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Câmbio, o "interruptor de luz"

Luiz Carlos Bresser-Pereira Publicado em 13.08.2012

Foi um prazer ler a entrevista de Dani Rodrik no "Valor" (23.jun) na qual ele viu perspectivas otimistas para o Brasil desde que a política do governo de reduzir a taxa de juros e depreciar a taxa de câmbio seja bem-sucedida.

 

Ou seja, desde que se logre "um ambiente em que serão mantidos os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores comercializáveis internacionalmente".

O economista turco de Harvard adota, assim, a tese fundamental do novo desenvolvimentismo, segundo a qual a armadilha que vem impedindo um crescimento sustentado do Brasil a uma taxa de pelo menos 5% ao ano é a armadilha da taxa de juros alta e da taxa de câmbio cronicamente sobrevalorizada.

Mas, perguntam meus leitores, por que uma taxa de câmbio no equilíbrio -uma taxa de câmbio que torna competitivas indústrias manufatureiras que adotam tecnologia no estado da arte mundial- é tão importante? Afinal, nos livros-texto de desenvolvimento econômico não se fala em taxa de câmbio.

A resposta para essa pergunta se divide em duas partes: primeiro, porque a taxa de câmbio é uma espécie de "interruptor de luz" que, quando se aprecia, desliga as empresas nacionais competentes tecnológica e administrativamente de todo o mercado mundial, ao mesmo tempo que liga empresas estrangeiras possivelmente menos competentes no nosso mercado interno.

Segundo, porque, se ela for deixada por conta do mercado, essa taxa tende a ser cíclica e apreciada nos países em desenvolvimento.

A metáfora do interruptor de luz nos ajuda a compreender uma das causas da queda da taxa de crescimento do país.

Durante o governo Lula o câmbio não parou de se apreciar, mas foi compensado pelo aumento do mercado interno que a bem-vinda política distributiva proporcionou para as empresas industriais. Mas o interruptor de luz conectou as empresas estrangeiras no nosso mercado interno. De forma que, com uma defasagem de três anos (o tempo para os importadores se organizarem), o mercado interno foi tomado por elas, e a desindustrialização agravou-se.

A presidente Dilma Rousseff vem trabalhando com firmeza para resolver esse problema. E já logrou trazer a taxa de câmbio de R$ 1,65 para R$ 2,03 por dólar; logrou, portanto, depreciar em 25% a taxa de câmbio; e sem aumentar a inflação, porque o Banco Central aproveitou da fraqueza da demanda interna.

Mas o dólar parou nesse nível já há quase dois meses, e está ainda muito longe do "equilíbrio industrial" -da taxa de câmbio que torna competitivas internacionalmente as empresas nacionais.

Para lograr uma depreciação maior e uma taxa de câmbio estável, será necessário continuar a baixar os juros e taxar as exportações de commodities.

Para isso é necessário que a presidente seja apoiada por um debate nacional no qual fique claro que os exportadores de commodities não perderão porque serão compensados pela elevação do câmbio.

Nas democracias só um debate dessa natureza pode resolver este problema econômico que o Brasil enfrenta -o de ligar as empresas nacionais competentes na demanda mundial.

 

Fonte: Folha de S.Paulo