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A dança do câmbio

José Paulo Kupfer Publicado em 10.09.2011

Assim como quem não quer nada, o dólar, no mercado cambial brasileiro, está escalando para novos níveis de valorização, pelo menos no curto prazo. O movimento, segundo analistas, pode levar a cotação a R$ 1,70 ou mesmo R$ 1,75, ainda em outubro, conforme detalha reportagem do colega Fernando Travaglini, no “Valor” desta sexta-feira.

São três as principais explicações. A primeira é a recuperação do dólar que, apesar dos pesares, continua como o porto mais seguro do mercado monetário, ainda mais depois das decisões do governo suíço de fixar limites para a valorização do franco. As outras duas são internas: a taxação com IOF de posições em derivativos e o recente corte nas taxas de juros.

De acordo com a reportagem do “Valor”, os investidores estrangeiros estão começando a deixar as antigas posições vendidas – ou seja, apostas numa tendência de valorização do real frente o dólar – e migrando para posições compradas. O movimento ainda é bem pequeno, menos de US$ 500 milhões – nem 5% do total das posições vendidas, mas a mudança de rumo já é suficiente para chamar a atenção.

A mudança de posição estaria se dando sem redução no ritmo de ingresso de recursos externos no mercado. Até fins de agosto, ingressaram no País US$ 65 bilhões e só nos dois primeiros dias de setembro chegaram mais US$ 5,2 bilhões.

Mesmo com a continuidade da entrada de recursos externos, especialistas no mercado de câmbio acreditam numa sustentação da trajetória de desvalorização do real, ainda que sem explosões de alta. Isso ocorreria numa situação em que novos cortes nas taxas de juros sejam decididos – como, aliás, andam indicando os mercados futuros de juros.

É muito cedo para poder afirmar que aquelas posições fatalistas, segundo as quais não é possível fazer nada para evitar uma excessiva valorização do real, foram atropeladas pela realidade. Mas também já não é possível dizer que atitudes ativas de governo, na defesa de algum tipo de equilíbrio para a cotação de sua moeda, são ingenuidade ou perda de tempo.

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Fonte: O Estado de S. Paulo