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Estende-se o domínio da manipulação: o que se passa na Síria?

Domenico Losurdo Publicado em 11.05.2011

Enterros de polícias assassinados. No momento em que centenas de sírios, civis e militares, acabam de tombar sob os tiros de franco atiradores financiados pelos saidiris e enquadrados pela CIA, os media ocidentais acusam o governo de Bachar el-Assad de disparar sobre a sua população e sobre as suas próprias forças policiais. Esta campanha de desinformação visa justificar uma possível intervenção militar ocidental. Neste importante texto o filósofo Domenico Losurdo recorda que o método não é novo. Simplesmente, os novos meios de comunicação tornaram-no mais refinado. Doravante, a mentira não é veiculada apenas pela imprensa escrita e audiovisual, ela passa também pelo Facebook e o YouTube.

Desde há alguns dias, grupos misteriosos atiram sobre os manifestantes e, sobretudo, sobre os participantes nos funerais que se seguiram aos acontecimentos sangrentos. Quem compõe estes grupos? As autoridades sírias sustentam que se trata de provocadores, ligados essencialmente aos serviços secretos estrangeiros. No Ocidente, em contrapartida, mesmo à esquerda endossa-se sem qualquer dúvida a tese proclamada em primeiro lugar pela Casa Branca: aqueles que atiram são sempre e apenas agentes do governo sírio vestidos à paisana. Obama será a voz da verdade? A agência síria Sana relata a descoberta de “garrafas de plástico cheias de sangue” utilizado para produzir “vídeos amadores falsificados” de mortos e feridos junto aos manifestantes. Como ler esta informação, que tomo do artigo de L. Trombetta em La Stampa de 24 de Abril? Talvez as páginas que se seguem, tiradas de um ensaio que será publicado em breve, contribuam para lançar alguma luz em cima disso. Se alguém se mostrar espantado ou mesmo incrédulo com a leitura do conteúdo do meu texto, que não se esqueça de que as fontes que utilizo são quase exclusivamente “burguesas” (ocidentais e pró-ocidentais). (Ver também adenda no fim do texto, N doT).

“Amor e verdade”

Nesses últimos tempos, com as intervenções sobretudo da secretária de Estado Hillary Clinton, a administração Obama não perde uma ocasião de celebrar a Internet, o Facebook, o Twitter como instrumentos de difusão da verdade e de promoção, indirectamente, da paz. Quantias considerá-veis foram atribuídas por Washington à potencialização desses instrumentos e para torná-los invul-neráveis à censura e ataques dos “tiranos”. Na realidade, para os novos media e para os mais tradicionais, a mesma regra se aplica: eles também podem ser instrumentos de manipulação e de incitamento do ódio e mesmo da guerra. O rádio foi sabiamente assim utilizado por Goebbels e pelo regime nazista.

Durante a Guerra Fria, mais do que um instrumento de propaganda, as transmissões de rádio constituíram uma arma para as duas partes empenhadas no conflito: a construção de um “Psycho-logical Warfare Workshop” eficaz é um dos primeiros deveres encomendados à CIA. O recurso à manipulação desempenha um papel essencial também no fim da Guerra Fria. Entretanto, ao lado da rádio, interveio a televisão. Em 17 de Novembro de 1989, a “revolução de veludo” triunfa em Praga, com uma palavra de ordem que se pretendia gandiana: “Amor e verdade”. Na realidade, desempenhou um papel decisivo a difusão da fala notícia segundo a qual um estudante fora “morto brutalmente” pela polícia. É o que revela, satisfeito, vinte anos depois, “um jornalista e líder da dissidência, Jan Urban”, protagonista da manipulação: a sua “mentira” teve o mérito de despertar a indignação em massa e o afundamento de um regime já periclitante.

No fim de 1989, apesar de fortemente desacreditado, Nicolae Ceausescu ainda está no poder na Roménia. Como derrubá-lo? Os mass media ocidentais difundem maciçamente junto à população romena as informações e as imagens do “genocídio” perpetrado em Timisoara pela polícia de Ceausescu. O que se passou na realidade? Deixemos a palavra com um prestigioso filósofo (Giorgio Agamben), que nem sempre demonstra vigilância crítica em relação à ideologia dominante, mas que sintetizou aqui de modo magistral o caso que tratamos:

“Pela primeira vez na história da humanidade, cadáveres acabados de enterrar foram desenterrados às pressas e, junto com outros alinhados nas mesas dos necrotérios, foram torturados para simular diante das câmaras o genocídio que devia legitimar o novo regime. O que o mundo inteiro tinha diante dos olhos em directo como verdade nas telas de televisão era a absoluta não verdade. E apesar de a falsificação ser por vezes evidente, ela era autenticada de todos os modos como verdadeira pelo sistema mundial dos media, para que ficasse claro que o verdadeiro doravante não era senão um momento do movimento necessário do falso”.

Dez anos depois, a técnica acima descrita é aplicada novamente, com um êxito renovado. Uma campanha martela o horror de que se tornou responsável o país (a Jugoslávia) cujo desmembra-mento foi programado e contra o qual já se está em vias de preparar a guerra humanitária:
“O massacre de Racak é atroz, com mutilações e cabeça cortadas. É um cenário ideal para des-pertar a indignação da opinião pública internacional. Alguma coisa parece estranha na matança. Os sérvios matam habitualmente sem fazer mutilações […] Como mostra a guerra da Bósnia, as denúncias de atrocidades nos corpos, sinais de tortura, decapitações, são uma arma de propaganda difusa […] Talvez não tenham sido os sérvios mas sim os guerrilheiros albaneses que mutilaram os corpos”.

Naquela altura, os guerrilheiros do UCK não podiam ser suspeitos de uma tal infâmia: eram free-dom fighters, combatentes da liberdade. Hoje, no Conselho da Europa, o líder do UCK e pai da pátria no Kosovo, Hashim Thaci, “é acusado de dirigir um clã político-criminal nascido na véspera da guerra” e implicado no tráfico não só de heroína como também de órgãos humanos. Eis o que acontecia sob a sua direcção no decorrer da guerra: “Uma chácara em Rripe, na Albânia central, transformada pelos homens do UC em sala de operação, tendo como pacientes prisioneiros de guerra sérvios: um golpe na nuca, antes e extirpar os seus rins, com a cumplicidade de médicos estrangeiros” (presume-se que ocidentais). E assim vem à luz a realidade da “guerra humanitária” de 1999 contra a Jugoslávia; mas durante esse tempo o seu desmembramento foi levado a cabo e em Kosovo instala-se e permanece uma enorme base militar estadunidense.

Façamos um outro salto atrás de vários anos. Uma revista francesa de geopolítica (Hérodote) salientou o papel essencial desempenhado no decorrer da “revolução das rosas”, verificada na Geórgia no fim de 2003, pelas redes televisivas que estão nas mãos da oposição georgiana e pelas redes ocidentais: elas transmitem sem descontinuar a imagem (que em seguida se revelou falsa) do palacete que seria a prova da corrupção de Eduard Chevarnadze, o dirigente que se pretendia derrubar. Após a proclamação dos resultados eleitorais que dão a vitória a Chevarnadze e que são declarados fraudulentos pela oposição, esta decide organizar uma marcha sobre Tíflis, que deveria marcar “a chegada simbólica, mesmo pacífica, à capital, de todo um país em cólera”. Apesar de convocados por todos os cantos do país com grandes reforços de meios propagandísticos e financeiros, nesse dia afluem à marcha entre 5.000 e 10.000 pessoas: “isto não é nada para a Geórgia”! Mas ainda assim, graças a uma encenação refinada e de grande profissionalismo, a cadeia de televisão mais difundida no país chega a comunicar uma mensagem inteiramente diferente: “A imagem está lá, poderosa, a de um povo inteiro que segue o seu futuro presidente”. Doravante as autoridades políticas estão deslegitimadas, o país está desorientado e aturdido e a oposição fica mais arrogante do que nunca, tanto mais que os media internacionais e as chancelarias ocidentais encorajam-no e protegem-no. O golpe de Estado está maduro, ele vai levar ao poder Mikhail Saakashvili, que estudou nos EUA, fala um inglês perfeito e está em condições de compreender rapidamente as ordens dos seus superiores.

A Internet como instrumento de liberdade

Vejamos agora os novos media, particularmente queridos à senhora Clinton e à administração Obama. Durante o Verão de 2009 podia-se ler num diário italiano reputado:

“Desde há alguns dias, no Twitter, circula uma imagem de proveniência incerta […] Diante de nós, um fotograma de um valor profundamente simbólico: uma página do nosso presente. Uma mulher com o véu negro, que usa uma true t-shirt [camiseta de moda para jovens, estampada com dizeres] e calças jeans: extremo Oriente e extremo Ocidente juntos. Ela está só, de pé. Tem o braço direito levantado e o punho fechado. Face a ela, imponente, a boca do canhão de um veículo blindado, do teto do qual emerge, hierático, [o presidente do Irão] Mahmoud Ahmadinejad. Atrás, os guarda-costas. O jogo dos gestos impressiona: provocação desesperada da parte da mulher; mística da parte do presidente iraniano”.

Trata-se de “uma fotomontagem”, que com certeza parece “verosímil”, para chegar mais eficaz-mente a “condicionar ideias, crenças”. As manipulações abundam. No fim do mês de Junho de 2009, os noticiários da media no Irão e todos os meios de informação ocidentais difundem a ima-gem de uma bela jovem atingida por uma bala: “Ela começa a sangrar, perde consciência. Nos segundos que se seguem ou pouco depois, ela está morta. Ninguém pode dizer se foi atingido no fogo cruzado ou se foi atingida de modo deliberado”. Mas a busca da verdade é a última coisa em que se pensa: seria de qualquer modo uma perda de tempo e poderia mesmo revelar-se contra-producente. O essencial está alhures: “agora a revolução tem um nome: Neda”. Pode-se então difundir a mensagem desejada: “Neda inocente contra Ahmadinejad”, ou então, “uma jovem cora-josa contra um regime vil”. E a mensagem verifica-se irresistível: “É impossível olhar na Internet de modo frio e objectivo o vídeo de Neda Soltani, a breve sequência em que o pai da jovem e um médico tentam salvar a vida da jovem iraniana de vinte e seis anos”. Como na fotomontagem, tam-bém no caso da imagem de Neda estamos na presença de uma manipulação refinada, atentamen-te estudada e calibrada em todos os seus pormenores (gráficos, políticos e psicológicos) com o objectivo de desacreditar e tornar o mais odioso possível o governo iraniano (Ver adendo no fim do texto, NT)

E chegamos assim ao “caso líbio”. Uma revista italiana de geopolítica falou a propósito disso da “utilização estratégica do falso”, como confirma em primeiro lugar o “desconcertante caso das falsas fossas comuns” (e de outros pormenores sobre os quais chamei a atenção). A técnica é aquela que se utiliza há décadas, mas que na actualidade, com o advento das novas medias, adquire uma eficiência terrível: “A luta é primeiro representada como um duelo entre o poderosos e o fraco indefeso, e rapidamente transfigurada a seguir numa oposição frontal entre o Bem e o Mal absolutos”. Nessas circunstâncias, longe de ser um instrumento de liberdade, os novos media produzem o resultado oposto. Estamos na presença de uma técnica de manipulação, que “restringe fortemente a liberdade de escolha dos espectadores”; “os espaços para uma análise racional são comprimidos ao máximo, em particular explorando o efeito emotivo da sucessão rápida das imagens”.

E assim reencontra-se para os novos media a regra já constatada para o rádio e a televisão: ins-trumentos, ou potenciais instrumentos, de liberdade e de emancipação (intelectual e política) podem inverter-se e muitas vezes invertem-se hoje no seu contrário. Não é difícil prever que a representação maniqueísta do conflito na Líbia não resistirá muito tempo; mas Obama e seus alia-dos esperam no entretempo atingir os seus objectivos, que não são verdadeiramente humanitá-rios, mesmo se a novlíngua teima de defini-los como tais.

Espontaneidade da Internet

Mas retornemos à fotomontagem que mostra uma dissidente iraniana a desafiar o presidente do seu país. O autor do artigo que cito não se interroga sobre os artesãos de uma manifestação tão refinada. Vou tentar remediar essa lacuna. No fim dos anos 90 já se podia ler no International Herald Tribune: “As novas tecnologias mudaram a política internacional”; aqueles que estiverem em condições de controlá-las vêem aumentar desmedidamente seu poder e sua capacidade de desestabilização dos países mais fracos e tecnologicamente menos avançados.

Estamos na presença de um novo capítulo da guerra psicológica. Também nesse domínio os EUA estão decisivamente na vanguarda, tendo no seu activo décadas de investigação e de experimen-tações. Há alguns anos Rebecca Lemov, antropóloga da Universidade do Estado de Washington, publicou um livro que “ilustra as tentativas desumanas da CIA e de alguns dos maiores psiquiatras de ‘destruir e reconstruir’ a psique dos pacientes nos anos 50″. Podemos então compreender um episódio que se verificou nesse mesmo período. Em 16 de Agosto de 1951, fenómenos estranhos e inquietantes vieram perturbar Pont-Saint-Esprit, “uma aldeia tranquila e pitoresca” situada “no Sudeste da França”. Sim, “a aldeia foi sacudida por um misterioso vento de loucura colectiva. Pelo menos cinco pessoas morreram, dezenas acabaram no asilo, centenas deram sinais de delírio e de alucinações […] Muitos acabaram no hospital com a camisa de força”. O mistério, que durante lon-gos anos cercou esse ataque de “loucura colectiva”, agora está desvendado: tratou-se de uma “experimentação efectuada pela CIA, com a Special Operation Division (SOD), a unidade secreta do Exército dos EUA de Fort Detrick, Maryland”; os agentes da CIA “contaminaram com LSD as baguetes vendidas nas padarias da aldeia”, provocando os resultados que vimos acima. Estamos no princípio da Guerra Fria: certamente os Estados Unidos eram aliados da França, mas é justa-mente por isso que esta se prestava facilmente às experimentações de guerra psicológica que tinham como objectivo o “campo socialista” (e a revolução anticolonial) mas que dificilmente podiam ser efectuados nos países para além da “cortina de ferro”.

Coloquemos então uma pergunta: a excitação e o incitamento das massas não podem ser produ-zidos senão pela via farmacológica? Com o advento e a generalização da Internet, Facebook, Twitter, emergiu uma nova arma, susceptível de modificar profundamente as relações de força no plano internacional. Isto não é mais um segredo, para ninguém. Nos nossos dias, nos EUA, um rei da sátira televisiva como Jon Stewart exclama: “Mas por que enviamos exército se é tão fácil abater as ditaduras via Internet quanto comprar um par de sapatos?” Por sua vez, numa revista próxima do Departamento de Estado, um pesquisador chama a atenção sobre “como é difícil militarizar” (to weaponize) os novos media para objectivos a curto prazo e ligados a um país determinado; mais vale perseguir objectivos de mais ampla envergadura. As ênfases podem variar, mas o significado militar das novas tecnologias é em todos os casos explicitamente sublinhado e reivindicado.

Mas a Internet não é a própria expressão da espontaneidade individual? Só os mais ingénuos (e os menos escrupulosos) argumentam assim, Na realidade – reconhece Douglas Paal, ex-colaborador de Reagan e de Bush pai – a Internet é actualmente “gerida por uma ONG que é de fato uma emanação do Departamento de Comércio dos EUA”. Trata-se só de comércio? Um diário de Pequim relata um fato amplamente esquecido: quando, em 1992, a China pede pela primeira vez para ser conectada à Internet, seu pedido foi rejeitado devido ao perigo de que o grande país asiático pudesse assim “procurar informações sobre o Ocidente”. Agora, ao contrário, Hillary Clinton reivindica a “absoluta liberdade” de Internet como valor universal ao qual não se pode renunciar; e contudo – comenta o diário chinês – “o egoísmo dos Estados Unidos não mudou”.

Talvez não se trate apenas de comércio. Quanto a isso, o semanário alemão Die Zeit pede escla-recimentos a James Bamford, um dos maiores peritos em matéria de serviços secretos estado-unidenses: “Os chineses também temem que firmas estado-unidenses como a Google sejam em última análise ferramentas dos serviços secretos dos Estados Unidos no território chinês. Será uma atitude paranóica?” “Nada disso”, responde ele imediatamente. Ao contrário – acrescenta o perito – “organizações e instituições estrangeiras [também] são infiltradas” pelos serviços secretos estado-unidenses, os quais estão de todos os modos em condições de interceptar as comunicações telefónicas em todos os cantos do planeta e devem ser considerado como “os maiores hackers do mundo”. Doravante – afirmam ainda no Die Zeit dois jornalistas alemães – não há a mínima dúvida quanto a isso:

“Os grandes grupos da Internet tornaram-se uma ferramenta da geopolítica dos EUA. Antes, havia a necessidade de laboriosas operações secretas para apoiar movimentos políticos em países lon-gínquos. Hoje basta frequentemente um pouco de técnica de comunicação, operada a partir do Ocidente […] O serviço secreto tecnológico dos EUA, a National Security Agency, está em vias de montar uma organização completamente nova para as guerras na Internet”.

Convém portanto reler à luz de tudo isto alguns acontecimentos recentes de explicação não muito fácil. Em Julho de 2009 incidentes sangrentos verificaram-se em Urumqi e no Xinjiang, a região da China habitada sobretudo por uigures. Serão a discriminação e a opressão contra minorias étnicas e religiosas a explicação? Uma abordagem desse tipo não parece muito plausível, a julgar pelo menos com o que informa de Pequim o correspondente de La Stampa:

“Numerosos hans de Urumqi queixavam-se dos privilégios de que desfrutavam o uigures. Estes, de fato, enquanto minoria nacional muçulmana, têm condições de trabalho e de vida bem melhores que os seus colegas hans. Um uigur, no escritório, tem autorização para suspender o seu trabalho várias vezes por dia para cumprir as cinco orações muçulmanas tradicionais da jornada […] Além disso podem não trabalhar na sexta-feira, dia feriado muçulmano. Em teoria eles deveriam recuperar o domingo. Mas no domingo os escritórios estão na realidade desertos […] Outro ponto doloroso para os hans, submetidos à dura política que impõe o filho único por família, é o fato de que os uigures podem ter dois ou três filhos. Como muçulmanos, além disso, eles têm reembolsos acrescidos no seu salário pois, como não podem comer porco, devem recorrer à carne de carneiro, que é mais cara”.
Parecem portanto pelo menos unilaterais estas acusações do Ocidente contra o governo de Pequim por querer apagar a identidade nacional e religiosa dos uigures. E então?

Vamos reflectir sobre a dinâmica desses incidentes. Numa vila do litoral da China onde, apesar das diferentes tradições culturais e religiosas pré-existentes, hans e uigures trabalham lado a lado, difunde-se de repente o rumor de que uma jovem han foi violada por operários uigures; daí resul-tam incidentes no decorrer dos quais dois uigures perdem a vida. O rumor que provocou esta tragédia é falso, mas então difunde-se um segundo rumor mais forte e ainda mais funesto: a Internet divulga na rede a notícia de que na cidade costeira da China centenas de uigures teriam perdido a vida, massacrados pelos sob a indiferença e mesmo sob o olhar complacente da polícia. Resultado: tumultos étnicos no Xinjiang, que provocam a morte de quase 200 pessoas, desta vez quase todos hans.

Estaremos na presença de uma complicação infeliz e fortuita de circunstâncias ou, em alternativa, da difusão efectivamente verificada a seguir de rumores falsos e tendenciosos visando um resultado? Estamos numa situação em que a partir de agora se verifica ser impossível distinguir a verdade da manipulação. Uma sociedade estadunidense realizou “programas que permitiriam a um indivíduo empenhado numa campanha de desinformação adoptar simultaneamente até 70 identi-dades (perfis de redes sociais, contas em fóruns, etc.) gerindo-os paralelamente: tudo isso sem que se possa descobrir quem puxa os fios dessa marionete virtual”. Quem recorreu a esses programas? Não é difícil adivinhar. O diário citado aqui, não suspeito de ser anti-estadunidense, precisa que a sociedade em causa “fornece serviços a diversas agências governamentais estado-unidenses, como a CIA e a Secretaria da Defesa”. A manipulação de massa celebra o seu triunfo enquanto a linguagem do Império e da novlíngua fazem-se, na boca de Obama, mais doces e suaves do que nunca.

Volta então à memória a “experimentação efectuada pela CIA” durante o Verão de 1951, que pro-duziu “um misterioso vento de loucura colectiva” na “aldeia pitoresca e tranquila” de Pont-Saint-Esprit. E eis-nos de novo obrigados a nos colocar a pergunta inicial: a “loucura colectiva” pode ser produzida só por via farmacológica ou pode hoje ser o resultado do recurso, também, às “novas tecnologias” da comunicação de massa?

Compreendem-se então os financiamentos de Hillary Clinton e da administração Obama aos novos media. Vimos que a realidade das “guerras na Internet” a partir de agora é reconhecida mesmo por órgãos reputados da imprensa ocidental; salvo que na linguagem do Império e na novlíngua a promoção das “guerras na Internet” torna-se a promoção da liberdade, da democracia e da paz.

Os alvos dessas operações não permanecem inertes: como em toda guerra, os fracos procuram reduzir a sua desvantagem aprendendo com os mais fortes. E eis que estes últimos gritam escan-dalizados: “No Líbano aqueles que melhor dominam os novos media e as redes sociais não são as forças políticas pró-ocidentais que apoiam o governo de Saad Hariri, mas sim os “Hezbolah”. Essa observação deixa escapar um suspiro: ah, como seria belo se, assim como aconteceu com a bomba atómica e as armas (propriamente ditas) mais refinadas, também para as “novas tecnologias” e as novas armas de informação e desinformação em massa aqueles que detêm o monopólio fossem o país que inflige um interminável martírio ao povo palestino e pudessem continuar a exercer no Médio Oriente uma ditadura terrorista! O fato é – lamenta-se Moises Naïm, director da Foreign Policy – que os EUA, Israel e o Ocidente já não enfrentam mais os “ciber-idiotas de outrora”. Estes “contra-atacam com as mesmas armas, fazem contra-informação, envenenam os poços”: uma verdadeira tragédia do ponto de vista dos presumidos campeões do “pluralismo”. Na linguagem do Império e na novlíngua, a tímida tentativa de criar um espaço alternativo ao que é gerido e hegemonizado pela superpotência solitária torna-se um “envenenamento dos poços”.

Adenda do Réseau Voltaire

Sobre o Facebook na Síria

Desde o princípio das manifestações em Deraa, foi aberta uma página no Facebook com o título “Revolução síria 2011″: slogan publicitário imaginário para verdadeiros revolucionários - se não se conseguir em 2011, é para desistir? Durante o dia, esta página contava com 80 mil amigos, quase todos das contas Facebook criadas no mesmo dia. Isto é impossível salvo se os “amigos” forem contas virtuais criadas por software.

A propósito do caso Neda no Irão

Se o vídeo da morte da jovem Neda for revisto passando em câmara lenta, constata-se que, ao cair, a jovem tem o reflexo de amortecer a sua queda com o braço. Ora, toda pessoa atingida por bala – ainda mais no peito – perde os seus reflexos. O corpo deveria cair como uma massa. Mas não é o caso. É impossível que a jovem tenha sido atingida por bala naquele momento. Alguns segundos mais tarde, o vídeo mostra o rosto da jovem. Ele está bem. Ela passa a mão sobre o seu rosto e este é então recoberto de sangue. O aumento da mão mostra que ela dissimula um objecto na sua palma e que ela espalha ela própria o sangue sobre o seu rosto. A jovem é então levada pelos seus amigos ao hospital. Ela morre durante o transporte. Chegada ao hospital, constata-se que a morte se deveu a uma bala em pleno peito. Esta não pode ter sido atirada senão pelos seus “amigos” durante o seu transporte.

Referências bibliográficas
# Giorgio Agamben 1996, Mezzi senza fine. Note sulla politica, Bollati Boringhieri, Torino.
# James Bamford (interview) 2010, quot Passen Sie auf, was Sie tippen quot, par Thomas Fi-schermann, in Die Zeit, 18 février, pp. 20-21.
# Ennio Caretto 2006, La Cia riprogrammò le menti dei reduci, in Corriere della Sera, 12 février, p. 14.
# Germano Dottori 2011, Disinformacija. L’uso strategico del falso nel caso libico, in Limes. Rivista italiana di geopolitica, n. 1, pp. 43-49.
# Alessandra Farkas 2010 quot La Cia drogò il pane dei francesi quot. Svelato il mistero delle ba-guette che fecero ammattire un paese nel ‘51, in Corriere della Sera, 13 mars, p. 25.
# Thomas Fischermann, Götz Hamann 2010, Angriff aus dem Cyberspace, in Die Zeit, 18 février, pp. 19-21.
# Carlo Formenti 2011, La quot disinformazia quot ai tempi del Web. Identità multiple per depistare, in Corriere della Sera, 28 février, p. 38.
# Massimo Gaggi 2010, Un’illusione la democrazia via web. Estremisti e despoti sfruttano Internet, in Corriere della Sera, 20 mars, p. 21.
# Régis Genté 2008, Des révolutions médiatiques, in Hérodote, revue de géographie et de géopoli-tique, 2° trimestre, pp. 37-68.
# Mara Gergolet 2010, L’Europa : quot Traffico d’organi in Kosovo quot, in Corriere della Sera, 16 décembre, p. 18.
# Global Times 2011, The internet belongs to all, not just the US, in Global Times, 17 février.
Texto: / Postado em 30/04/2011 ás 21:23
[Tradução de Pátria Latina]

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Fonte: ODiario.info