetária do mundo subdesenvolvido para justificar políticas heterodoxas.
A resposta inicial do G-20 à ideia que existe um bem disfarçado processo de desvalorização competitiva, que inclui os Estados Unidos, a Comunidade Econômica Europeia, a China e outros países, para protegerem o seu crescimento, foi esta joia de cinismo:
"Reiteramos nosso compromisso de agir rapidamente na direção de um sistema de taxas cambiais flexíveis determinadas pelo mercado, que reflitam os seus fundamentais, evitem desalinhamentos persistentes e não estimulem uma desvalorização competitiva entre as moedas".
Uma proposição firmada sobre a ilusão que o sistema econômico se auto-organiza pelo funcionamento do sistema de preços. Essa, sim, é uma proposição metafísica, que, positivamente, não tem nada a ver com a experiência histórica do mundo em que vivemos. Foi repetida, aliás, na recente reunião do G-7:
"Reafirmamos que nossas políticas fiscal e monetária têm sido, e continuarão a ser, orientadas no sentido de cumprir nossos respectivos objetivos nacionais com instrumentos domésticos, e que não terão como alvo as taxa de câmbio".
Todos os países com políticas autônomas têm um olho no câmbio
Sutil afirmação diplomática para reconhecer o óbvio. As taxas de câmbio não são o alvo: são meras consequências "não intencionais" do uso dos instrumentos domésticos! Afirmação aprovada pelo FMI, que esqueceu seu objetivo fundamental: controlar os desequilíbrios externos. O auge do cinismo foi aceitar a desvalorização japonesa. Aliás, Taro Aso, ministro de Finanças do Japão, afirmou: "De acordo com algumas opiniões, nossas medidas contra a desaceleração econômica provocada pela deflação visam alterar nossa taxa de câmbio, o que não é verdade".
Mas, afinal, quem disse na recente campanha eleitoral que esse era o objetivo para elevar as exportações e o crescimento econômico do Japão? Quem pressionou o banco central japonês para elevar a meta inflacionária e desvalorizar o iene? As "tais opiniões", às quais se referiu o ilustre sr. Aso, resumem-se a uma só: a do seu não menos ilustre primeiro-ministro Shinzo Abe!
A resposta mais debochada ao problema foi a da vice-secretária do Tesouro dos EUA, Lael Brainard, que afirmou, sem rebuços, sem corar e sem nenhuma elegância - típica do arrogante sentimento americano celebrizado no famoso aforismo "o dólar é nossa moeda, mas é seu problema" -, que a reclamação dos países emergentes é "pura conversa fiada".
A posição do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que protestou nos corredores contra a valorização do euro na última reunião do BCE, foi ambígua e de solidariedade aos grandes parceiros. Afirmou que a discussão sobre a guerra cambial era "inapropriada, infrutífera e autodestrutiva".
Entretanto, em longa entrevista, no dia 10 de janeiro em Frankfurt am Main, Draghi foi mais honesto: "Nunca comento sobre taxa de câmbio, mas ela é, certamente, um importante elemento no que concerne ao crescimento econômico (sic) e à estabilidade dos preços, e é uma das variáveis que levamos em conta na avaliação da situação, ainda que ela não seja um objetivo da política econômica".
A conclusão é que esse cinismo generalizado esconde o fato de que todos os países, que ainda têm políticas econômicas internas autônomas, têm um olho na taxa de câmbio. Quem não tem mais, como é o caso da França, apenas pode lamentar-se, como fez o presidente François Hollande.
Os países emergentes descuidados de sua moeda (como o Brasil foi até recentemente) estão permitindo a valorização do seu câmbio e apresentando retornos espetaculares em suas bolsas de valores, o que atrai capital de curto prazo. Esse movimento bursátil, que valoriza as bolsas, pode até estimular, por algum tempo, um pequeno aumento do investimento interno (efeito Tobin).
A solidariedade da China com as decisões do G-20 é consequência de que ela está na origem do desequilíbrio cambial mundial e tem toda a conveniência de apoiar os EUA e a Comunidade Econômica Europeia, seus principais parceiros. Ademais, já começou a entender o movimento estratégico dos grandes acordos estimulados pelos EUA: o do Atlântico e do Pacífico, destinados a "colocá-la no seu lugar" nos próximos dez anos...
De qualquer forma, o G-20 não chegou à unanimidade em Moscou. Os poderosos "desvalorizadores dissimulados", supostamente apoiados em irrelevante teoria econômica, não conseguiram convencer os emergentes a se comprometerem a não intervir na sua taxa cambial. É claro que desvalorizações competitivas aumentam as incertezas e prejudicam o comércio mundial. Mas não é isso que o Brasil propõe. O que o ministro Guido sugere é organizar a "guerra mundial", para repartir mais equanimemente os seus custos.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

Publicado no jornal Valor Econômico de 26/02/2013