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Uma vitória espetacular dos pobres na reunião da UNCTAD

J. Carlos de Assis Publicado em 12.05.2012

A reunião da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, realizada em Doha, terminou com uma vitória sem precedentes dos países em desenvolvimento. Uma coalizão histórica entre os países emergentes (BRICS) e o Grupo dos 77 (mais de cem países em desenvolvimento) fulminou com as manobras dos países ricos destinadas a esvaziar o papel da UNCTAD.

 

A reunião da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) em Doha terminou na semana passada com uma vitória sem precedentes dos países em desenvolvimento e, mais do que deles, da grande maioria dos povos do mundo. Uma coalizão histórica entre os países emergentes (BRICS) e o Grupo dos 77 (mais de cem países em desenvolvimento) fulminou com as manobras dos países ricos destinadas a impedir que a UNCTAD continuasse a produzir, entre outras coisas, estudos críticos relacionando a crise mundial com a globalização e a liberalização financeira, e o livre movimento de capitais.

Os beneficiados não são países, mas povos – inclusive os povos dos países ricos. A UNCTAD é uma das poucas vozes internacionais que se colocou bravamente contra as políticas econômicas ditas de austeridade, cujo único resultado, sobretudo na Europa, tem sido o de aprofundar ainda mais desemprego e a própria crise fiscal que busca controlar. Nisso, bate de frente com o FMI, o Banco Mundial, a OCDE (Organização Europeia de Cooperação e Desenvolvimento), a Comissão Europeia etc. É um espaço para um debate econômico aberto, sob os auspícios da ONU, mostrando que há alternativas à repressão fiscal.

A diplomacia dos países ricos vinha manobrando há semanas e meses para eliminar qualquer possibilidade de a UNCTAD atuar com eficácia na formulação de linhas políticas para os países em desenvolvimento em face da crise mundial. A conferência em Doha foi tensa, pois os ricos não abriam mão de tirar do comunicado final os temas que realmente interessavam, isto é, os financeiros. Entretanto, com seu toque tradicional de arrogância e audácia, foram mais longe do que permitiam as circunstâncias políticas. Tiveram que recuar. Favorecendo o recuo, emergiu um decisivo agente coletivo novo: os BRICS.

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul colocaram a disposição do Grupo dos 77 seus recursos diplomáticos, promovendo as contra-manobras que possibilitaram, por fim, a salvação da UNCTAD como agência efetiva de desenvolvimento e de orientação econômica alternativa ao FMI e Banco Mundial. Foi a primeira vez que mostraram sua força coletiva num foro mundial. As Organizações Não Governamentais também tiveram um papel de extrema relevância atuando junto às delegações dos países ricos para forçá-las a um acordo aceitável. Jamais vi isso antes: um paradigma histórico está sendo superado!

Qual será o novo paradigma? A certa altura da Conferência o embaixador suíço anunciou que os termos básicos propostos pelos países em desenvolvimento seriam aceitos, porém com a condição de que fosse retirada qualquer menção de respaldo a Cuba ou à Palestina. Diante da perplexidade geral, o embaixador palestino tomou a palavra e anunciou que acabara de firmar um acordo diretamente com o embaixador israelense, pondo fim, em 15 minutos, a meses de negociação com os países ricos na Suíça; o embaixador de Cuba, por sua vez, informou ao plenário que havia feito um acordo diretamente com os americanos. Nada mais impediria o acordo geral.

O novo paradigma está à vista. Em 2008, escrevi um livro, “A Crise da Globalização”, no qual sustentei que a civilização estava sendo objetivamente, não idealmente empurrada para a cooperação em pelo menos quatro campos: a economia, o meio ambiente, a geopolítica e a genética. Se consultarmos a história, a mudança básica de paradigma ocorre no campo geopolítico. É que a história do mundo é a história de guerras. O próprio avanço da civilização muito deveu às guerras. Agora, contudo, num mundo nuclearizado – foquemos apenas nos Estados Unidos, Rússia e China -, simplesmente não é possível fazer guerras globais. Seria o desaparecimento da espécie.

O impasse nuclear leva à necessidade de cooperação, já que, sem ela, a insegurança global aumenta. Daí a AIEA, com todas as suas ambiguidades, mas daí também a cooperação que os Estados Unidos dão à Rússia, seu potencial adversário, na área nuclear. No caso da economia, está evidente que, num mundo globalizado, não é possível enfrentar a atual crise sem cooperação. Isso acontece, obviamente, no campo ambiental, assim como no campo da genética: sem acordos cooperativos entre institutos e pesquisadores numa escala mundial acabaremos vendo serem feitos monstros semi-humanos em laboratórios.

Quando levantei essa tese de uma marcha inevitável para a cooperação com meus alunos de Política Internacional e Cooperação Internacional na UEPB, notei que alguns preferiam se manter no velho paradigma da guerra como solução de crises. Argumentei que não sou propriamente um idealista, que tenho firmes convicções marxistas, mas isso não me impede de concluir que a guerra não é mais um ato racional como imaginava Clausewitz, o maior filósofo de guerra da Idade Moderna. Além disso, nas informadas democracias de cidadania ampliada do presente, dificilmente surgiria um Hitler.

A reunião da UNCTAD, de certa forma, indicou que o mundo está sendo efetivamente empurrado para a cooperação. Pode ser um pequeno passo. Mas uma viagem de mil milhas começa com o primeiro passo, diz o provérbio chinês.

P.S. É espantosa a quase nula cobertura que a imprensa “livre” brasileira deu à reunião de Doha. Não viu nela a menor importância. Comparece-se com a fanfarra que cerca as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial! Se não fosse pelos artigos esparsos do embaixador Rubens Ricúpero, ex-secretário geral da UNCTAD, pouco saberíamos do que aconteceu lá.

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Economista, professor de Economia Internacional da UEPB, autor, com Francisco Antonio Doria, de “O universo neoliberal em desencanto”, recém-lançado pela Civilização Brasileira. Esta coluna é publicada também no site Rumos do Brasil e, às terças, no jornal carioca Monitor Mercantil.

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