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Super-ricos: vulgares, superficiais e deprimentes

Charles Saatchi* Publicado em 10.01.2012

Ser um marchand hoje em dia é indiscutível e amplamente vulgar. É o hobby de integrantes do "eurotrash", de oligarcas e "óleogarcas" descolados, e de marchands dotados de autoestima em níveis masturbatórios.

Essas pessoas foram encontradas reunidas em seus superiates em Veneza na espetacular Bienal de Arte de 2011. Veneza já tem lugar cativo no calendário desse novo mundo das artes, em uma sequência estonteante de eventos sociais carregados de glamour, passando de uma festa cheia de luxo a outra.

As credenciais artísticas precisam estar sempre atualizadas. É importante de ser visto como uma pessoa culta, elegante e, é claro, estupendamente rica.

Será que alguma dessas pessoas de fato sente prazer em observar obras de arte? Ou elas simplesmente se comprazem em ser donas de quadros facilmente reconhecidos, criados por grandes nomes, comprados de modo ostensivo em leilões por preços de tirar o fôlego para decorar suas diversas residências – flutuantes ou não –, em uma demonstração instantânea de riqueza ímpar?

O prazer delas consiste em que seus amigos avaliem o peso de suas aquisições e fiquem estarrecidos. Não surpreende, portanto, que o sucesso dos supermarchands seja baseado no poder misterioso que a arte hoje exerce sobre os super-ricos.

Impressão refinada

Os novos colecionadores, alguns dos quais se tornaram multibilionários graças a seu tino para os negócios, são reduzidos à gratidão incoerente por seus marchands ou assessores artísticos, que podem ajudá-los a transmitir uma impressão refinada, moderna e de bom gosto, cercados por suas obras-primas irretocavelmente descoladas.

Não faz muito tempo, eu acreditava que qualquer coisa que ajudasse a ampliar o interesse pela arte contemporânea deveria ser saudada e que apenas um esnobe quereria que a arte fosse limitada a um grupo de aficionados merecedores dessa descrição. Mas mesmo um sujeito exibido, narcisista e que defende seus próprios interesses, como eu, acha repugnante esse novo mundo das artes.

No fervor dos excessos, nem sequer é considerado necessário perder tempo para olhar as obras expostas. Nos megaeventos artísticos do mundo, são apenas os quadros na parede que acabam passando despercebidos.

Não conheço muitas pessoas do mundo artístico, frequento apenas as poucas de quem gosto, e tenho muito pouco tempo para roer as unhas de ansiedade devido às críticas. Se eu parar por um instante de me comportar corretamente, revelarei meu segredinho obscuro: na realidade, não acredito que muitas pessoas do mundo das artes tenham muita sensibilidade para as artes. Acho que muitas não conseguem distinguir um artista bom de outro fraco, enquanto o artista não tiver sido validado pelas opiniões de outros.

Para os curadores profissionais, selecionar telas específicas para uma exposição é uma perspectiva que assusta, por ser uma demonstração reveladora demais da falta daquilo que nós, do ramo, chamamos de "olhar". Eles preferem exibir vídeos, além de incompreensíveis instalações pós-conceituais e painéis de fotos e textos, submetendo-os à aprovação de seus pares igualmente inseguros e míopes. Esse trabalho "conceitualizado" vem sendo regurgitado incessantemente desde os anos 1960.

Pouca curiosidade

Poucas pessoas no mundo da arte contemporânea manifestam muita curiosidade. A maioria passa seus dias falando bobagens, no lugar de tentar discernir por que um artista é mais interessante que outro ou por que um quadro funciona e outro, não. Os críticos de arte vão ver principalmente as exposições que seus editores lhes mandam cobrir; seu interesse em ver outras coisas é limitado. Os marchands raramente vão ver exposições nas galerias de outros marchands.

Já ouvi dizer que quase todas as pessoas que lotam os grandes vernissages mal olham para as obras – vão aos eventos apenas para bater papo. Não há nada de errado nisso, exceto pelo fato de que elas nunca retornam para ver a arte, mas dizem a todos que viram a mostra.

Por favor, não interprete minhas opiniões pomposas acima expressas como sendo referência à grande maioria das mostras promovidas em galerias, em que marchands expõem obras de arte que esperam que alguém queira comprar para sua casa. Esse aspecto do mundo das artes me enche de prazer, quer eu goste ou não da arte exposta.

Perguntam-me amiúde se eu compraria arte se não houvesse uma oportunidade de lucrar com isso. Eu não lucro com isso. Qualquer lucro que eu possa auferir com a venda de obras de arte é reinvestido na compra de mais obras de arte. É bom para mim, porque posso continuar a encontrar muitas obras novas para expor. É bom para aqueles do mundo da arte que veem essa abordagem como prova de minha venalidade, superficialidade e malevolência.

E é compreensível que, a cada vez que você deixa um artista feliz ao selecionar a obra dele, deixe cem pessoas ofendidas: os artistas que deixou de escolher. Alegra-me que nossas exposições tenham recebido resenhas pouco elogiosas desde a exposição inaugural, "Warhol, Judd, Twombly e Marden" (1985).

Ainda acho que o dia em que todo o mundo gostar de uma mostra será um dia negro. A mostra em questão seria uma coisa pouco inspirada, algo feito para agradar ao establishment das artes, e eu saberia que meus dias atuando com arte estariam finalmente terminados.

* Charles Saatchi é publicitário, colecionador de arte e dono da Saatchi Gallery, em Londres

Fonte: The Guardian