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Novas pesquisas, novo rumo para a produção de pescado

Altemir Gregolin Publicado em 05.05.2010

Temos cerca de 13% da água doce do mundo e mais de 8 mil quilômetros de costa marítima. Ótimo cenário para o desenvolvimento do pescado

Próxima de completar quarenta anos de existência, a Embrapa, criada em 1973, foi uma das grandes responsáveis pelo desenvolvimento do setor agropecuário brasileiro. As pesquisas e as tecnologias desenvolvidas ao longo desses anos foram fundamentais para dar ao nosso país um lugar de destaque na produção mundial do setor primário. Todo esse potencial e a experiência acumulada pela empresa se voltam agora para o setor da Pesca que, certamente, responderá à altura desse investimento científico e tecnológico que começa a ser feito.

A produção de pescado no Brasil entra numa nova fase a partir deste ano com a criação da Embrapa Aqüicultura e Pesca e com a implantação do Consórcio Nacional de Pesquisa, que vai integrar os órgãos dessa área de todo o país. Farão parte desse grupo instituições e empresas estaduais de pesquisa, entidades e universidades, que juntos desenvolverão novos conhecimentos em relação às principais espécies de pescado, especialmente àquelas com maior potencial de produção, manejo, nutrição e sanidade.

Ao longo dos últimos 50 anos, a pesca e a aquicultura foram deixadas de lado pelos sucessivos governos, cujas ações ficavam confinadas em restritos departamentos da administração pública, tanto na esfera federal, quanto na grande maioria dos estados. Somente a partir de 2003, com a implantação da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca (Seap) e, desde o ano passado, com a criação do Ministério da Pesca e Aquicultura foi que o setor passou realmente a estruturar uma cadeia produtiva do pescado, com linhas de crédito, assistência técnica, legislação específica, pesquisa, ordenamento, industrialização e promoção do consumo.

Essas ações que estão sendo desenvolvidas em todo o Brasil criam um novo e especial momento para a pesca e para a aquicultura nacional. Hoje, estamos consolidando uma verdadeira política de Estado para o setor, a partir da criação de instituições e leis que permitem a continuidade deste trabalho, independente de quem esteja à frente dos próximos governos.

A continuidade dessa política de longo prazo vai sinalizar aos investidores com a segurança necessária para o surgimento de novos empreendimentos na pesca e, principalmente na aquicultura, que sozinha representa 80% do nosso potencial de crescimento na produção de pescado. A transparência dessas ações e a estabilidade que vem sendo proporcionada ao setor já começam a render frutos. A criação em cativeiro vem exercendo um grande atrativo para novos investimentos nas mais diversas regiões do país.

Estamos criando as condições para que o Brasil seja um dos maiores produtores mundiais de pescado e nosso potencial aponta para este futuro promissor. Temos cerca de 13% da água doce do mundo e mais de 8 mil quilômetros de costa marítima. Possuímos espécies nobres de peixes e algumas criadas em cativeiro apresentam uma excelente rentabilidade. Na Região Norte do país, por exemplo, a atividade aquícola apresenta alta rentabilidade, chegando, em alguns casos, a garantir cerca de 10 vezes mais renda do que a produção de bovinos.

Todo esse potencial e as políticas que estão sendo colocadas em prática permitem projetar um aumento ano a ano do consumo de pescado, que hoje é de 7 quilos por habitante/ano, para 12 quilos anuais, recomendados pela Organização Mundial de Saúde. Nossa certeza está centrada no fato de que temos intensificado campanhas e programas de incentivo ao consumo, garantindo também a colocação no mercado de produtos de alta qualidade e oferta permanente.

Nossas iniciativas para o aumento constante na produção- e nesse caso a pesquisa terá um papel fundamental – também visam atender à crescente demanda mundial pelo pescado. Em 2030, o consumo em todo o planeta vai aumentar em 100 milhões de toneladas, que se somarão as 126 milhões de toneladas atuais, conforme previsão da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO. Ou seja, a produção de pescado em 20 anos terá que aumentar em 80% para atender a demanda mundial. Nosso potencial nos leva a crer que teremos condições de produzir 25% desse total nas próximas duas décadas.

O momento que estamos vivendo e a oportunidade que estamos tendo são singulares. Em nenhuma outra época do nosso país, tantas ações públicas foram desencadeadas para que a pesca e a aquicultura gerassem novas divisas, empregos e renda para todos no Brasil. Condições não faltam, investimentos se proliferam e, neste momento, o conhecimento científico mais do que nunca é elemento decisivo, para que possamos produzir pescado em maior volume, com maior qualidade e rentabilidade.

A criação da Embrapa, específica para o setor da Pesca, e a implantação do Consórcio Nacional de Pesquisa são um bom exemplo do quanto estamos avançando para fazer do Brasil o país do pescado.

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Altemir Gregolin é ministro da Pesca e Aquicultura

Fonte: jornal Valor Econômico