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Ocidente, Oriente e um problema

Martin Wolf Publicado em 13.01.2011

Agora que temos a capacidade de destruir a civilização, as relações entre Estados poderosos tornaram-se perigosas. Após o uso da bomba atômica, Albert Einstein argumentou que "a única salvação para a civilização e raça humana" estava "em um governo mundial".

Como a "grande convergência" - assunto da coluna da semana passada - moldará o mundo no século XXI? Felizmente, para abordar essa enorme questão, tenho um guia: Ian Morris, de Stanford, que escreveu uma brilhante análise sobre onde estamos, como chegamos aqui e para onde podemos estar indo, em um livro que abrange 16 mil anos de história humana*.

Segundo o professor Morris, o desenvolvimento social é guiado por "pessoas gananciosas, preguiçosas e amedrontadas", que "buscam o equilíbrio entre estar confortável, trabalhar o mínimo possível e estar seguro". Como os seres humanos são espertos e altamente sociais, inventam tecnologias e criam instituições para atingir essas metas. O que cada grupo de seres humanos tem condições de atingir, no entanto, é determinado pela geografia. O impacto de determinada geografia também muda: há mil anos os oceanos eram uma barreira; há 500 anos, uma rota.

O professor Morris também oferece um relato fantástico do progresso de dois polos da civilização. O "Ocidente", as civilizações descendentes da revolução agrícola no chamado "Crescente Fértil", no atual Oriente Médio, e o "Oriente", as civilizações descendentes de uma revolução independente, em parte do que hoje é a China. Sua conclusão é que o Ocidente era um pouco mais avançado que o Oriente até a queda do Império Romano do Ocidente, ficou para trás entre a queda e o século XVIII e, a partir daí, voltou a ficar na dianteira. A exploração pelo Oriente das "vantagens do atraso (backwardness)", um tema recorrente, sugere outra reversão no século XXI.

Para o professor Morris, "desenvolvimento social" é um amálgama de quatro fatores: uso da energia; urbanização; capacidade militar e tecnologia da informação. A primeira é fundamental: a captura de energia é condição necessária para a existência; quanto mais complexa e avançada uma sociedade, mais energia captura. É por isso que a Revolução Industrial é um nome impróprio para o que aconteceu há dois séculos. Foi uma revolução energética: aprendemos como explorar a luz do sol fossilizada. Energia e ideias são as bases gêmeas de nossa civilização.

Uma análise do centro de desenvolvimento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) argumenta que a convergência vem mudando o equilíbrio mundial de oferta e demanda de recursos**. Isso é mostrado nas recentes altas nos preços reais dos metais e das fontes de energia. A Agência Internacional de Energia (AIE) destaca que a demanda mundial por energia primária pode subir mais 50% até 2035. Sem alguma grande mudança na intensidade de produção da energia, a convergência econômica que vemos agora quer dizer o seguinte: se toda a humanidade usar a mesma energia per capita usada nos países ricos hoje em dia, o consumo de energia comercial será o triplo do atual.

Como observa a OCDE, o impacto econômico da convergência é mais amplo do que apenas esse. A integração da oferta laboral da China, Índia e ex-União Soviética à economia mundial dobrou o número de pessoas trabalhando em economias abertas. Isso necessariamente tem impacto negativo no salário relativo da mão de obra de baixa captação, embora as evidências contradigam a crença generalizada de que isso vem sendo o principal fator de aumento da desigualdade nos países ricos. O crescimento da China e Índia ajudou diretamente os exportadores de recursos naturais e os compradores de produtos que requerem mão de obra intensiva. Os países ricos em recursos foram grandes vencedores do primeiro desses efeitos, embora se deparem com o risco de desindustrialização. Os consumidores dos países ricos são os grandes vencedores do segundo efeito. Além disso, uma das consequências mais surpreendentes vêm sendo o fato de que a poupança desejada aumentou mais que o investimento, gerando, portanto, uma "bolha de poupança" e pressão para baixo sobre as taxas de juros reais.

Sobre os recursos, é uma ironia da história intelectual que Thomas Malthus, profeta do excesso de população, tenha se preocupado com a falta de recursos justamente quando essas suposições pessimistas tornavam-se incorretas. A maior questão do século XXI pode ser que os recursos voltem a mostrar-se como fatores limitantes, como tão frequentemente já mostraram ser antes de 1800. Será que engenhosidade continuará a superar a escassez, ou não? Se a resposta for "sim", toda a humanidade pode vir a gozar do estilo de vida sem precedentes históricos das pessoas mais favorecidas dos dias atuais. Se a resposta for "não", podemos, em vez disso, sucumbir perante o que o professor Morris chama de os "cinco cavaleiros do apocalipse" - mudanças climáticas, fome, Estados falidos, migração e doenças. Além disso, mesmo se esses problemas forem possíveis de resolver, isso poderia exigir um nível de cooperação política muito maior do que o disponível. Isso é particularmente verdadeiro quando o crescimento econômico provoca externalidades mundiais, com as mudanças climáticas sendo o maior desafio do tipo. Isso não está sendo administrado. Os desenvolvimentos políticos ficaram para trás da realidade atual.

O mesmo vale para a política de poder. Agora que temos a capacidade de destruir a civilização, as relações entre Estados poderosos tornaram-se perigosas. Após o uso da bomba atômica, Albert Einstein argumentou que "a única salvação para a civilização e raça humana" estava "na criação de um governo mundial". Einstein foi condenado como ingênuo, mas seu comentário ainda pode ser verdadeiro.

A "grande convergência" é uma transformação que marca uma época. É a disseminação da economia de energia abundante para grande parte da humanidade. Mas se não administrarmos bem as consequentes pressões sobre os recursos, pode acabar em miséria; e se não administrarmos a transferência de poder, pode acabar em guerra. Uma das visões mais otimistas do professor Morris é que cada era é abastecida pelas ideias das quais necessita. Tendo em vista a velocidade da mudança, será que as ideias chegarão a tempo?

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* Why the West Rules - For now - (por que o Ocidente manda - por enquanto, em inglês) Profile Books, 2010.

** Perspectives on Global Development 2010: Shifting Wealth (perspectivas sobre o desenvolvimento global 2010: transferindo riqueza, em inglês) www.oecd.org

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT

Fonte: Valor Econômico