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A paisagem sonora do mundo de Dom Quixote

Eliana Cardoso Publicado em 10.01.2011

O mundo de Dom Quixote está povoado de sons. Das vozes dos animais. Do silêncio maravilhoso e insólito da noite. De incontáveis canções, madrigais e folias. E, sobretudo, da sonoridade do romance - o gênero musical dos trovadores que, na Idade Média, se compunha na língua do sul da França.

Quando Dom Quixote e Sancho chegaram ao município de Toboso, - media noche era por filo, poco más o menos... Estaba el pueblo en un sosegado silencio "No se oía en todo lugar sino ladridos de perros, que atronaban los oídos de Don Quijote y turbaban el corazón de Sancho. De cuando en cuando rebuznaba un jumento, gruñían puercos, mayaban gatos, cuyas voces, de diferentes sonidos, se aumentaban con el silencio de la noche..."

"Media noche era por filo

los gallos querían cantar

conde Claros con amores

no podía reposar."

Em seguida, um lavrador que madrugara aparece então cantando o romance: "Mala la hubiste, franceses,/ en esa de Roncesvalles".

Por toda parte se canta no Dom Quixote. Talvez por isso, mas também por outras mil razões, existe uma longa tradição de óperas, poemas sinfônicos e balés de temas quixotescos:

- Em 1591, um cantor da corte de Felipe II harmonizou uma ode de Cervantes: "Dulce Esperanza Mia", que aparece na boca de um "mozo de mulas" no Quixote.

- Em 1614, antes mesmo da publicação da segunda parte da obra de Cervantes, estreou em Paris o "Ballet de Don Quixotte".

- No século seguinte, Telemann se baseou no personagem para escrever uma suíte.

- Philidor compôs a ópera "Sancho Panza dans Son Île" e Salieri sua "Don Quichotte de la Manche"

- Felix Mendelssohn criou a ópera cômica "O Casamento de Camacho", com base num episódio do livro que descreve como Quitéria e seu amante Basílio tentam evitar o casamento arranjado para ela com o rico Camacho.

- Manuel de Falla usa outro episódio na ópera de câmera para marionetes, "El Retablo de Maese Pedro".

- Richard Strauss imita o balido de ovelhas no seu poema sinfônico "Dom Quixote".

Essa tradição culmina com "Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha: Romances y Músicas", gravado em "La Capella Reial de Catalunya" (Alia Vox, 2005), sob a direção de Jordi Savall. (1)

Descobri a gravação por acaso. Na Sala São Paulo, em dezembro, a fila de espera para conseguir o autógrafo de Nelson Freire era longa. Conversa vai, conversa vem, o senhor à minha frente acabou por me recomendar os CDs da Capela da Catalunha. Hoje devo agradecer ao senhor desconhecido pela melhor dica do ano que se foi.

Por trás da apresentação dos romances e músicas do mundo de Dom Quixote está o trabalho de pesquisadores como Emilio Cotardo y Mori (Madrid, 1911), Adolfo Salazar (México, 1948), Miguel Querol Gavaldá (Barcelona, 1948) e Francisco Rico e Paloma Diaz-Mas, nos dias que correm. Jordi Savall selecionou os textos e as músicas. As vozes de Montserrat Figueras, Arianna Savall, Lambert Climent, Lluis Vilamajó, Furio Zanasi e Jordi Ricart são belíssimas.

Romance - em português e espanhol, mas "ballad" em inglês, e "chanson" em francês - é um poema narrativo, com linhas de oito sílabas e rima assonante nos versos pares. Poesia para cantar, o romance foi grande moda na época de Cervantes. Considerado vulgar até o século XV, a partir de 1580 passou a ser composto por autores como Lope de Vega e Góngora.

O Quixote está repleto deles, como, por exemplo, o do pranto que Belerma entoa por ocasião da morte de Durandarte. Naquele episódio, Montesinos aparece a Quixote e lhe conta como Durandarte morrera em seus braços: "[...] después de muerto le saqué el corazón con mis propias manos, lo limpié con un pañizuelo de puntas, eché le un poco de sal porque no oliese mal y fuese, si no fresco, a lo menos amojamado, y partí con él de carrera para Francia a la presencia de la señora Belerma […]". Ela agradece o presente cantando o romance em que observa que "o coração que foi meu, justo é que retorne a minhas mãos".

Também não se consegue esquecer o romance carolíngio de Moriana y Galván com seus versos famosos: "Mis arreos son las armas / mi descanso el pelear..."

Paloma Díaz-Mas, no texto "Romances en las Músicas del Quijote" (que aparece no livro que acompanha a gravação de 2005 sob a direção de Jordi Savall), relata que os críticos divergem sobre o que Cervantes pensava acerca dos romances. Menéndez Pidal acredita que a inserção deles na obra demonstra admiração pelo gênero. Maxime Chevalier, ao contrário, argumenta que os romances só aparecem em bocas de camponeses, idiotas e loucos, indicando desprezo do autor pelo gênero. Mas a verdade é que Cervantes não apenas usou os romances que sabia de cor e cantava, como também compôs romances novos para o Quixote e mais outros dos quais fez uso em obras distintas.

Incluído na gravação está o breve e belíssimo romance, "Marinero Soy de Amor". Ali, a alma, cuidadosa e com descuido, navega confusa e sem esperança de chegar a algum porto. No livro, Cervantes observa: "Nadie podía imaginar quién era la persona que tan bien cantaba, y era uma voz sola, sin que la acompañase instrumento alguno". No disco, o canto de Ferran Savall, a capella, encanta o ouvinte.

"Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha: Romances y Músicas" começa e termina com o elogio da loucura. O disco I abre-se com uma fanfarra instrumental anônima. A voz do narrador descreve o fidalgo que passava as noites a ler - de claro en claro, y los días de turbio en turbio; y así, del poco dormir y del mucho leer, se le secó el cerebro de manera que vino a perder el juicio”. E em seguida ouve-se a folia de Du Bally:

"Yo soy la locura

la que sola infundo

placer y dulzura

y contento al mundo".

Como as coisas humanas não são eternas "y como la de Don Quijote no tuviese privilegio del cielo para detener el curso de la suya, llegó su fin y acabamiento cuando él menos lo pensaba".

Nas últimas faixas do segundo disco, Dom Quixote recebe os sacramentos, repudia os livros de cavalaria e morre. "La Capella Reial de Catalunya" canta o réquiem "Lacrimosa Dies Illa" e a voz clara do narrador lê o epitáfio:

"Yace aquí el hidalgo fuerte

[...]

que la muerte no triunfó

de su vida con su muerte.

Tuvo a todo el mundo en poco

fue el espantajo y el coco

del mundo, en tal coyuntura,

que acreditó su ventura

morir cuerdo y vivir loco".

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Nota:

(1) Trechos da gravação disponíveis em vídeos do "Youtube" incluem:

"Yo Soy la Locura": http://www.youtube.com/watch?v=MVh4UCD89QQ&sns=em

"Media Noche Era por Filo": http://www.youtube.com/watch?v=iyq0fqJCjPg&sns=em

"Mala la Hubiste, Franceses": http://www.youtube.com/watch?v=C3nYROZ9TrM&sns=em

"Marinero Soy de Amor": http://www.youtube.com/watch?v=Lovji_gIjrA e http://www.youtube.com/watch?v=ny0ccX-QL68&sns=em

Eliana Cardoso, economista, escreve semanalmente neste espaço, alternando resenhas literárias (Ponto e Vírgula) e assuntos variados (Caleidoscópio).

www.elianacardoso.com

Fonte: Valor Econômico