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Mercados insaciáveis

Juan Torres López Publicado em 07.10.2010

Desde há meses, os mercados vêm utilizando o poder que lhes dá a sua pressão especulativa sobre a dívida dos estados para impor aos governos as medidas que melhor convêm às grandes empresas e à banca.


PorInsaciáveis. Assim Lina Gálvez qualifica os mercados, com razão, neste artigo no qual explica que não é possível alguém defender-se de chantagistas cumprindo as suas exigências – como faz o governo.

Desde há meses, os mercados vêm utilizando o poder que lhes dá a sua pressão especulativa sobre a dívida dos estados para impor aos governos as medidas que melhor convêm às grandes empresas e à banca.

Trata-se de uma extorsão bastante evidente a que alguns governos, como o espanhol, estão enfrentando com tanto de impudor como de candura. Em lugar de utilizar as alavancas do seu poder representativo e soberano e em lugar de falar claro à cidadania para que esta por sua vez fale claro aos especuladores, os governos empenham-se em fazer frente à chantagem cedendo às suas exigências, acreditando que sairão da dificuldade aceitando suas condições. Um comportamento ingénuo porque os mercados, como todos os chantagistas, são insaciáveis e acabámos de ter boas provas disso.

O governo espanhol fez os deveres que lhe foram impostos, tomou as medidas mais duras contra os direitos laborais da nossa democracia, realizou um tremendo corte dos gastos públicos e acaba de aprovar um projecto de orçamento que nem a direita mais neoliberal teria atrevido a por em marcha. O próprio presidente do governo tomou há pouco o pequeno-almoço em Nova York com as versões em carne e osso desses mercados. Zapatero compartilhou mesa e toalha com as grandes finanças representadas pelo Citigroup, Morgan Stanley ou Goldman Sachs e almoçou também com um dos seus porta-vozes, os editorialistas de The Wall Street Journal para lhes confirmar, imagino, que o seu governo estava a adoptar uma a uma as medidas que lhes vinham exigindo.

Pois bem, só uns dias depois do pequeno-almoço do presidente e das suas últimas e impressionantes medidas neoliberais, a agência Moodys rebaixava o valor da dívida espanhola e o Wall Street Journal, que pertence ao grupo News Corporation do qual Aznar é conselheiro, editava um vídeo de uns 15 minutos sobre a crise económica na Espanha onde se colocava a incógnita de saber se a Espanha é um país demasiado pequeno para deixá-lo cair, tipo Grécia, ou demasiado grande para não deixá-lo cair. Um vídeo que pode ser visto na Internet, no qual aproximadamente a metade do tempo é dedicada a mostrar imagens dos Sanfermines [NT] , de bailarinos de flamengo na rua e de festas de todo tipo para vir dizer que os espanhóis são uns vagabundos que não querem trabalhar e cuja única aspiração é viver da teta do Estado.

Como se estar em greve fosse umas autênticas férias com todas as despesas pagas. Quando a ministra da Economia apresentou o projecto de Orçamento afirmou que este “nos defende dos mercados” mostrando que a ingenuidade deste governo não tem cura. Nem o pequeno-almoço de Zapatero, nem suas medidas de austeridade e liberalização servem de grande coisa frente aos mercados e seus representantes de carne e osso porque são insaciáveis. Assim como não se vence um chantagista aceitando suas exigências, porque sempre irá querer mais, não se pode vencer a pressão imoral dos mercados especulativos consentindo que imponham suas condições aos governos.

Zapatero e aqueles que hoje dirigem a União Europeia equivocam-se porque estão a deixá-los fazer o que quiserem, contra o que afirmavam há apenas dois anos doze ex-dirigentes social-democratas europeus no título de uma carta conjunta ao então presidente da Comissão Europeia e que deveria converter-se no grito de guerra democrática dos nossos povos: “Os mercados financeiros não nos podem governar”.

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[NT] Festa anual na cidade de Pamplona.

O original encontra-se em

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