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Quando a embaixada te convida para um café (ou o dia em que a embaixada saiu a apertar jornalistas)

Oscar Guisoni Publicado em 10.09.2011

Poucos dias depois, o telefone soou inclemente na redação do diário. Era “a Embaixada” (na Bolívia, naquela época, se escrevia com “E” maiúsculo e seu poder era tal que não era preciso acrescentar o nome do país para entender a mensagem). Mais precisamente: era o departamento de imprensa da “Embaixada” que me convidava cordialmente para tomar um café em um hotel central de cinco estrelas.

No dia 11 de setembro de 2001 eu me encontrava na Bolívia. Estava no país como correspondente do jornal Página/12, de Buenos Aires, e há algum tempo colaborava no suplemento dominical do jornal La Prensa, de La Paz, onde escrevia artigos investigativos e, de vez em quando, comentava a “foto da semana”. No domingo seguinte ao atentado, a editoria do suplemento, a jornalista boliviana Inga Llorenti, escolheu uma foto muito especial para comentar: nela se via um grupo de norteamericanos manifestando sua indignação com cartazes que diziam: “Por que contra nós?” “Por que nos odeiam?”.

Inga pediu-me que comentasse a foto. Então lembrei, nas breves linhas que permitia o texto, os motivos do ódio. Comecei por esse outro 11 de setembro emblemático, o do Chile em 1973; lembrei os 30 mil desaparecidos da ditadura pró-EUA na Argentina, fiz menção ao Vietnã e a Coreia, rememorei a primeira Guerra do Golfo, os massacres na Guatemala, a guerra contra a revolução na Nicarágua, as injustiças com a Palestina e as tantas invasões dos Estados Unidos na América Latina durante o século XX.

Poucos dias depois, o telefone soou inclemente na redação do diário. Era “a Embaixada” (na Bolívia, naquela época, se escrevia com “E” maiúsculo e tamanho era seu poder que não era preciso acrescentar o nome do país para entender a mensagem). Mais precisamente: era o departamento de imprensa da “Embaixada” que me convidava cordialmente para tomar um café em um hotel central de cinco estrelas. Aceitei e antes de ir comentei o encontro com o chefe de redação, Marcos Zalaya, que achou aquilo um pouco estranho: “Se eu fosse você não iria”, me disse. “Se estivesse tudo bem, te convidariam aos seus próprios escritórios. Por que em um hotel?”

Quando cheguei à reunião, meus anfitriões já estavam me esperando. Eram duas mulheres, na verdade. Uma delas, estadunidense – minha memória perdeu seu nome -, era a chefe de imprensa da delegação diplomática. A outra era sua assistente, uma desconhecida jornalista boliviana com aparência de recém formada em uma universidade privada e que jamais havia pisado o solo de uma redação. Depois das saudações de cortesia, me jogaram o morto na cara sem muito preâmbulo: “Você acredita que Bin Laden é como Che Guevara?” – disparou a chefe de imprensa, quanto segurava a taça de café com delicadeza digna de Marcel Proust.

“Perdão?” – foi a única coisa que me veio a mente, totalmente surpreso pelo inaudito da pergunta. “Se acredita que Bin Laden é como um guerrilheiro justiceiro...pergunto pelo que escreveu domingo debaixo da foto. Parece que estava justificando os ataques”. “Não senhora”, respondi, bastante indignado por toda aquela situação, “simplesmente estava respondendo a pergunta feita pelos manifestantes. Eles querem saber por que são odiados. E como tenho percebido que a imensa maioria dos estadunidenses não sabe muito bem o que ocorreu no mundo no último século, procurei lembrá-los do que ocorreu. Não estou justificando nada”.

A mulher não ficou convencida com meus argumentos e contra-atacou. “É injusto”, atirou, “saiba que estamos muito ofendidos por seu comentário”. Ia responder-lhe, mas sua lacaia boliviana se interpôs no caminho. Pegou uma pasta onde havia uma pilha de fotocópias com meus artigos dos últimos meses e sem muita diplomacia argumentou: “Sabemos que você é alguém que escreve contra os interesses da Embaixada. Critica a luta contra o narcotráfico, denuncia a incursão de forças dos EUA em território boliviano, não está de acordo com os transgênicos...”. “Isso, isso!”, acrescentou exaltada a chefe de imprensa. “Como você pode ser contra os transgênicos que vão acabar com a fome no mundo?”.

A essa altura, minha paciência tinha se esgotado. Sem acabar meu café, decidi que tinha chegado a hora de colocar um ponto final na reunião. “Com todo o respeito”, disse às mulheres enquanto me levantava da mesa, “não tenho por que aguentar que vocês questionem meu trabalho e muito menos desta maneira tão...informal. Se publiquei algo que consideram falso, tudo o que têm que fazer é entrar em contato com o diretor do jornal ou pedir direito de resposta e com prazer levarei em conta suas opiniões e a informação que me forneçam”. Dito isso, me levantei e fui embora.

No caminho me dei conta do que havia ocorrido e senti um pouco de temor. A Embaixada estava pressionando, da pior maneira, os jornalistas críticos. Entrei em contato com o direito do sindicato e comprovei que não tinha sido o único convidado a “tomar um café”. Em poucos dias, soube-se que a ordem havia partido do próprio Departamento de Estado e que tinha sido executada em vários países no decorrer daquela semana. Meu jornal não quis jogar lenha na fogueira e não publicou a história. Mas algumas publicações mais à esquerda o fizeram. Os Estados Unidos jamais se desculparam pelo atropelo. Afinal de contas, tudo não tinha passado de uma conversa com um café no saguão de um hotel elegante.


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Jornalista, correspondente na Espanha do jornal Página/12, da Argentina, do Il Manifesto, da Itália, e de El Observador Global, portal de informação internacional latinoamericano. Colaborador do suplemento dominical do jornal Milênio, do México; da revista Arcadia, Colômbia e da revista Gatopardo, México.

Fonte: Carta Maior

Tradução: Katarina Peixoto