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Venezuela: “todas as más noticias o tempo todo”

Mark Weisbrot Publicado em 20.09.2010

Os meios de comunicação dos Estados Unidos nunca foram tão monolíticos como no caso da Venezuela. É a cobertura completa de apenas um dos lados da história.

A maioria dos meios de comunicação é pouco crítica quando o governo dos Estados Unidos realiza uma campanha intensa de relações públicas em torno da sua política externa. Mas nunca foram tão monolíticos como no caso da Venezuela. Mesmo nas vésperas da guerra do Iraque, houve um número significativo de jornalistas e editorialistas que não compraram a historia oficial. No caso da Venezuela, a imprensa parece um júri de doze pessoas, mas um único cérebro.

Assim que a oposição venezuelana decidiu basear a sua campanha eleitoral de Setembro no alto índice de homicídios no país, a imprensa internacional foi inundada com artigos sobre este tema – alguns altamente exagerados. Trata-se de um resultado surpreendente das relações públicas. Embora a maioria dos meios de comunicação venezuelanos, medida pela audiência, ainda pertença à oposição política no país, não é o mesmo com a imprensa internacional. Para que se desenrole uma campanha de imprensa desta magnitude, é normalmente necessário algum “gancho” jornalístico: um crime marcante, um número redondo de homicídios atingido ou uma declaração política da Casa Branca. Neste caso, bastou uma decisão tomada por parte da oposição e a imprensa internacional já estava toda sobre o tema.

O mote “todas as más noticias o tempo todo” foi esmagadoramente dominante, mesmo durante a expansão económica histórica da Venezuela, de 2003 até 2008. A economia cresceu como nunca, a pobreza diminui a mais da metade e houve grandes conquistas na taxa de emprego. O gasto real do Estado por pessoa mais que triplicou, e o atendimento médico gratuito estendeu-se a milhões. Teríamos de buscar muito para encontrar estes dados básicos apresentados como tal em algum artigo da imprensa corrente, embora os números não sejam questionados pelos economistas das organizações internacionais que trabalham com as estatísticas.

Por exemplo: em Maio, a Comissão Económica da ONU na América Latina (CEPAL), descobriu que a Venezuela reduziu a desigualdade mais que qualquer outro país na América Latina, entre 2002 e 2008, alcançando a distribuição de rendimentos mais equitativa na região. Este dado também não foi mencionado na imprensa internacional mainstream.

A Venezuela entrou em recessão em 2009, e o facto recebeu atenção incomparavelmente maior do que o facto de o país crescido mais que qualquer outra das Américas, no período anterior. Em Janeiro desse ano, o governo desvalorizou a moeda, e a imprensa estava a prever um grande aumento na inflação, até uns 60% para este ano. “Estagflação” – a recessão junto com uma crescente inflação – acabou por se tornar uma palavra recorrente.

A inflação “fora de controle” nunca chegou. As taxas dos últimos três meses, anualizadas, estão em 21%, consideravelmente mais baixas que antes da desvalorização. Esta realidade é outro indicador de que os economistas em quem se apoiava a imprensa têm um conhecimento limitado do verdadeiro funcionamento da economia venezuelana.

Agora, parece que a Venezuela começou a emergir da recessão, no segundo trimestre deste ano. Em bases anualizadas, e já ajustadas sazonalmente, a economia cresceu 5,2% no segundo trimestre. Em Junho, o Morgan Stanley previra que a economia se contrairia 6,2% neste ano e 1,2% no ano seguinte. O FMI (Fundo Monetário Internacional) está a prever uma situação de penumbra e perdas de longo prazo para o país, com um crescimento negativo do PIB per capita durante os próximos cinco anos. É digno de nota que, durante o período de crescimento rápido, o FMI fez concorrência aos escritores de ficção, com as suas previsões repetidamente desmentidas pelos factos e inteiramente fora do contexto da economia venezuelana.

É possível que tudo isto pareça normal, se lembrarmos que a grande maioria dos meios de comunicação não conseguiu prever, há três anos, a crise global provocada pela maior bolha de activos da história. No entanto, houve excepções notáveis (por exemplo, o New York Times, em 2006). Com a Venezuela – bem, pode-se imaginar.

Claro que não se pode garantir que o crescimento venezuelano continue – dependerá do governo assumir o compromisso de manter altos níveis de procura agregada, e garantir que elas continuem assim. Nesse sentido, a situação é parecida com a dos Estados Unidos e da União Europeia, entre várias economias desenvolvidas que neste momento sofrem uma recuperação lenta e incerta.

A Venezuela mantém reservas de divisas adequadas, tem um superávit comercial e em conta corrente, está pouco endividada no exterior e tem forte capacidade de obter empréstimos estrangeiros, se preciso. Isso ficou demonstrado ainda há pouco, em Abril deste ano, com um crédito de 20 mil milhões da China (aproximadamente 6% do PIB venezuelano). É extremamente improvável que a Venezuela enfrente uma escassez de moeda estrangeira. Por isso, pode recorrer aos investimentos públicos para garantir que economia cresça o suficiente para elevar as taxas de emprego e o padrão de vida. (O governo norte-americano poderia fazer o mesmo, até com mais facilidade – mas uma atitude assim não parece estar na sua lista de prioridades, neste momento).

Haja o que houver, podemos esperar dos meios de comunicação a cobertura completa de apenas um dos lados da história. Portanto, mantenha algo em mente: se quiser informação equilibrada sobre a Venezuela, terá que procurá-la na Internet.

Mark Weisbrot é co-director do Center for Economic and Policy Research (CEPR), em Washington, DC. Doutorou-se em Economia pela Universidade de Michigan. Escreveu numerosos artigos de investigação sobre política económica. É também, presidente da organização Política Externa Justa (Just Foreign Policy) e co-escritor do documentário mais recente de Oliver Stone, South of the Border [Ao Sul da fronteira].

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Tradução: Cauê Seigne Ameni

Fonte: The Guardian, no Envolverde Esquerda.net