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Os verdes e a depuração democrática

Paulo Abrão Pires Junior Publicado em 07.10.2010

Ao largo da polarização entre as hegemonias políticas e partidárias construídas pelo PT e o PSDB, assentada nas últimas 4 eleições nacionais, o primeiro turno das eleições democráticas de 2010 traz dois episódios que merecem ser discutidos.

O primeiro deles é o da profusão em escala do “discurso verde”. Por meio do prestígio de uma candidata oriunda da camada popular e com uma história de vida moldada pela idéia da superação pessoal, o PV, sem estrutura partidária para tanto, conquistou votos e apoio de amplos e diversificados setores sociais e colocou-se como agente protagonista capaz de ter influência ,o tempo dirá em qual medida, no resultado eleitoral presidencial.

Certamente que parte da votação em Marina é resultante de sua escolha religiosa evangélica e outra parte é pertencente a algum descontentamento com a polarização PT-PSDB. De outro lado, o discurso verde, como argumento político, pode ter-se constituído em força política e eleitoral ao verbalizar-se e sintetizar-se em uma liderança popular identificada com a causa. Com quase 20 milhões de eleitores, resta saber o quanto da expressiva votação em Marina da Silva é fruto de uma efetiva adesão ao ideário verde e, a partir daí, poder vislumbrar o efetivo surgimento desta nova variável na política brasileira. Seria o pensamento verde um novo centro entre os dois partidos de situação e oposição hegemônicos? Estamos diante do surgimento de uma terceira força que pouco a pouco conseguirá consolidar uma base social própria? Será o PV apenas um ator eleitoral em nível nacional ou terá capacidade de capilarizar-se localmente? Vale lembrar que os partidos verdes europeus já foram determinantes para a composição de maiorias políticas em governos de esquerda e de direita. A social democracia alemã governou quase uma década em aliança com os verdes contra a centro-direita conservadora. Já hoje, por lá, os verdes estão fechados com os conservadores.

Disputar o apoio formal dos verdes neste momento no Brasil e forçá-los a se posicionar em relação aos dois projetos de poder hegemônicos pode ser relevante não apenas para a definição pragmática eleitoral, mas também para um lineamento estratégico com olhos voltados para frente com este capital político que apregoa a factibilidade da união entre o desenvolvimento econômico e a proteção ambiental e, por isso, agrega a simpatia da juventude que anseia por um “contrato natural” transgeracional em nome das condições de qualidade de vida no futuro. Agregar uma agenda ambiental aos seus programas de governos, de modo convincente para a classe média lustrada é uma tarefa que parece se apresentar a Dilma e Serra. Levar a sério e tornar esta agenda ambiental realidade no governo seria uma estratégia inteligente com vistas a uma disputa efetiva do voto verde e a uma diminuição da potência do fator Marina nas eleições de 2014.

Outro fenômeno não menos relevante destas eleições é o da aceleração do processo de depuração democrática que tem extirpado gradualmente da política os antigos algozes da democracia e defensores dos sombrios anos do regime autoritário de 64-85. A ex-ARENA, como partido de sustentação da ditadura, transmutada em ex-PDS, ex-PFL e atual DEMOCRATAS (sic) reduz-se a um partido que sai de 65 para 43 deputados na câmara federal e de 13 para 7 senadores. O governo do PSDB, ao aliar-se com o PFL, deu sobrevida a inúmeros políticos arenistas no período pós-redemocratização. Isso ocorreu especialmente no Senado onde a renovação é necessariamente mais lenta. As eleições 2010 reposicionam os golpistas ao espectro que deve lhes caber: a de uma “minoria cada vez mais minoritária”. Somente uma eventual vitória Serrista no segundo turno poderá ser capaz de ressuscitar parte destes defuntos ou injetar vitamina nos que ainda estão se arrastam e dependuram-se nas hostes estatais.

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Fonte: Sul21