Artigos

Ferozes leiteiros do mal

Carolina Ruy Publicado em 14.07.2010

A grande imprensa, em especial grandes emissoras de televisão, como a Rede Globo, se vale da máxima de Oscar Wilde: “a vida imita a arte”. Ainda mais, quando a arte é pitoresca e escatológica.

Daí extrai sua matéria-prima e oculta a má vontade em realizar um jornalismo de qualidade, realista, oportuno, interessante e crítico. Incitando a imaginação, esta imprensa confunde e oculta suas lacunas.

Desde que o Brasil encerrou sua participação na Copa do Mundo da FIFA, e o técnico da nossa seleção, o Dunga, foi grosseiramente demitido por um duvidoso Ricardo Teixeira, o escabroso caso do goleiro e ex-capitão do Flamengo, Bruno, dominou o conteúdo dos grandes jornais.

Temos sido bombardeados por detalhes deste filme de terror, ainda que isso não nos interesse. E a novela policialesca, como no caso Isabela e em tantos outros, busca, mais uma vez, alienar o público de assuntos sem tanto tempero: a política, a economia, a sociedade.

A tragédia de erros do goleiro Bruno, à exemplo do filme Fargo (Joel Coen), conta com uma inacreditável ocultação de cadáver. Como no filme, a vida humana é apenas uma peça indesejada em um tabuleiro. Ironias à parte, fora do terreno do simbólico, a realidade vai além do que a imaginação pode alcançar.

Por exemplo, se no filme Zodíaco (David Fincher), o assassino fazia dos tablóides, reféns de suas perversidades, chantageando os jornalistas de modo a obrigá-los a publicar seus “avisos”, o que temos visto é a TV se render de corpo e alma antes mesmo do bandido sacar a arma. E, em vez de ser refém, se esbaldar no crime, se embriagar de detalhes sórdidos e inúteis e gozar o prazer de criar monstros, vítimas e heróis.
Hoje, 09 de julho, liguei a TV pela manhã e vi que a “cobertura especial” produzida pelo canal Globo News gastou um tempo de seu custoso horário apenas mostrando imagens aéreas da prisão para a qual deveriam ser levados o goleiro e seus comparsas. A câmera chegou a dar um zoom em um grupo de presidiários tomando sol no pátio, com seus uniformes cor de laranja, em plena atividade cotidiana. Nada ocorria, mas para criar um clima de suspense hitchcockiano, o narrador in off intercalava a retomada do caso com informações sobre as atividades de Bruno naquele exato momento.

Exprimir ao máximo o potencial desta novela macabra é a ordem. Assim cada detalhe vira notícia. Delegados viram “celebridades” instantâneas. Casos antigos de atletas envolvidos em crimes graves são requentados.
O caso do goleiro Bruno e o brutal assassinato de sua ex namorado, Eliza Samudio, torna-se, desta forma, mais um enredo de programas de TV, um novo crime pra comentar.

Entre a orgia da realidade com a ficção e a intersecção da cultura com a vida, fico com a sobriedade do poeta Drummond que se pergunta: Crimes da terra, como perdoá-los? Na contramão desta apropriação perversa de “casos”, o poeta nos convida a uma reflexão mais cuidadosa: Homens voltam para casa, levam jornais e soletram o mundo sabendo que o perdem. Ração diária do erro, distribuída em casa.

____________________________________________________________________

Jornalista