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A ira do Cinturão da Ferrugem

Noam Chomsky Publicado em 03.05.2010

No dia 18 de fevereiro, Joe Stack, um engenheiro de computadores de 53 anos, lançou seu avião monomotor contra um edifício em Austin, no Texas, atingindo um escritório da Receita Federal, cometendo suicídio, matando uma pessoa e ferindo outras.

Stack deixou um manifesto antigoverno explicando suas ações. A história começa quando ele era um adolescente que vivia de ninharias em Harrisburg, na Pensilvânia, próximo do coração do que uma vez havia sido um grande centro industrial.

Sua vizinha de 80 anos, que sobrevivia à base de comida de gatos, era a “viúva de um operário de usina siderúrgica aposentado”. O marido dela tinha trabalhado a vida inteira nas indústrias do centro da Pensilvânia com a promessa das grandes empresas e dos sindicatos de que, após 30 anos de serviços, ele poderia contar com uma pensão e assistência médica em sua aposentadoria.

“Em vez disso, ele foi um dos milhares que ficaram sem nada porque o incompetente gerente da usina e o sindicato corrupto (sem falar no governo) se apropriaram de seus fundos de pensão e roubaram suas aposentadorias. Tudo o que ele teve para se sustentar foi a Previdência Social”.

Stack poderia ter acrescentado que os muito ricos e seus aliados políticos também continuam tentando faturar a Previdência Social.

Stack decidiu que não podia confiar nas grandes empresas e que agiria por si próprio, apenas para descobrir que ele também não podia confiar em um governo que não se importa com nada em relação a pessoas como ele, mas apenas com os ricos e privilegiados; ou confiar em um sistema jurídico no qual “existem duas ‘interpretações’ para cada lei, uma para os muito ricos e outra para o resto”.

O governo nos deixa com “a piada que chamamos de sistema de saúde americano, incluindo as indústrias farmacêuticas e companhias de seguro (que) estão matando dezenas de milhares de pessoas a cada ano”, com uma assistência distribuída em grande parte conforme a riqueza, não a necessidade.

Stack atribui esses males a uma ordem social na qual “uma porção de bandidos e espoliadores podem cometer atrocidades impensáveis (…), e quando chega a hora de o trem da alegria deles sucumbir ao peso de sua gula e de sua devastadora estupidez, a tropa do governo federal não tem dificuldade em vir em sua ajuda em questão de dias, ou mesmo horas”.

O manifesto de Stack termina com duas sentenças evocativas: “A bandeira comunista: de cada um, conforme sua habilidade; a cada um, conforme sua necessidade. A bandeira capitalista: de cada um, conforme sua ingenuidade; a cada um, conforme sua ganância”.

Estudos comoventes sobre o Cinturão da Ferrugem (região no nordeste dos EUA cuja economia é baseada na indústria pesada e de manufatura; o nome é uma ironia referente à degradação da área e ao grande número de galpões abandonados) americano revelam um revolta semelhante entre indivíduos que foram deixados de lado à medida que os programas público-privados fecharam fábricas e destruíram famílias e comunidades.

Um forte sentimento de traição tomou rapidamente as pessoas que acreditavam terem cumprido seu dever com a sociedade em um pacto moral com o governo e as empresas, apenas para descobrirem que haviam sido nada mais que instrumentos de lucro e poder.

Semelhanças evidentes existem na China, a segunda maior economia do mundo, e são investigadas pela pesquisadora da Universidade da Califórnia (UCLA) Ching Kwan Lee.

Lee compara a revolta e o desespero da classe operária nos setores descartados dos Estados Unidos com o que ela chama de “cinturão da ferrugem da China” – o centro industrial socialista estatal no nordeste do país, atualmente abandonado em favor do desenvolvimento capitalista estatal do “cinturão do sol” do sudeste.

Em ambas as regiões, Lee encontrou massivos protestos de trabalhadores, porém com uma diferença. No cinturão da ferrugem chinês, os trabalhadores expressam o mesmo sentimento de traição de seus colegas americanos – no caso dos primeiros, a traição dos princípios maoístas de solidariedade e dedicação ao desenvolvimento de uma sociedade que eles pensavam ter sido um pacto moral, apenas para descobrirem que, independentemente do que fosse, hoje é uma fraude cruel.

No mundo inteiro, milhões de trabalhadores egressos dos sindicatos “são atormentados por um profundo sentimento de insegurança”, o que incita “a raiva e o desespero”, escreve Lee.

Os trabalhos e estudos de Lee sobre o cinturão da ferrugem americano deixam claro que não devemos subestimar a profunda indignação moral existente por trás da amargura furiosa e frequentemente autodestrutiva em relação ao governo e ao poder empresarial.

Nos Estados Unidos, o movimento ultraconservador Tea Party – e principalmente os círculos mais amplos que ele atinge – refletem o espírito de desencantamento. O extremismo anti-impostos do Tea Party não é tão imediatamente suicida como o protesto de Joe Stack, mas ainda assim é suicida.

A atual Califórnia é um exemplo dramático. O maior sistema público de ensino superior do mundo está se desmantelando.

O governador Arnold Schwarzenegger diz que terá de eliminar os programas estaduais de saúde e auxílio-desemprego, a menos que o governo federal desembolse mais de US$ 7 bilhões. Outros governantes estão se unindo a ele.

Enquanto isso, um recém-criado e poderoso movimento pelos diretos dos estados está exigindo que o governo federal não se intrometa em nossas questões – um belo exemplo do que Orwell chamava de “pensamento duplo” (doublethink, em inglês): a capacidade de sustentar duas ideias contraditórias enquanto se acredita em ambas, praticamente um lema na nossa época.

Os problemas da Califórnia resultam, em grande parte, do fanatismo anti-impostos. É praticamente a mesma coisa em todo lugar, até nos subúrbios afluentes.

Estimular o sentimento anti-impostos foi a base da propaganda empresarial. As pessoas devem ser doutrinadas para odiar e temer o governo, por boas razões: dos sistemas de poder existentes, o governo é aquele que – em princípio e, algumas vezes, de fato – responde ao público e pode restringir os estragos feitos pelo poder privado.

Porém, a propaganda antigovernamental deve ser matizada. Os negócios, é claro, favorecem um estado poderoso que trabalha pelas multinacionais e instituições financeiras – e até as socorre quando destroem a economia.

Mas, em um brilhante exercício de pensamento duplo, as pessoas são levadas a odiar e temer o déficit. Dessa forma, os grupos ligados ao setor empresarial em Washington podem concordar em reduzir benefícios e direitos sociais como a Previdência Social (mas não o socorro financeiro a empresas e bancos).

Ao mesmo tempo, as pessoas não devem se opor ao que está, em boa medida, criando o déficit – o crescente orçamento militar e o irremediavelmente ineficiente sistema de saúde privatizado.

É fácil ridicularizar a forma como Joe Stack e outros como ele articulam suas preocupações, mas é mais apropriado entender o que está por trás de suas percepções e atitudes, em um momento em que as pessoas com insatisfações reais estão se mobilizando de tal forma que representam perigos não desprezíveis para si e para os outros.

(O novo livro de Noam Chomsky’, recém-publicado, é “Hopes and Prospects” – Esperanças e Perspectivas, em português. Chomsky é professor emérito de linguística e filosofia no Massachusetts Institute of Technology, em Cambridge, Massachusetts.)

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Noam Chomsky é professor emérito de lingüística e filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge, Massachusetts. Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.

Fonte: The New York Times, na Terra Magazine