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A banalização das crises

Manuel Maria Carilho Publicado em 09.07.2010

Com o descrédito que têm sido atingidos os economistas desde a eclosão da crise financeira em 2008, são poucos aqueles os que se têm imposto à atenção geral. Uma das excepções, e sem dúvida a mais notável, é Nouriel Roubini, que dois anos antes, a 7 de Setembro de 2006, numa reunião com economistas do FMI, conseguiu antecipar – quase passo a passo – a crise financeira que a seus olhos já então se tornava inevitável.

Na altura, acusado de pessimismo infundado por todo o statu quo, ninguém lhe prestou verdadeiramente atenção, até que os factos vieram dramaticamente dar-lhe razão. Claro que desde então, este americano nascido na Turquia, de pais iranianos, que estudou em Itália antes de se formar em Harvard e de se tornar professor na New York University, tem sido objecto de atenção cada vez maior – os conselhos da Roubini Global Economics são agora muito mais solicitados -, e agora corre o mundo a dar conferências e a expor as suas ideias.

Este trabalho foi agora sistematizado no livro Crisis Economics, que N. Roubini, com Stephen Mihm, escreveu, e que vale a pena ler com atenção. A ideia central, que contraria frontalmente o dogma da auto-regulação dos mercados, da sua estabilidade e da sua solidez, é que as crises não são a excepção da vida económica mas, sim, a sua regra, e que se tornaram um elemento intrínseco do capitalismo: “As crises são banais e repetitivas”, dizem Roubini e Mihm: elas “são um pouco como os furacões, ocorrem de um modo relativamente previsível, mas podem mudar de direcção, perder intensidade, tornar–se violentas quando menos se espera. Crisis Economics expõe os princípios que permitem identificar e vigiar as tempestades económicas, e, na medida do possível, antecipá–las e evitá-las. O livro apoia-se na crise recente para mostrar como é possível prever tais acontecimentos, preveni-los, afrontá-los e reparar os estragos que provocam. Procura mostrar como podemos reconstruir os nossos diques financeiros para limitar os efeitos das tempestades futuras. Porque o que acabamos de viver não é senão um preliminar do que nos espera: as crises farão parte do nosso futuro.” A partir desta perspectiva geral, Roubini e Mihm de-senvolvem várias linhas de argumentação, que vale a pena destacar.

Ora mostrando as raízes estruturais da crise que rebentou em 2008, e o absurdo de se fazer recair sobre o crédito hipotecário subprime uma situação extremamente complexa que se foi criando e consolidando durante duas décadas, por um lado com a proliferação de produtos financeiros tão esotéricos como opacos, por outro com a constituição de um poderosíssimo sistema bancário paralelo.

Ora insistindo no nefasto papel dos comportamentos, em que o risco se blinda em relação às suas consequências (que outros, claro, terão sempre que pagar) num verdadeiro branqueamento da irresponsabilidade e sublinhando o erro que é focar a crise actual na situação económica americana, quando ela tem uma inegável dimensão internacional.

Ora avançando com propostas, como: a de uma nova arquitectura financeira global com novas funções dos bancos centrais e do FMI; a da reforma da titularização, no sentido da sua minuciosa regulamentação; a da alteração da legislação das agências de rating , no sentido de eliminar os óbvios conflitos de interesse que as atravessam e de estimular uma verdadeira concorrência nesse sector; a do fim dos bancos “too big to fail”- um banco grande demais para falir é também, diz Roubini, um banco grande demais para existir.

Ora analisando as possíveis saídas da crise actual, os perigos que a União Europeia enfrenta (que Roubini pensa serem muito sérios), a singular situação do Japão, o potencial e os paradoxos dos países emergentes ou, ainda, as condições de formação de uma nova bolha.

Entrámos numa era, dizem Roubini e Mihm, que se pode designar como a era da Grande Instabilidade, porque o seu elemento central é um sistema financeiro mundial de alto risco que, devido “a um conjunto de factores que vão da deformação das estruturas de remuneração à corrupção das agências de rating, está completamente podre.”

Pena é que, assim sendo, o G20, que neste contexto deveria ter um papel decisivo na definição de respostas capazes a estes problemas, tenha, na sua reunião da semana passada no Canadá, deixado tudo na mesma no que diz respeito a regulamentação do sistema financeiro. Continuando os activos financeiros a representar várias vezes o PIB de todo o planeta, razão tem Jacques Attali quando observa que a única conclusão clara que se pode tirar desta cimeira é que a democracia continua a recuar face ao mercado… Até onde e até quando, é a grande questão.

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Fonte: jornal Diário Nacional