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Nova operação colonial contra a Líbia

Domenico Losurdo Publicado em 23.03.2011

Não satisfeitos com o bloqueio solitário de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando o expansionismo de Israel na Palestina ocupada, os Estados Unidos vêm hoje se apresentar novamente como os interpretes e campeões da “Comunidade internacional”. Convocaram o Conselho de Segurança, e não foi para condenar a intervenção das tropas saudistas em Bahrein, mas sim para exigir, e finalmente impor o lançamento da “no-fly zone” e outras medidas guerreiras em contra da Líbia.

Algumas medidas agressivas já eram tomadas unilateralmente por Washington e por alguns de seus aliados, como a aproximação da frota militar americana das costas da Líbia e o apelo ao instrumento clássico da política do canhão. Mas Obama não parou por aí: nestes últimos dias, vinha intimando tanto Khadafi de modo ameaçador a abandonar o poder e pressionava o exercito líbio a dar um golpe de Estado. Mais grave ainda, desde há algum tempo os agentes estadunidenses, juntos com os de França e Grã-Bretanha, vinham deixando os funcionários líbios diante de um dilema: ou passar para o lado dos rebeldes ou ser processado perante a Corte Penal Internacional e passar o resto de sua vida encarcerados por “Crimes contra a humanidade”.

A fim de dar cobertura à retomada das práticas colonialistas mais infames, o gigantesco aparelho mediático de manipulação e desinformação lançou sua campanha e, entretanto, basta ler com atenção a própria imprensa burguesa para perceber o engodo. Por exemplo, diz-se há dias que a aviação de Khadafi bombardeia a população civil. Mais em 1° de março, o jornal a Stampa escreve, pag. 6, e pela pena de Guido Ruotolo: “È verdade, provavelmente não houve bombardeio”. Mudou radicalmente a situação nos dias seguintes? Dia 16 de março, Lorenzo Cremonesi escreve de Tobruk no Corriere della Serra: “Como já aconteceu nas outras localidades onde interveio a aviação, o que houve são apenas raids de advertência”. “Eles queriam assustar; muito barulho por nada”, nos disse pelo telefone um dos porta-vozes do governo provisório. São portanto os próprios rebeldes que desmentem os “massacres” invocados para justificar a intervenção “humanitária”.

A propósito dos rebeldes. Eles são celebrados dia após dia como os campeões da democracia em toda a sua pureza, eis porém a forma como foi relatada por Lorenzo Cremonasi, no Corriere della Serra do 12 de março, sua retirada frente à contraofensiva do exercito líbio: “Na confusão geral, acontecem também atos de pilhagem. O mais notório é o do hotel El Fadeel, de onde levaram televisores, colchões, cobertores, transformaram as cozinhas em lixeiras e os corredores, em acampamentos imundos”. Não parece ser o comportamento de um exercito de liberação, e o mínimo que se pode dizer é que a visão maniqueísta do conflito na Líbia não tem o menor fundamento.

Há mais. A cada dia denunciam as “atrocidades” da repressão na Líbia. Mas, falando de Bahrein, conta Nicholas D. Kristoff no International Herald Tribune: “No curso destas ultimas semanas, vi cadáveres de manifestantes, quase todos executados de perto por armas de fogo, vi uma moça retorcendo-se de dor após ter sido espancada, vi o pessoal das ambulâncias ser golpeado por tentar salvar manifestantes”. Um vídeo de Bahrein mostra o que parecem ser forças de segurança atingir com uma granada lacrimogênea um homem de meia-idade e desarmado, a poucos metros delas. O homem caí no chão e tenta levantar-se. Atiram então nele, na cabeça, com outra granada. Caso não seja suficiente, vale lembrar que “Nestes últimos dias, as coisas vão de mal a pior”. Antes mesmo da repressão, é na vida quotidiana que a violência se expressa; a maioria chiita é submetida a um regime de “apartheid”.

Para reforçar o aparelho de repressão, agem os “mercenários estrangeiros” com tanques de assalto, armas e gás lacrimogêneo estadunidenses. O papel dos Estados Unidos é decisivo, como o explica o jornalista do International Herald Tribune, ao contar um episodio por si esclarecedor: “Umas semanas atrás, um colega meu do New York Times, Michael Slackman, foi capturado pelas forças de segurança de Bahrein. Ele me contou que chegaram a apontar armas para ele. Receoso de alguém atirar nele sem mais nem menos, ele pega seu passaporte e grita que é jornalista dos Estados Unidos. A partir dali, o humor do grupo muda de repente. O chefe chega perto dele, aperta a sua mão e muito animado, lhe diz “Não se preocupe. Nós gostamos dos Estados Unidos!”

De fato, a Quinta Frota dos Estados Unidos tem base em Bahrein. Inútil dizer que tem como dever defender o impor a democracia: sempre que não seja em Bahrein ou mesmo no Yemen, e sim... na Líbia ou em algum outro pais que, por sua vez, entre na mira de Washington.

Por mais repugnante que seja a hipocrisia do imperialismo, não é uma razão suficiente para esconder as responsabilidades de Kadhafi. Embora tenha, historicamente, o mérito de ter acabado com a dominação colonial e as bases militares que intimidavam seu país, ele não soube montar uma camada dirigente bastante ampla. Além do mais, ele utilizou os lucros do petróleo para construir improváveis projetos “internacionalistas” sob a bandeira do “Livro Verde”, em vez de desenvolver uma economia nacional, moderna e independente. Perdeu-se assim uma chance única de pôr fim à estrutura tribal da Líbia e ao antigo dualismo entre Tripolitânia e Cirenáica, e de contrapor uma sólida estrutura econômico-social diante das manobras renovadas e às pressões do imperialismo.

E temos não obstante, de um lado, um líder do Terceiro Mundo que, de forma rústica, confusa, contraditória e bizarra, segue uma linha de independência nacional, enquanto, de outro lado, em Washington, um dirigente expressa de forma elegante, educada e sofisticada as razões do neo-colonialismo e do imperialismo. Somente um surdo à causa da emancipação dos povos e da democracia nas relações internacionais, ou então quem se deixa conduzir antes pelo esteticismo que pelo raciocínio político, pode alinhar-se com Obama, Cameron e Sarkozy!

Aliás, será tão elegante assim este refinado Obama que, embora condecorado com o premio Nobel da Paz, não leva sequer um instante em consideração a sábia proposição dos paises sul-americanos, ou seja o convite de Chávez e outros dirigido às duas partes em luta na Líbia para que elas se esforcem por chegar a uma solução pacífica do conflito, em benefício da salvação e da integridade territorial do país? Imediatamente após a votação da ONU, e indo ainda além da proposição que mal acabava de ser votada, o presidente dos Estados Unidos lançava um ultimato a Kadhafi, e teve a pretensão de agir em nome da “comunidade internacional”. Desde sempre, a ideologia dominante revela o seu racismo ao identificar a humanidade com o Ocidente; agora, desta vez, são excluídos da “Comunidade internacional” não apenas os dois paises cuja população é a mais numerosa, mas também um pais chave da União Européia. Quando se coloca como interprete da dita “Comunidade internacional”, Obama demonstra uma arrogância racista ainda pior do que aqueles que, no passado, reduziram os seus ancestrais à escravidão.

Será tão elegante e refinado este Cameron que, para vencer em sua casa a oposição à guerra, repete até a obsessão que ela responde aos “interesses nacionais” da Grã-Bretanha, como se o apetite em relação ao petróleo não fosse já bastante claro?

E que dizer enfim de Sarkozy? Nos jornais, pode-se ler tranqüilamente que, mais do que no petróleo, ele pensa nas eleições: quantos líbios o presidente francês tem necessidade de matar para que sejam esquecidos os seus escândalos, suas gafes, e tenha maior possibilidade de ser reeleito?

Os jornalistas e os intelectuais da corte gostam pintar um Kadhafi isolado, acuado por um povo unido; porém, para quem acompanha atentamente os acontecimentos, é fácil perceber o grotesco dessa representação. O voto recente no Conselho de Segurança desmascarou outra manipulação; aquela que inventa a fábula sobre uma “Comunidade internacional” unida na luta contra a barbárie. Na realidade, se abstiveram e expressaram fortes reservas a China, a Rússia, o Brasil, a Índia e Alemanha! Os dois primeiros paises não foram além da abstenção e não usaram o seu poder de veto por uma serie de motivos. Pois não sempre é fácil desafiar a superpotência solitária. Não se trata apenas disso e tanto China quanto Rússia conseguiram em troca que não se enviem tropas de terra (e de ocupação colonial); evitaram intervenções militares unilaterais de Washington e de seus aliados os mais próximos, semelhantes às intervenções contra a Iugoslávia em 1999 e no Irak em 2003; tentaram conter as manobras dos círculos mais agressivos do imperialismo, que gostariam deslegitimar a ONU e substituí-la pela OTAN e a Aliança das Democracias; enfim, apareceu uma contradição no seio do imperialismo ocidental conduzido pelos EUA, como o mostra o voto da Alemanha.

Ao fazer referência a um país como a China dirigida por um partido comunista, deve-se observar que o compromisso que ela quis aceitar em nada engaja os povos do mundo. Mao Zedong explicou em seu tempo que as exigências de política internacional e os próprios compromissos dos paises de orientação socialista ou progressista são uma coisa e outra coisa, por sua vez, é a linha política de povos, classes sociais e partidos políticos que não conquistaram o poder e por isso não estão engajados na construção de uma nova sociedade.´

Fica claro então que a agressão a Líbia torna mais urgente que nunca o ressurgimento da luta contra a guerra e o imperialismo.

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Tradução de Ana Maria Dávila

Fonte: Conversa Afiada