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Honduras depois do golpe: o “paraíso” dos narcotraficantes

Marco Antonio Martínez García Publicado em 08.09.2010

Se depois das declarações de António Maria Costa, Director Executivo do Gabinete das Nações Unidas para a Droga e a Criminalidade (UNODC), ninguém pode alegar a sua ignorância de que muitos empréstimos entre bancos assentam em lavagem de dinheiro da droga (ver em http://www.odiario.info/?p=1695, «Wall Street lava o dinheiro do narcotráfico impunemente»), com este texto ficamos a saber que não é só na Colômbia e no Afeganistão que a produção e comércio de droga aumenta com a ocupação norte-americana. Também, depois do golpe de Estado instigado pelos EUA, já na administração Obama, as Honduras se estão a transformar no paraíso dos capos dos cartéis da droga mexicanos…

Decretada há três anos a guerra contra o narcotráfico com a chegada de Felipe Calderón à presidência, a preocupação na região é por os narcotraficantes mexicanos estarem a estender as suas redes de tráfico e consumo à América Central e lavarem aí o seu rasto de corrupção, violência e morte. A dita presença será o prelúdio da transferência de uma estratégia semelhante à mexicana, militarizada e com constantes queixas de violações dos direitos humanos ao território da América Central, como já alertaram vários presidentes da região.

A violência já está presente na região e está relacionada com o narcotráfico. A Organização das Nações Unidas no seu Relatório Mundial sobre Drogas 2010 disse que em Salvador, Honduras, Guatemala e Belice as taxas de homicídio são três a cinco vezes mais altas que no México.

As Honduras registaram em 2008 a mais alta taxa de homicídios da região. Por cada 100 mil habitantes cometeram-se 60, 9 crimes; Salvador registou 51,8 homicídios e a Guatemala 49, enquanto no México se registaram 11,6 neste mesmo ano.

«A região mais afectada hoje em dia é o Triângulo Norte da América Central: Guatemala, Honduras, e Salvador. Aí, a intensa violência gerada pelas drogas colocou um grave problema à governação», alerta o resumen executivo do mesmo documento da ONU.

Os antecedentes

Se bem que a presença dos narcotraficantes na América Central seja de há décadas, já que desde os anos oitenta do século passado era usada como rota de transferência, agora regista mais tráfico e maior presença dos narcotraficantes mexicanos.

Desde a época do capo colombiano Pablo Escobar, nos anos oitenta do século passado a América Central começou a ser usada para o transporte de drogas. Os cartéis colombianos enviavam de maneira directa a mercadoria, ou empregavam narcotraficantes mexicanos, para a fazer chegar aos Estados Unidos, então o principal mercado de cocaína.

Situada entre a América do Sul e a do Norte, a América Central ficava na passagem entre a Colômbia e os Estados Unidos. Porém, nessa época os colombianos preferiam o Caribe para transportar a sua mercadoria, e só com o crescimento dos narcotraficantes nos anos noventa a América Central começou a ser usada maioritariamente, segundo o relatório Crime e desenvolvimento na América Central, do Departamento contra o Crime e o Delito da ONU, publicado em 2007.

Os colombianos chegaram a usar aeroportos centro-americanos, quer civis quer militares, para transportar cocaína. As Honduras foram frequentemente utilizadas, de acordo com várias fontes. O especialista colombiano Eduardo Correa assegura a El Programa de las Américas que a base militar de Palmerola [1], nas Honduras, foi usada para esses fins nos tempos de Pablo Escobar, durante os anos oitenta.

Alberto Santana no seu livro O Narcotráfico na América Latina, diz que nas décadas de setenta e oitenta (entre 1978 e 1982 este país da América Central foi governado por militares) as Honduras converteram-se num aliado dos Estados Unidos contra o comunismo na região. Assevera que os EUA toleraram o narcotráfico, fomentado desde a cúpula militar que governava as Honduras. O autor cita o relatório «O Narcotráfico nas Honduras 1982-1988» do Centro de Documentação das Honduras, segundo o qual entre 1982 e 1987 o narcotráfico mobilizou mil milhões de dólares no país.

Por esta mesma situação de colaborar com o narcotráfico na América Central, o único governo investigado e sujeito a juízo por cumplicidade foi o encabeçado pelo ex-presidente do Panamá Manuel António Noriega, que foi julgado em França [2]. De acordo com a informação publicada em 29 de Junho no diário Reforma, o general acordou nos anos oitenta com o cartel de Medellin, encabeçado por Escobar, que aviões carregados de droga voassem pelo Canadá sem dificuldades. Em 7 de Junho deste ano a justiça francesa condenou o general a sete anos de prisão por lavagem de dinheiro, informou o mesmo diário.

Com o desmantelamento das grandes organizações colombianas nos anos noventa do século passado, um maior controlo do espaço aéreo das rotas usadas pelos colombianos rumo aos Estados Unidos e o começo de uma cada vez maior participação dos narcotraficantes mexicanos na trasfega e venda de droga, as formas de transporte e as rotas alteraram-se. A droga começou a ser também transportada por mar e terra.

De acordo com o documento Crime e desenvolvimento no Centro américa, em 1999, os fluxos através da América Central/México eram de 54%, enquanto as remessas pelo Caribe eram de 43% e unicamente 3% chegou directamente da América do Sul.

Um ano depois as remessas pela América Central subiram para 66% e as do Caribe desceram para 33%. Em 2003 a transfega aumentou para 77% pela via América Central e 22% pela via Caribe.

Nos últimos anos, a América Central não só é usada para o transporte, mas também é vista pelos narcotraficantes mexicanos como zona de descanso e que evita a perseguição das autoridades mexicanas que lhes declararam guerra em 2006. Além disso, os capos mexicanos procuram a América Central para expansão a novas redes de tra´fico e consumo. É o caso das Honduras.

A “Chapo” agrada-lhe as Honduras

Um dos países assinalados com a presença de narcotraficantes mexicanos é as Honduras, em cujo território se viu um dos mais famosos do mundo.

Fontes oficiais advertiram sobre a presença do capo mais procurado do México, Joaquín “El Chapo” Guzman, chefe do cartel de Sinaloa, que em 2001 fugiu da prisão de alta segurança de Puente Grande, no Estado mexicano de Jalisco, não mais tendo voltado a ser preso.

Em 23 de Fevereiro deste ano o ministro da Segurança do país centro-americano, Oscar Álvarez, disse numa entrevista radiofónica à Rádio Fórmula que tinha sido detectada a presença do narcotraficante mexicano.

O político hondurenho confirmou a presença do chefe do cartel de Sinaloa no país, dizendo que a sua estadia era intermitente, para descansar, e que dias antes tinha estado numa festa numa zona conhecida como «El paraíso», onde tinha organizado uma abrilhantada por grupos musicais mexicanos.

Álvarez negou a permanência de Guzman no seu país. No entanto, na sua qualidade de ex-ministro que ocupou o cargo entre 2002 e 2006, no mandato de Ricardo Maduro, advertiu que desde então já tinham sido detectadas visitas de narcotraficantes mexicanos e colombianos ao seu país.

A presença de «el Chapo» e o assassínio do czar antidrogas das Honduras, Julián Arístides, registaram-se depois do golpe de Estado contra Manuel Zelaya, deposto por militares em Junho do ano passado. Em 8 de Dezembro de 2009, Arístide foi baleado a partir de uma motocicleta, quando ia no seu carro.

Mais de seis meses depois do homicídio, em 16 de Junho, Álvarez esclareceu o caso e informou que por trás da morte do Procurador da República estava o narcotraficante hondurenho Héctor Amador Portillo, alcunhado de «el Gato Negro». O móbil do crime foi o descobrimento de Arístides de uma pista clandestina dirigida por Portillo em Olancho, acrescentou Álvarez, de acordo com o diário La Tribuna.

Sicários à ordem do narcotraficante hondurenho e contratados pelos seus parceiros mexicanos do cartel de Sinaloa, foram os que tiraram a vida ao Procurador da República, acrescentou Álvarez.

O criminoso já não pôde responder às acusações de Álvarez: «el Gato Negro foi encontrado morto em Abril passado, com sinais de ter sido torturado, tal como sete membros do seu grupo.

Álvarez disse que «el gato negro» tinha sido contactado por «Chapo» Guzman e deu mais informações sobre as actividades do cartel mexicano no seu país.

«Eles (o cartel de Sinaloa) não se limitam a transportar drogas para os Estados Unidos, mas também a organizar redes de distribuição na Guatemala, Salvador, Honduras e outros países da América Central, disse o ministro da Segurança hondurenho.

De facto, segundo a agência Notimex, citada pelo jornal mexicano Él Financiero, Alvarez disse que «Chapo» Guzman tinha entrado e saído das Honduras em diversas ocasiões, via Guatemala.

Apesar das Honduras registarem significativamente menos prisões de narcotraficantes que o México – o país centro-americano atinge as seis por cada 100 mil habitantes, enquanto o México chega às 22 – os hondurenhos estão, no entanto acima da Guatemala, regista 2 prisões, de acordo com o Relatório Mundial sobre Drogas de 2010.

As «narco-avionetas»

Sobre a transfega de drogas, o próprio ministro da Segurança das Honduras disse que as autoridades do país têm dados das apreensões de avionetas que sobrevoavam o seu território em direcção ao México, para abastecer tanto o cartel de Sinaloa, de Guzman, como o do Golfo, comandado por Ezequiel Cardenas Guillén e recentemente separado do grupo armado dos Zetas.

O registo de avionetas que transportavam drogas aumentou consideravelmente desde há cinco anos. Em 2005 não se registaram casos nas Honduras , em 2006 um só, e em 2007 e 2008 quatro «narco-avionetas» em cada ano, informou El Heraldo. Álvarez afirma que «Aumentou a transferência de droga no nosso país, em 2009 voaram muitas avionetas com mais de 100 toneladas de cocaína da América do Sul para os EUA…», número também citado pelo comissário dos Direitos Humanos, Ramón Custodio.

De acordo com relatórios anuais do Ministério Público, em 2005 apreenderam-se 55 quilogramas, 2.714 em 2006, 1.704 em 2007, 6.764 em 2008 e em 2009 contabilizaram-se 6.655 quilogramas. Mais do que êxitos dos agentes antinarcóticos, as apreensões aconteceram porque as avionetas explodiram ou estatelaram-se em solo hondurenho, disse o diário, ainda que sem citar fontes.

Em 22 de Julho de 2010 detectou-se outra aeronave em Brus Laguna, departamento de Gracias a Dios, informou o diário La Tribuna das Honduras, que afirmou terem-se caído, em três anos, 30 narco-avionetas em diferentes pontos do Atlântico, o que denota que os dados são contraditórios entre as diferentes fontes.

Segundo o relatório mundial sobre Drogas de 2010, o facto de as Honduras terem a mais alta taxa de assassínios na região, pode estar relacionado com a crescente utilização do território hondurenho por aviões carregados de droga.

Consumo em alta

O Relatório Mundial diz que outro problema é o aumento de consumidores de droga na América Central, num número que oscila entre os 120 mil e os 140 mil. O documento informa que até 2005 nas Honduras, 15% da população consumia opiáceos, nove por cento cocaína, oito por cento cannabis e a mesma percentagem anfetaminas.

A presença dos narcóticos converteu-se numa ameaça de tal grandeza na América Central que a ONU fez uma chamada de atenção. Em 26 de Junho, numa mensagem difundida a propósito do Dia Internacional da Luta contra o Uso Indevido e o Tráfico de Drogas, a Organização das Nações Unidas expressou num boletim a sua preocupação porque em certas zonas da África Ocidental e América Central «o tráfico de drogas pode ameaçar a segurança dos Estados e inclusive a sua soberania».

Afundada numa crise de legitimidade, sem o reconhecimento diplomático de muitos países da região, e frente a um aumento notável da presença do narcotráfico, as Honduras não está excluída da advertência.

N. do T.:
[1] Foi igualmente na base Palmerola, sede do Comando da Força Aérea hondurenha, que se instalou o comando do golpe de Estado nas Honduras que afastou o presidente Manuel Zelaya, executando a decisão tomada em reuniões na embaixada dos EUA em Tegucigalpa, entre os golpistas e o embaixador norte-americano Hugo Llorens.
[2] O general panamenho Manuel António Noriega foi um protegido de Washington até reivindicar para o Panamá a soberania do canal, que estava sob jurisdição norte-americana. Então, tornou-se público o que há muito se sabia, a ligação do general ao narcotráfico, e Noriega foi capturado e levado para os EUA, onde foi condenado a vários anos de cadeia. Recentemente foi libertado nos EUA e enviado para França para cumprir pena por lavagem de dinheiro.

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Jornalista, é colaborador habitual do Programa de las Américas

Este texto foi publicado em

www.cipamericas.org/es/archives/2845

Fonte: ODiario.info

Tradução de José Paulo Gascão