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China desacelera, Ocidente se apavora

Lee Wong Publicado em 31.08.2010

Marcha das importações no país dos dragões registra queda de demanda.

Por quanto tempo ainda o florescimento econômico da China sustentará as hipotônicas economias dos EUA e da Ásia? Esta é pergunta que tortura especialistas e os estados-maiores econômicos dos governos em ambas as margens do Oceano Atlântico.

No momento em que, segundo Joseph Stiglitz, “o anêmico crescimento econômico dos EUA” confirma-se pelos números e na Europa o único país que apresenta sinais de restabelecimento pela crise é a Alemanha. O que acontecerá se a China tirar um pouco o pé do acelerados e frear o crescimento de sua economia que corre sem limites nos últimos anos?

De acordo com dados oficiais do governo chinês, a marcha das importações apresenta indícios de queda da demanda doméstica. Isto, aliás, busca conseguir, em parte, também o governo de Beijing, preocupado com que a galopante expansão do mercado da casa própria, talvez, crie bolha no mercado de imóveis, assim como tendências inflacionárias no total da economia.

O governo de Wen Jiabao mostra que compreende, perfeitamente, os riscos e já não defende (mais) o crescimento a qualquer custo. O Banco do Povo da China (Banco Central) diz que a flexibilização da paridade do iuan contra o dólar norte-americano, a decretação de restrições para a compra de casa própria, assim como o comunicado da semana passada sobre o encerramento das atividades de 2 mil empresas por causa de super emissão de gases poluentes constituem indiscutivelmente postura responsável.

Só que agora a desaceleração da máquina chinesa transfere a preocupação (para o crescimento) ao resto do mundo. Os número – neste caso – revelam a verdade. De acordo com os últimos dados estratísticos do Ministério de Economia da China, a atividade industrial apresentou mês passado a menor evolução mensal desde ano passado.

No mesmo mês, as exportações dos produtos chineses aumentaram em 38,1% em relação com o mês de julho do ano passado, enquanto, as importações registraram aumento anual em 22,7%. O fato de que, há um mês, o aumento das importações superava 34% considera-se sinal precoce de redução do consumo a curto prazo.

Preços param de subir

Evolução esta que, de acordo com o Ministério de Economia, deve-se às medidas que o governo adotou desde abril deste ano com objetivo de aplicar “freio e brida” ao velozmente crescente mercado da casa própria.

As medidas destinam-se a restrição do endividamento para aquisição de segunda casa, com a exigência de pagamento de uma taxa elevada para a liberação de empréstimo habitacional, assim como na redução do financiamento de obras em geral. As medidas já começaram a dar frutos, enquanto os preços dos imóveis situados em centros urbanos têm sido estabilizados no último trimestre. Contudo mantêm-se mais caros em 10% em relação ao ano passado.

Também há duas semanas, o Banco do Povo da China anunciou que continuará com a política de “flexibilização contida” que está seguindo nos últimos tempos em relação com a paridade do iene contra o dólar norte-americano, destacando que sua “política econômica continuará sendo flexível e de fôlego longo”, refletindo – por um lado – seus temores de disseminação dos problemas norte-americanos e europeus no país e, por outro, a preocupação que provoca a incontida expansão do setor de construção civil.

Seja lá como for, a China é, indiscutivelmente, a locomotiva da economia mundial. Com base no Produto Interno Bruto (PIB), superou há pouco até o Japão (após ter deixado para trás há alguns anos Alemanha, Grã-Bretanha e França) e já mostra a cobiça de destronar os EUA da primazia mundial já na próxima década.

Não se trata de objetivo arrogante, considerando seu ritmo anual de crescimento, o qual corre firmemente com média de 9% nos últimos 30 anos. Porém, os fundamentos já não são mais os mesmos. A economia mundial atravessa a maior crise econômica após a Segunda Guerra Mundial e isto significa que não poderá manter a produção contínua de produtos (mesmo baratos) das fábricas chinesas.

Greves fazem bem

É indicativo que mês passado as exportações de produtos chineses para a União Européia e EUA registraram aumento (em relação com junho do ano passado) em 40%, sinalizando que será mais lógico a locomotiva chinesa frear, de alguma forma.

Com o desemprego na Europa e EUA superando o fatídico degrau de 10% e com o “vírus da frugalidade” disseminando-se na maioria das economias européias, os possíveis compradores de seus produtos não só se reduzem, mas tornam-se ainda mais “mãos fechadas”.

Contudo, enquanto, os consumidores europeus se contraem, o mercado chinês continua (apesar das previsões de analistas ocidentais “conveniados”) se expandindo. Não se trata, obviamente, de aumento demográfico porque aqui, na China, a política de um filho para cada casal é aplicada ao pé da letra pelo governo de Beijing.

E conforme a maioria dos trabalhadores na indústria descobre a força da greve, graças à qual consegue aumentos salariais de 30% e até 45%, então automaticamente cresce o poder aquisitivo e, consequentemente, a demanda por produtos também cresce. Sob este ponto de vista, os generosos aumentos salariais dos trabalhadores chineses favorecem não só estes, mas, também, seus empregadores.

Outro aspecto a ser considerado são os usuários da Internet no território chinês, que são superiores em número aos da margem oposta do Oceano Pacífico. Entretanto, estas vantagens todas dizem respeito às grandes indústrias domésticas e multinacionais que se favorecem do aumento de renda de numerosa mão-de-obra.

Mas, também, as pequenas empresas de transformação sofrem. Em sintonia, aliás, com a gradual valorização da moeda nacional, seu custo operacional aumenta perigosamente, enquanto, desvanece a vantagem comparativa contra europeus e norte-americanos.

Acesso a crédito

O problema não deixa indiferente o governo de Beijing, porque as pequenas e médias empresas geram 60% do PIB e empregam 80% da população economicamente ativa do país.

As 10 milhões de empresas são, em sua maioria, instaladas nas regiões litorâneas da China e atuam nos setores de brinquedos, vestuário, móveis, equipamentos eletroeletrônicos e ocupam, em média, 100 a 200 trabalhadores.

Entretanto, o custo de produção aumenta, mas não existe outra solução para estas empresas. Porque sua imigração à “hinterlandia” chinesa exige elevado custo de transferência. O fator básico, contudo, é a falta de mão-de-obra experiente. E pela falta de técnicos especializados, muitos empresários são obrigados a abandonar sua tática e contratar jovens e solteiros trabalhadores, os quais custam bem menos.

Outros investem na moderna tecnologia tentando melhorar seus equipamentos mecânicos, reduzindo suas necessidades em mão-de-obra. O governo de Beijing, por sua vez, promete flexibilizar as exigências dos bancos para concessão de empréstimos, facilitando assim o acesso aos capitais, os quais até agora estão sendo canalizados às grandes empresas estatais.

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Fonte: Monitor Mercantil