Artigos

Efeito anunciado da "obamafobia"

Muniz Sodré Publicado em 12.01.2011

Mesmo em meio à alegre agitação natalina e ao blizzard (tempestade de neve) que parecia soterrar Nova York, é marcante na mídia norte-americana a borrasca de ódio (não se trata de uma mera oposição política) dirigida ao presidente Barack Obama. Não há como interpretar de outro modo a síntese da campanha midiática e republicana contida no material de propaganda política do famigerado "Tea Party", em que um mapa dos Estados Unidos aparece pontilhado de desenhos de miras telescópicas assestadas contra os distritos dos congressistas democratas visados. Em outras imagens, a republicana Sarah Palin mira com um fuzil o símbolo do Partido Democrata.

O primeiro resultado violento do que se pode chamar de "obamafobia" aparece agora: o estudante Jared Lee Loughner (o nome "Lee" já é uma triste evocação...), de 22 anos, não precisou de mira telescópica, e sim, de uma pistola semiautomática Glock 19, para meter uma bala na cabeça da deputada democrata Gabrielle Giffords e iniciar o tiroteio que matou seis pessoas e feriu vinte outras.

Apesar do histórico psiquiátrico do atacante, não há como deixar de fazer a ligação entre a campanha "obamafóbica" e a virulência republicana do "Tea Party". Os observadores de imprensa registram que, desde a vitória da oposição nas eleições legislativas de novembro, os ataques ao governo recrudesceram em número e no tom de agressividade. Claro, esse pano de fundo oficial é o barril de pólvora político e psicossocial para "explosões" psicopáticas, como a de agora.

"O irmãozinho débil de Satã"

É muito mais do que isso, porém. Há quase um ano – mais precisamente em 3 de fevereiro de 2010 –, uma charge de Danziger, famoso caricaturista americano, resumia a situação de Obama frente à mídia extremista. No desenho, Osama bin Laden declarava: "É preciso derrotar Obama. Não há pior no mundo. Ele mente, rouba o nosso dinheiro; ele está cercado de criminosos de Wall Street; ele conduz o mundo à destruição. Se não for parado, milhões de americanos vão cair no endividamento, na escravidão e na destruição. Tudo isso é verdade, eu sei...Eu ouvi na televisão americana." Ao lado de Bin Laden, uma tela de TV onde aparecia em maiúsculas a palavra FOX com o slogan "Abaixo Obama!"

A FoxNews, como bem se sabe, é a joia do império midiático do magnata Rupert Murdoch. Situada politicamente à direita da direita, a rede televisiva é a grande mobilizadora da obamafobia, disposta a acolher em tempo quase integral os extremistas de toda natureza – de políticos conservadores a delirantes comuns –, para os quais o presidente da República encarna a imagem do "inimigo público número um", a velha imagem do criminoso popularizada pelos filmes de gangster, movimentados por tipos como Dillinger, Capone etc. Só que as "armas" supostamente ameaçadoras de Obama são coisas como "despesas públicas", "reforma da saúde", impostos etc.

Esse cenário televisivo é análogo a uma espécie de reality show da vida política, ou mesmo a uma telenovela, que catalisa os medos e as frustrações dos americanos médios em tempo de crise, em meio a um entorno social que muda rapidamente e vê abalados os valores tradicionais do universo branco. Este último, por sua vez, teme tornar-se minoritário num futuro próximo. Como em todo show, emergem os personagens suscetíveis de encarnar o espírito emergente, a exemplo do apresentador (jornalista?) Glenn Beck, de quem se disse ser "o tipo que diz em voz alta o que pensam as pessoas que não pensam".

O grande veículo de Beck é, na realidade, a rádio: cerca de 400 estações radiofônicas reproduzem os programas em que ele diaboliza Obama e o caracteriza como "Halfrican American" (americano pela metade), verbera contra os intelectuais de Nova York ou até mesmo contra Nelson Mandela, a quem tacha de "comunista". Beck, como disse o escritor de histórias de terror Stephen King, "é o irmãozinho um tanto débil de Satã".

O lodaçal ideológico

Numa nação onde o espaço público é totalmente recoberto pela mídia, a FoxNews e suas criaturas estabelecem a ponte diária entre a realidade virtual e um tipo de consciência coletiva marcado por uma tradição de bodes expiatórios públicos que remonta às bruxas de Salem, ao complô dos illuminati (tema que aumentou a fortuna do folhetinista Dan Brown), aos maçons, aos imigrantes católicos, aos judeus, aos comunistas etc. O bode expiatório (maiores detalhes no Levítico, Velho Testamento) é sempre um inimigo interno, um construto paranoico e eterna fonte irracional de temores.

Essa conjuntura político-midiática-social foi objeto de um alerta, há um ano, pelo jornal Le Monde. Desde então, leem-se aqui e ali artigos de sujeitos da consciência esclarecida sobre a maré montante do pior na vida americana sob o manto da obamafobia. É como se fosse um filme protagonizado por Jackass, aquele tipo capaz de mergulhar numa piscina cheia de bosta de elefante. Basta dizer que Bush emerge daí como um herói progressivamente popular, vendendo a rodo as suas memórias.

Há apenas dois anos, Obama empolgava o mundo como o primeiro presidente negro da América, como o blizzard abriria uma nova era, sepultando os anos medíocres de Bush-filho. Mas a neve, como bem se sabe, não demora a dar lugar à lama gélida que faz adoecerem os pés desprotegidos. Espera-se que consciência democrática saiba defender-se do violento lodaçal ideológico, midiático ou não, que ameaça a cidadania progressista da cabeça aos pés.

________________________________________________________

Fonte: Observatório da Imprensa