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EUA: a força contrademocrática mais poderosa no mundo árabe

Joseph Massad Publicado em 24.05.2011

Joseph Andoni Massad (1963) é palestino nascido na Jordânia. PhD em Ciência Política (1998) e Professor Associado de Política Árabe Moderna e História do Pensamento no Departamento de Oriente Médio, Sudeste Asiático e África, na Columbia University.

Em 1960, o primeiro-ministro britânico Harold Macmillan fez importante discurso, intitulado “Wind of Change” [Vento de Mudança], primeiro em Accra e depois em Cape Town, sinalizando a descolonização britânica dos territórios africanos e alertando o regime da África do Sul, para que pusesse fim às políticas do apartheid. Em 2011, o presidente dos EUA Barack Obama fez diferente.

Embora tenha batizado o discurso de “Ventos de Mudança”, em referência aos levantes que varrem o mundo árabe, disse, bem claramente, que os tais ventos ainda não sopram em Washington DC e talvez jamais soprem. O segundo discurso do presidente Obama sobre o mundo árabe, feito dia 19 de maio, mostrou a mesma regularidade e a mesma total ausência de qualquer mudança na política dos EUA, que o primeiro, no Cairo, dia 4/6/2009. Não que tenham faltado imponência e hubris imperiais nos dois discursos, mas nem um nem outro trouxe seja substância seja novidade, para nem dizer que a verbosidade gratuita, floreada, demonstra que o controle do clima imperial em Washington não pode ser jamais “mudado”, nem, sequer, pelo vendaval dos levantes árabes.

O problema das políticas dos EUA para o mundo árabe não está só na insistência com que se ouvem sempre as mesmas ideias, na repetição crédula da propaganda norte-americana – que os norte-americanos tão facilmente aceitam, como alguns outros, em todo o mundo. O problema de fato está em que aquelas políticas insistentemente manifestam completa ignorância e nenhuma intimidade com a cultura política dos árabes e insistem em insultar a inteligência dos cidadãos destinatários pressupostos de discursos como os do presidente Obama.

Descaminhos dos EUA

Nos últimos 30 anos, líderes árabes aliados dos EUA (e alguns não aliados) insistem em dizer aos seus cidadãos que o Irã, os islâmicos xiitas e sunitas, o povo palestino e sua ambição sem limites seriam, dentre outros, os motivos das dificuldades em que vivem os árabes. Essa ‘seleção’ de inimigos apareceu pela primeira vez no plano de EUA-sauditas-Kwait, para construir uma guerra de vida ou morte contra o Irã revolucionário, apresentado como inimigo dos árabes; esse plano foi lançado por Saddam Hussein em 1981, para defender os poços de petróleo dos EUA. A guerra Irã-Iraque que daí resultou, causou, até 1988, amorte de um milhão de iranianos e de 400 mil iraquianos.

Simultaneamente, e desde o final dos anos 1960s, Jordânia, Síria e Líbano viveram em guerra contra guerrilheiros e civis palestinos, que identificavam como principais inimigos. O Egito declarou guerra à Líbia quando Sadat estava no poder e, depois, já sob Mubarak, contra seus próprios islâmicos e contra os palestinos. E no último ano do reinado de Mubarak, até a Argélia foi definida e combatida como inimiga dos egípcios.

A Arábia Saudita, ao mesmo tempo em que reprime a própria população em nome do wahabismo, jamais deixou de arquitetar planos (e complôs), desde 1982, para atrair Israel para o ninho árabe.

Quando o presidente Obama repete a mentira que interessa aos israelenses, que seus assessores pró-Israel na Casa Branca – e nenhum outro tipo de assessor para assuntos do mundo árabe jamais pisou a Casa Branca desde o governo Clinton – lhe impingem, a saber, que “muitos líderes na região tentaram dirigir seus protestos noutra direção. O ocidente foi acusado de ser fonte de todos os problemas, meio século depois do fim do colonialismo. O antagonismo contra Israel converteu-se em única via aceitável para a expressão política”... a que líderes, afinal, Obama refere-se? A Sadat, Mubarak, Ben Ali, reis Hussein e Abdullah II da Jordânia, reis Hasan II e Muhammad VI do Marrocos, presidente Bouteflika, todos os monarcas do Golfo, os dois primeiros-ministros Hariri do Líbano, Rafiq e Saad? Quem?

Essas mentiras são absolutamente inacreditáveis para o resto do mundo. Até para que conseguisse crer nas próprias mentiras, para a partir delas tentar explicar os fracassos de suas políticas externas num mundo que os EUA insistem em dominar, seria preciso que o governo dos EUA se dedicasse a aprender o muito que não sabe sobre o mundo árabe.

Oposição popular e suporte à liderança

A oposição aos EUA e a Israel é, de fato, atitude das multidões no mundo árabe, não dos líderes. Os líderes árabes, por décadas, só fizeram repetir que EUA e Israel são amigos dos árabes. É o povo árabe, só o povo, não os dirigentes, que insiste que as políticas dos EUA e a dominação e constantes agressões israelenses na região são a causa de esses dois países serem vistos hoje como inimigos dos árabes. Os líderes árabes, esses, e suas respectivas máquinas de propaganda, sempre fizeram o possível para encaminhar a fúria da rua árabe para outras direções, para inimigos imaginários, enquanto só cuidam de entender-se com Israel.

A tentativa de Obama de negar o ódio que EUA e Israel inspiram à rua árabe pelo que fazem na região, é equivalente à atitude sempre repetida, de EUA e Israel (nunca dos árabes) de fugir e negar a responsabilidade pelo que fazem. EUA e Israel jamais assumiram a responsabilidade pela violência horrível que sempre infligiram aos árabes. Em vez disso, sempre se dedicaram a transferir a responsabilidade por seus atos, para as vítimas. Quando Obama e Israel conclamam os árabes a assumir responsabilidades sobre a região, e não veem as culpas de EUA e Israel, o que fazem, mais uma vez é recusar-se a reconhecer os fatos.

Os árabes sempre assumiram claramente a responsabilidade e têm-se dedicado a tentar derrubar os ditadores que EUA e Israel apoiam há décadas – e continuam a apoiar. Quem sempre se recusa a assumir a responsabilidade são os EUA e Israel. O discurso de Obama, infelizmente, continua essa tradição de cegueira.

Na mesma linha, Obama castiga a Síria por seguir “seu aliado iraniano, buscando assistência em Teerã, nas táticas de supressão. E isso diz muito sobre a hipocrisia do regime iraniano”. Melhor faria se acusasse França, Grã-Bretanha e os próprios EUA, onde os governos de Ben Ali e Mubarak buscaram assistência e conselhos até o último momento. O escândalo da colaboração entre a França e os governos de Ben Ali e Mubarak até o último dia, sobretudo em temas “de segurança”, encheu os jornais em todo o mundo nos últimos meses; como as notícias de que tanto o ministro da Defesa egípcio Muhammad Tantawi (agora encarregado do conselho militar de governo no Egito pós-Mubarak) como o chefe do estado-maior do exército Sami Anan passaram boa parte do levante egípcio em Washington DC, em consultas com os norte-americanos, sobre como melhor “lidar” com o levante. E, isso, além da outra linha direta até Mubarak e Omar Suleiman, que muitos órgãos do governo e da segurança dos EUA mantiveram ativa até o último dia do governo de Mubarak – e que continua ativa.

Obama pressupõe que os árabes sejam estúpidos. Ou que os árabes não saibam que são os EUA e alguns países europeus que treinam e garantem os fundos que mantêm quase todas as agências de segurança no mundo árabe. A ajuda do Irã à Síria talvez exponha a hipocrisia iraniana. Mas a hipocrisia de EUA, Grã-Bretanha e França, essa, como se vê, permanece bem escondida.

Liberdade – para uns sim, para outros nunca

Obama afirmou que “não deve haver qualquer dúvida de que os EUA consideram bem-vinda a mudança que faz avançar a autodeterminação e a oportunidade”, mas, se se considera a insistência com que essa mudança é empurrada goela abaixo da Síria e da Líbia, mas nunca toma o rumo de Omã, Jordânia, Marrocos, Arábia Saudita, Bahrain (dentre outros), logo surgem dúvidas. O silêncio sobre as manifestações populares contra a ditadura nas monarquias (Arábia Saudita, Omã, Jordânia, Marrocos) e a crítica sempre superficial e rápida contra o Iêmen, cujos levantes populares aconteceram antes que na Líbia, fazem espantoso contraste com a veemência com que Obama critica a Síria e a Líbia.

A nenhuma referência ao Bahrain é claro sinal de covardia, agora que o levante no Bahrain foi esmagado, por ação de forças mercenárias do Golfo que recebem armas e fundos dos EUA, coordenadas pela Arábia Saudita. Obama não teve coragem de falar sobre os muitos prisioneiros, nem sobre a destruição de mesquitas xiitas.

No caso da Síria, contudo, as críticas lá estavam, desde o primeiro dia. De fato, se se justapõem aquelas críticas e a declaração de que “manteremos nossos compromissos assumidos com amigos e parceiros”, vê-se mais claramente que tipo de mudança os EUA apreciam e que tipo absolutamente não admitem. Obama chegou, até, a enumerar as cidades onde se aplicam os princípios “fundantes” dos EUA: Bagdá, Damasco, Sana e Teerã, além de Benghazi, Cairo e Túnis; mas não se aplicam em Riad, Manama, Muscat, Amã, Argel ou Rabat.

Também o sempre referido princípio “fundante” dos EUA, de igualdade e tolerância religiosa é sempre muito fortemente específico para uns; para outros, nunca. Além do Iraque – país que os EUA destruíram e onde implantaram a mais viciosa forma de sectarismo religioso e de ódio étnico que há hoje em todo o Oriente Médio – e que Obama descreveu como “democracia multiétnica e multirreligiosa, de todas as seitas”, a preocupação com a tolerância religiosa de Obama só se aplica ao Egito e – com críticas mínimas–, ao Bahrain.

Mas quando o assunto é Israel, todos os compromissos são esquecidos. Obama declara que os árabes “devem reconhecer Israel como estado judeu”, e mais uma vez ameaça os palestinos (como já havia ameaçado também no discurso do Cairo). Os palestinos que desistam de “deslegitimizar” o direito de Israel ser estado que mantém leis de discriminação contra cidadãos não-judeus, discriminação por religião e por etnia.

“Para os palestinos, terminarão em fracassos os esforços para deslegitimar Israel”, disse Obama.

A tolerância religiosa, poder-se-ia pensar, seria princípio “fundante” geral, de aplicação uniforme, não seletiva. Mas é tal a miopia de Obama, que ainda supõe que os árabes engolirão facilmente essa sua descarada retórica antiárabe e pró-Israel.

O mesmo se aplica a outro dos interesses “essenciais” dos EUA, a saber, o combate à proliferação nuclear. Obama teve a desfaçatez de dizer que os EUA “há anos implementam” uma política “contra a disseminação de armas nucleares” na região. Mas... todo o mundo sempre soube, há pelo menos 40 anos, que Israel é o único estado, em toda a região, que tem armas nucleares em seu arsenal – e que pelo menos numa ocasião ameaçou usá-las. E que, até hoje, se recusa a assinar o Tratado de Não-proliferação de armas nucleares. Que os EUA apoiaram Israel quando se tratou de construir e abastecer seu arsenal nuclear e, hoje, os EUA vetam qualquer decisão da ONU que cogite de penalizar Israel por não respeitar normas internacionais.

Nada disso parece criar qualquer problema para os “interesses essenciais” dos EUA. Iraque, Síria e Irã não podem ter reatores nucleares nem para finalidades médicas. Mas Israel pode e deve ter tantas bombas atômicas quantas deseje.

Simpatia pelos colonizadores

Afinal, Obama chega à questão palestina, mas outra vez nada acrescenta – por mais que os sionistas hoje finjam grave indignação e ultraje. Para começar, os árabes são convocados – como já fomos convocados no discurso do Cairo – a compreender e amar os infelizes judeus israelenses que conhecem “a dor de saber que tantas crianças na região são ensinadas a odiá-los”. Que Israel e grandes associações de judeus norte-americanos sejam, há décadas, divulgadoras das formas mais virulentas de preconceitos contra os árabes; que sejam odiadores de muçulmanos; que gerem e financiem a mais longa e mais pervertida campanha de propaganda de ódio racial que o mundo jamais viu... Não, não. Obama, seus assessores e conselheiros jamais ouviram falar dessas monstruosidades.

Que tipo de credibilidade Obama supõe que tenha entre os árabes que, há décadas, são alvo de discursos e de preconceitos desse tipo, para recomendar que os árabes se compadeçam com o sofrimento de seus carrascos que, desde 1948, sem parar um dia, matam crianças árabes?

Quando declara que “o sonho de um estado judeu e democrático não pode ser realizado por ocupação permanente” – Obama diz, simultaneamente, que o tal sonho se poderá realizar, sim, sem tolerância. Em outras palavras: os cidadãos palestinos de Israel continuarão a ser discriminados por religião e por etnia... no tal “estado judeu e democrático”. Mas nem esse duvidoso e precário “direito” é assegurado igualmente aos palestinos dos Territórios Ocupados. E fica-se sem saber que tipo de morte lenta Obama recomenda aos palestinos que vivem Jerusalém.

O direito de existir

Obama propõe que se adiem as negociações sobre Jerusalém ocupada pelos israelenses. Mas, ao mesmo tempo, propõe que Israel aceite as fronteiras de 1967. Aqui, ou não sabe do que está falando, e o problema é só ignorância; ou há aí ocultada uma grave má intenção.

As fronteiras de 1967 de que Obama fala incluem Jerusalém Leste. Obama parece ter “preventivamente” extraído a cidade do mapa; como se não fosse parte do território. E, isso, apesar de a lei internacional e a ONU reconhecerem Jerusalém como parte integrante dos territórios que Israel ocupou, por ação militar, em 1967.

Além disso, Israel expandiu ilegalmente a área de Jerusalém Leste, mediante roubo de terras na Cisjordânia. Há quem estime que, hoje, a área sob controle de Israel já equivalha a 10% da Cisjordânia (em 1967, eram só 6 quilômetros quadrados).

As chamadas “trocas mutuamente aceitas” de terras que Obama propõe, tampouco são viáveis. Israel já tomou outros 10% do território da Cisjordânia, terras hoje ocupadas pelo muro do apartheid. Acrescentem-se as colônias construídas e o vale do Jordão e praticamente já não há terras palestinas a serem trocadas pelas terras que Israel ocupou.

O que resta aos palestinos, de fato, é menos de 60% da Cisjordânia – terreno que algum dia talvez se possa batizar de “um estado palestino” e “não-militarizado”, mas que só por milagre algum dia seria “soberano” – conforme a fórmula de Obama.

Obama continua preocupadíssimo com o direito de Israel existir, mas não perde o sono por causa do direito de os palestinos existirem. Disse, sem ironia, falando do Hamás: “Como você pode negociar com um partido que se mostrou pouco disposto a reconhecer seu direito de existir?” Ora essa! Os palestinos negociamos há duas décadas com Israel, que nunca reconheceu o direito de os palestinos existirmos!

O discurso de Harold Macmillan em 1960 alertava os sul-africanos para que desistissem das políticas de apartheid. O discurso de Obama em 2011 repete insistentemente que os palestinos devem reconhecer o direito de Israel de continuar a ser estado racista.

Quando Obama diz que “os interesses de curto prazo dos EUA” às vezes “não se alinham perfeitamente com nossa visão de longo prazo para a região”, aí, prega a maior de todas as mentiras imperiais. Os interesses de curto prazo e também os interesses de longo prazo dos EUA na região sempre se alinharam perfeitamente: controlar os recursos de petróleo, assegurando ganhos para empresas norte-americanas; e defender Israel.

Até que verdadeiros “ventos de mudança” varram para longe esses interesses, os EUA continuarão a ser, como sempre foram, a força contrademocrática mais poderosa no mundo árabe. E discurse o imperador Obama o quanto queira.


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Fonte:  Al-Jazeera

Tradução: Vila Vudu