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Crise significa a morte do sonho europeu

Gideon Rachman Publicado em 19.05.2010

Com a promulgação do Tratado de Lisboa, no final do ano passado, alguns líderes europeus permitiram-se sonhar com uma nova ordem mundial, na qual a União Europeia (UE) seria finalmente reconhecida como uma superpotência mundial, de status comparável ao dos Estados Unidos e da China.Nas últimas semanas, a Europa certamente conquistou a atenção mundial, mas não da maneira que esperava. Em vez de admirar a UE por seu dinamismo e poder, o resto do mundo está assistindo com fascínio e horror à crise econômica europeia. Da perspectiva de Washington ou de Pequim, observar o esforço para salvar o euro se assemelha a assistir a um acidente de carro do outro lado da estrada. Já é suficientemente ruim ser um espectador, mas há ainda o medo de ser atingido por estilhaços.

Espectadores nos EUA e na Ásia têm boas razões para temer serem afetados pelo contágio de uma crise bancária ou da dívida soberana europeia. Até mesmo um longo período de depressão da demanda na UE – que ainda é, coletivamente, a maior economia no mundo – só poderá prejudicar a recuperação econômica mundial.

É natural que a atenção internacional esteja centrada primordialmente nos aspectos econômicos da crise na Europa. Mas há também consequências políticas mais amplas, embora menos imediatamente óbvias. É fácil zombar das pretensões das autoridades em Bruxelas. Mas o fato é que a UE representa – ou talvez representou – algo importante no cenário mundial.

O que a Europa representa não é tanto poder bruto, mas o poder de uma ideia – um sonho europeu. Para os internacionalistas em todo o mundo, para os que creem em uma cooperação mais profunda entre os países, para os que defendem o estabelecimento de uma ordem jurídica internacional, a UE é um facho de esperança.

Se a experiência europeia começar a se descosturar – após mais de 60 anos de laboriosos avanços, então as ideias que a Europa representa também serão fortemente prejudicadas. Ideias rivais – a primazia do poder sobre a lei, a supremacia duradoura do Estado-nação, o autoritarismo – podem ganhar terreno em seu lugar.

Os adeptos estrangeiros do sonho europeu não são apenas obscuros professores em faculdades americanas de humanidades, embora haja uma abundância deles. Entre os admiradores do sonho europeu estão o primeiro-ministro do Japão e o presidente dos EUA.

Pouco antes de assumir o cargo, Yukio Hatoyama, o primeiro-ministro japonês, defendeu a criação de uma moeda pan-asiática, tendo como modelo o euro, e citou os precursores da unidade europeia como fonte de inspiração pessoal.

Barack Obama, o presidente dos EUA, tem se mostrado muito menos aberto em sua admiração pelo modelo europeu. Os privilégios do poder americano e as restrições à política americana colocam fortes limites ao grau em que ele assumiria explicitamente a Europa como modelo.

Apesar disso, as políticas, tanto externa como interna, do governo Obama parecem muito mais “europeias” do que as do governo Bush. As reformas do presidente para o setor de saúde foram aplaudidas na Europa. E, se o governo Bush demonstrou abertamente, muitas vezes, desdenhar as ideias de política externa defendidas pelos “euroides” (para usar a expressão pejorativa usada por John Bolton, embaixador de Bush na ONU), o governo Obama mostra-se muito mais simpático.

O escritório de planejamento político no Departamento de Estado, que em épocas anteriores abrigou grandes pensadores, como George Kennan e Francis Fukuyama, é atualmente dirigido por Anne-Marie Slaughter, uma acadêmica e advogada internacional, defensora de que a ideia definidora da política externa do governo Obama é a crença de que os maiores problemas mundiais – como as mudanças climáticas e a proliferação nuclear – não podem mais ser resolvidos por ações isoladas dos EUA. Cooperação internacional é indispensável. Esse é o tipo de argumento que ouvimos o tempo todo em Bruxelas, mas não estava particularmente na moda na Washington de Bush.

Entretanto, a crise econômica europeia tornou a vida muito mais difícil para os americanos ou asiáticos que desejam argumentar que o resto do mundo deveria aprender com a Europa. Na semana passada, encontrei-me com um membro do establishment japonês que gargalhava diante da ideia de que seu primeiro-ministro em algum momento acreditara que a Europa poderia ser algum tipo de modelo. Nos EUA, a crise financeira europeia tem sido aproveitada por conservadores, que argumentam que a adesão de Obama ao suposto “socialismo” de estilo europeu levará os EUA à bancarrota.

Enquanto os admiradores da Europa no exterior estão na defensiva, os eurocéticos internacionais estão em ascensão. Charles Grant, diretor do Centre for European Reform, um centro de estudos pró-UE, diz ter ficado surpreso, em suas recentes viagens, com o crescente desdém pela Europa em Nova Déli, Pequim e Washington. “Somos vistos como atados a um permanente declínio econômico e demográfico, e nossas pretensões a poder bélico são tratadas com desprezo”, lamenta ele.

Poucos anos atrás, Jeremy Rifkin, um autor americano, publicou um livro chamado “O Sonho Europeu”, que causou grande estardalhaço em Bruxelas (onde fica a sede da UE). Rifkin, que, talvez não por coincidência, também escreveu um livro chamado “O Fim dos Empregos”, argumentava que a Europa era um modelo para o futuro. “Enquanto o espírito americano está definhando, está nascendo um novo sonho europeu “, escreveu ele. “É um sonho muito mais adequado à próxima fase da jornada humana – uma viagem que promete levar a humanidade a uma consciência mundial apropriada a uma sociedade cada vez mais interconectada”.

Relendo essas palavras hoje, não sei se é o caso de rir ou de chorar.

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Fonte: jornal Financial Times, no Valor Econômico