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A nova cruzada de Aznar

Sergio Alejandro Gómez Publicado em 02.05.2012

O ex-presidente espanhol, José María Aznar, sem se arrepender dos desmandos causados por suas políticas nas terras ibéricas, iniciou uma cruzada transatlântica para salvar a fé no neoliberalismo e arremeter contra a heresia dos governos populares da América Latina, que tomaram o caminho certo.

O catolicismo de Aznar aparece expresso no relatório "América Latina. Uma agenda de liberdade 2012" , da ultraconservadora Fundação para a Análise e os Estudos Sociais (FAES), presidida por ele e ligada ao Partido Popular (PP) espanhol, de direita.

 

Em 10 de abril passado, o antigo chefe de governo (1996-2004) apresentou o relatório na cidade de Cádis e aproveitou para macular os valores da bicentenária Constituição de 1812, ao reunir no oratório de San Felipe Neri, berço dessa Carta Magna, um grupo de contrarrevolucionários cubanos e venezuelanos, e antigas figuras de seu governo.

O ato de Cádis constitui o ponto de partida para o lançamento internacional do ultimo engendro da FAES, que retoma uma versão anterior do ano 2007, atualizada agora, ante "as mudanças que vive a América Latina".

O documento, confundindo os desejos com a realidade, tenta demonstrar o fracasso econômico dos países que defendem o chamado "socialismo do século 21", frente àqueles que abraçam o livre mercado.

Ainda, fala sobre o suposto fracasso do projeto social da Revolução cubana e a exclusão da Ilha do resto das nações latino-americanas.

Neste sentido, chama a fortalecer a posição comum da União Europeia sobre Cuba, como um instrumento de pressão, bem como a estabelecer uma aliança com os EUA, para que este país assuma um maior "compromisso com a região". A história do nosso hemisfério tem suficientes exemplos do que pode surgir desse tipo de uniões.

A FAES não menciona, logicamente, o fracasso estrepitoso das receitas neoliberais, na década de 90, nem os bilhões de dólares que foram parar às multinacionais, após as privatizações em massa dos serviços públicos e a exploração dos recursos naturais, exacerbando a miséria e as desigualdades sociais.

Também não reconhece que as elevadas taxas de crescimento econômico que os países latino-americanos mantêm em meio à pior crise econômica, desde o pós-guerra, não se devem à mão invisível do livre mercado, mas sim à regulamentação consciente dos Estados e suas instituições, muito mais fortes na atualidade do que quando seguiam às cegas os ditames do FMI.

Obvia, aliás, que os países que maiores sucessos atingiram na redução da pobreza e a desigualdade foi através de políticas sociais de redistribuição das riquezas, recuperação dos recursos naturais das mãos de companhias estrangeiras e do investimento estatal, o qual viola os mandamentos básicos do neoliberalismo.

O momento escolhido para o lançamento da operação não é casual.

Adiada durante 200 anos, a integração latino-americana tomou um renovado ímpeto, de mãos dadas com os processos populares e democráticos que a região vive hoje, a partir de diversos pontos de vista políticos.

Segundo parece, experiências como a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA), a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e a recém-criada Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), fez disparar o alarme das elites conservadoras, enriquecidas durante séculos a custa da exploração do subcontinente.

A América Latina constrói nesses espaços novas formas de integração, impensáveis há uma década, e onde Cuba assume o lugar que lhe cabe, como demonstra o clamor geral pelo cessar do bloqueio estadunidense e a reintegração da Ilha a todos os espaços de concertação regional.

Essas organizações também exigem o reclamo unânime de que o Reino Unido acabe com o reduto colonial das Ilhas Malvinas as quais, como expressou o presidente Hugo Chávez, não só são da Argentina, mas sim de todos os países latino-americanos.

Resulta difícil pensar então que o projeto da FAES responda à vocação filantrópica de Aznar. Onde estava este paladino dos direitos humanos quando a polícia espanhola atacava brutalmente os estudantes valencianos, os quais unicamente reclamavam um ensino público de qualidade? Também não o vimos junto aos milhões de espanhóis que saíram às ruas, para protestar contra uma reforma trabalhista, que deita por terra os direitos conquistados pelos trabalhadores nas últimas décadas.

Quão válida é a preocupação de Aznar pelo futuro da América Latina, quando mais da metade dos jovens de seu país, na "velha e rica" Europa, carecem de um emprego para poder viver.

É cínico que quem esteve ao comando da nação ibérica, durante quase uma década, e carrega boa parte das responsabilidades pelo que hoje está acontecendo ali, tente exportar as mesmas políticas que provocaram uma débâcle econômica e social em seu país.

Talvez a única coisa certa nas 200 páginas desse relatório seja apontar que "as luzes predominam hoje sobre as trevas na América Latina, que agora tem a oportunidade histórica para consolidar seu desenvolvimento", só que a FAES perde totalmente o foco na hora de identificar a origem de tal clareza.

Com cada nova conquista dos povos e governos latino-americanos, em prol da unidade e a integração, vão ficando atrás as trevas do passado. Esse caminho que já se iniciou e que mantém desvelado Aznar e sua camarilha, leva, inexoravelmente, à luz da justiça e da liberdade, em dívida com estas terras, há mais de dois séculos.

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Fonte: Granma