Artigos

(Re) Descobrindo o cinema chinês dos “17 anos”: 1949-1966

Ma Laohan Publicado em 14.04.2010

No Festival de Cinema de Nova Iorque de 2009 (2009 New York Film Festival), a Sociedade de Filmes do Lincoln Center exibiu série inédita de filmes chamada “[(Re)inventando a China: um novo cinema para uma nova sociedade, 1949-1966” [(Re)Inventing China: A New Cinema for a New Society, 1949-1966].

Praticamente todos os filmes chineses desse período “dos 17 anos” têm sido descartados do circuito de festivais e sessões para cinéfilos por serem considerados filmes de propaganda. São descartados pelos mesmos especialistas ocidentais e críticos que, periodicamente, ‘descobrem’ e celebram obras-primas do cinema chinês da era republicana ou da era pós-Mao. Considerado esse descaso já consagrado como ‘tendência’ crítica, a simples decisão do Lincoln Center, de organizar essa mostra, sob o selo prestigioso das “Obras-primas dos Festivais de Cinema de NY”, já permite pensar num grande passo adiante, para todos os que sabem que o cinema chinês desse período ainda espera melhor crítica dos críticos ocidentais. O programa inclui filmes de diferentes gêneros e estilos, há décadas considerados clássicos na China.*

O evento teve sua cota de desapontamentos. Vários dos filmes não foram exibidos em cópia de 35mm (em parte porque os Arquivos do Filme Chinês não manifestam muito empenho em emprestar suas preciosidades, sequer para instituições respeitadas como o Lincoln Center). Por isso, alguns filmes foram projetados em vídeo, não em tela no formato original. Também desapontou o pequeno público em várias sessões. O público parecia constituído mais de sinófilos que de cinéfilos, sendo que sempre havia mais cinéfilos em outras sessões de outros filmes que não os chineses.

A falta de interesse que a série despertou é resultado sem dúvida do predomínio, no ocidente, do discurso que a Guerra Fria construiu e distribuiu sobre a China moderna. Sob o moralismo e os preconceitos simplórios e sufocantes daquele ponto de vista, qualquer produção da era Mao sempre seria vista com suspeição e, mais do que isso, sempre foi analisada como alguma espécie ridícula de kitsch ‘revolucionário’ ou perigoso trabalho de propaganda, para inculcar a pregação maoísta em hordas de chineses pressupostos ou imbecis ou assassinos.

Para encaminhar a discussão daqueles filmes, providenciamos aqui uma lista dos preconceitos viciosos que subjazem à indiferença com que o grande público encarou os filmes chineses e a hostilidade com que têm sido tratados também pelos sinólogos da academia ocidental.

1. Os filmes chineses da era Mao sacrificam a arte à política.

O simples fato de alguém ver dilema entre arte e política já é resultado de pressupostos ideológicos que o cinema da era Mao declaradamente rejeitou. A ideia de que política e estética sejam esferas separáveis, com cada uma perdendo algo de sua integridade, se perde autonomia para a outra, é dogma exclusivo da modernidade capitalista, e cultivado pelo cinema da modernidade capitalista. Os melhores filmes da era Mao são muitas vezes obras primas de cinema, de edição, de mise-en-scene, o que vale tanto para os filmes mais explicitamente didáticos quanto para os menos políticos. Assim se vê que esses filmes ajudam a mostrar como pura construção ideológica, como ficção, a ideia de que algum lado tenha de ceder, entre arte e política.

Em “Fala ao Fórum de Literatura e Arte de Yanan[1],” Mao diz que “o que exigimos é uma unidade de política e arte, uma unidade de conteúdo e forma, uma unidade de conteúdo político revolucionário e a mais alta forma artística. Obras de arte que não tenham qualidade artística não são efetivas, por mais politicamente progressistas que suponham ser.” Intelectuais e críticos ocidentais que descartam essa exigência como preconceituosa revelam mais dos próprios arraigados preconceitos ideológicos do que qualquer qualidade artística menor nos artista s comunistas.

2. Os filmes da era Mao são repetitivos, tediosos e de temática homogênea.

Esse truísmo raramente questionado no ocidente é sempre repetido pelos pressupostos mais informados, e a ampla aceitação que encontra revela o quanto é ampla a ignorância sobre esse período da história do cinema chinês.

O cinema desse período produziu comédias, musicais, dramas, animações, épicos de guerra, sagas, óperas tradicionais, filmes infantis e thrillers de espionagem. Mesmo na estrita categoria genérica de melodrama revolucionário – que parece ser o único foco dos que dizem que esses filmes seriam repetitivos e tediosos, como se só assistissem ao que consideram repetitivo e tedioso – há grande variedade de tom e técnica, ainda que se considere, por exemplo, só a década entre, digamos Bai mao nü (A menina de cabelo branco, 1950, não exibido no festival) e Hongse niangzi jun (Destacamento Vermelho Feminino, 1961). Mais importante que isso, focar apenas os filmes que glorificam a revolução é ignorar muitos filmes diferentes, desde uma comédia como Nü lifashi (A cabeleireira, 1962), que critica a hipocrisia e o sexismo ativo na economia comunista burocrática, ou o filme-ópera Zhui yu (Em busca do peixe fantasma, 1959, não exibido no festival), no qual o deus ex machina é a deusa budista Guanyin, que desce dos céus para acertar tudo – ‘solução’ que dificilmente se encaixaria na linha dos slogans maoístas.

A variedade do cinema desse período é ampla e merece muito mais atenção e estudo do que tem recebido até agora, mesmo dentro da China. De fato, é tal a diversidade nesse corpo de trabalho que é praticamente impossível reunir todos os filmes sob um mesmo rótulo. É preciso fracionar o que se classifica aqui como cinema “dos 17 anos” em categorias mais finas, para melhor analisar subperíodos históricos, gêneros, studios de produção, diretores etc., e construir melhor conhecimento sobre esse específico cinema.

3. Os filmes da era Mao são excessivamente ideológicos e opressivamente óbvios, feitos para sufocar o espectador com propaganda política massiva.

Considerando apenas os filmes recentemente exibidos no Lincoln Center, chama atenção, isso sim, o quanto estão distantes dessa avaliação. Mesmo entre os que tratam explicitamente da história da revolução comunista, só Hong qi pu (Mantenha bem alta a bandeira vermelha, 1960) pareceu-me mais próximo da pura propaganda, narrativa da ação de um grupo de camponeses movidos espontaneamente para a revolução, muito próxima da narrativa revolucionária nacional padrão. Os outros filmes revolucionários são ricos de sutilezas. “Destacamento Vermelho Feminino”, por exemplo, é obra prima de timing e caracterização, com um romance que acrescenta carga libidinal ao crescente envolvimento da heroína na luta coletiva que, adiante, ela lidera.

Da Li, xiao Li he lao Li (“Grande Li, pequeno Li e velho Li”, 1962) é excelente comédia sobre uma campanha de educação física numa fábrica de embalagem de carne. Leitura à moda da Guerra Fria, talvez inflada por algum Foucauldianismo reduzido, diria que o filme prega a disciplina do corpo para servir às causas do comunismo e do nacionalismo. Ainda que se aceitasse momentaneamente esse quadro teórico, seria preciso saber ver as ambiguidades do filme. As cenas hilárias das rotinas de exercício do grupo têm de ser vistas como crítica à cultura de massa homegeneizada, por exemplo; e o filme não celebra corpos saudáveis em geral, mas, especificamente, o corpo de Xiao Li, uma espécie de Elvis-chinês. De fato, o filme deu destaque social e prestígio político a uma geração de homossexuais, homens e mulheres, numa linha que nada tem a ver com nacionalismo. Não se ou vem no filme, nenhuma vez, as palavras “socialismo”, “patriotismo”, nem “China”. Interessante, aí, é investigar de onde brotam as críticas que ensinam a ‘ver’ o que de fato não há nesses filmes.

Por fim, há a sensacional comédia Qishi’er jia fangke (“A casa dos 72 inquilinos”, 1963), onde nada há que faça pensar em propaganda. Poderia ser filme de Hong Kong, de onde, aliás, saiu metade da produção, refilmado pelos irmãos Shaw, alguns anos depois. Nenhuma referência ao partido, ao socialismo ou à revolução; no máximo, o populismo de ‘pobres-contra-ricos’ que se vê em muitos filmes de Hollywood. “A casa dos 72 inquilinos” também tem história que se pode rastrear, para trás, diretamente à era dos clássicos republicanos como Wuya yu maque (“Corvos e Pardais”, 1949) e, adiante, até Gongfu de Stephen Chow (Kung Fu, 2004) – o que faz desse filme um dos que mais fortemente sugere que o cinema da era Mao não pode ser corretamente analisado se se o separ a do resto da história do cinema chinês.

4. [Semelhante ao preconceito 3] O cinema da era Mao visa a manipular a consciência do público, com mensagens subliminais, doutrinação política e golpes ideológicos disfarçados.

Os filmes que tenham mensagem política ou ideológica quase sempre a apresentam em termos claros e fazem conscientemente propaganda. Se se analisam os filmes neles e por eles mesmos, em vez de insistir em vê-los através das lentes do capitalismo liberal, o que surpreende não é alguma agenda política dissimulada ou algum projeto de manipulação, mas, ao contrário, os diferentes modos como a agenda política é exposta com clareza e, muitas vezes, com rica complexidade. Pode-se pensar, por exemplo, em Nihongdeng xia de shao (Sentinelas sob luz neon, 1964), que mostra combatentes veteranos do Exército de Libertação do Povo, estacionados na estrada Nanjing, recentemente libertada em Xangai em 1950. Ali, onde, essencialmente, fora o marco zero do capitalismo semicolonial da China Nacionalista, os soldados têm de enfrentar as tentatações do individualismo burguês. Longe de ser diatribe maoísta totalitária, o filme é mostrado sob luz suave, com humor, uma câmera inventiva e surpreendente, e vários personagens ‘de meio termo’, boas pessoas ‘normais’ que padecem de vários graus de fragilidade. O filme enfrenta, sim, os termos da própria intervenção ideológica: os valores hedonistas e individualistas do capitalismo são confrontados com os valores coletivistas e ascéticos do Exército Vermelho – e o filme, de fato, é excelente exemplo de como o legado problemático da Xangai modernista é discutido e enfrentado no discurso da República Popular da China, depois da libertação.

Exemplo final é Liehuo zhong yongsheng (Viver para sempre nas chamas ardentes, 1965), narrativa de um grupo de revolucionários clandestinos que são capturados em Chongqing e têm de sobreviver a tortura, a greves de fome e mais, num campo nacionalista de prisioneiros. Há quem suponha que esse tipo de melodrama revolucionário tenha de ser necessariamente propaganda; e há, sim, elementos de propaganda, como a sequência na qual os dois protagonistas são levados para serem executados, horas antes de Chongqing ser libertada pelos comunistas que se aproximam; mas essa sequência, de fato, é do paradigma desse gênero de filmes. Basta lembrar que o filme não é absolutamente diferente dos filmes de Hollywood cujos protagonistas sejam prisioneiros em campos, como The Great Escape (“Fugindo do Inferno“, 1963) ou The Hanoi Hilton[2] (1987).

De fato, em termos dos pressupostos não criticados sobre a ‘bondade natural’ dos prisioneiros, a ‘maldade natural’ dos guardas, a ‘justiça natural’ da causa dos heróis, ou o apelo direto às emoções do público, convertido em testemunha ocular dos sofrimentos do herói, praticamente não há diferença alguma entre o filme chinês e os filmes de Hollywood, em matéria de propaganda e manipulação das massas.

(…) Em resumo, pode-se dizer que os filmes chineses reunidos na mostra “17 anos” não são mais ideológicos que os filmes mais típicos da mesma era, feitos em Hollywood. Em vários sentidos, todos esses são filmes de propaganda; mas os filmes de Hollywood são vistos sob preconceitos ideológicos diferentes.

Hoje, intelectuais e críticos chineses trabalham para que todo o mundo consiga livrar-se das sombras da Guerra Fria, em todas as áreas de estudo e no discurso público mais amplo. Assim, será possível conhecer a cultura da era Mao e, afinal, apreciar o padrão de inteligência, riqueza, sutileza, finura e complexidades que há no cinema e em outras manifestações artísticas daquele período.

___________________________________________________

* Os filmes exibidos foram: Antes da chegada do novo Diretor / Xin ju zhang dao lai zhi qian,

Lü Ban, China, 1956, 70m; Grande Li, Pequeno Li e velho Li / Da Li, Xiao Li he Lao Li, Xie Jin, China, 1962, 100m; Ponte / Qiao, Wang Bin, China, 1949, 100m; Família / Jia, Chen Xihe e Ye Ming, China, 1957, 130m; Cinco Flores Douradas / Wu duo Jinhua, Wang Jiayi, China, 1959, 100m; Mantenha bem alta a bandeira vermelha / Hong qi pu Ling Zifeng, China, 1960, 107m; Li Shuang Shuang, Lu Ren, China, 1962, 110m; Viver para sempre nas chamas ardentes / Lie huo hong yong sheng, Shui Hua, China, 1965, 138m; Misterioso companheiro de viagem / Shen mi de lu ban , Lin Nong e Zhu Wenshun, China, 1955, 100m; Sacrifício de ano-novo / Zhu Fu , Sang Hu, China, 1956, 100m; Nie Er Zheng Junli, China, 1959, 130m; Guan, comandante de batalhão / Guan lian zhang, Shi Hui, China, 1951, 120m; Destacamento Feminino Vermelho / Hong se niang zi jun, Xie Jin, China, 1961, 115m; Sentinelas sob luz neon / Ni hong deng xia de shao, Wang Ping e Ge Xing, China, 1964, 130m; A casa dos 72 inquilinos / Qi shi er jia fang ke, Wang Weiyi, China, 1963, 90m; Essa minha vida, também conhecido como A vida de um policial em Pequim / Wo zhe yi bei zi, Shi Hui, China, 1950, 110m; Irmãs em dois estágios / Wutai jiemei, Xie Jin, China, 1965, 112m; Visitantes na montanhas geladas / Yi ge shi zhe dui sheng zhe de fang wen, Zhao Shinshui, China, 1963, 100m; A jogadora de basquete n. 5 / Nü lan wu hao, Xie Jin, China, 1957, 94m; e A Cabeleireira / Nu li fa shi, Ding Ran, China, 1962, 100m.

Há curtas sinopses dos filmes e comentários em http://www.filmlinc.com/nyff/china.html e algumas imagens em http://www.filmlinc.com/nyff/masterworks.html (NT).

[1] Em inglês, em http://www.marxists.org/reference/archive/mao/selected-works/volume-3/mswv3_08.htm.

Também traduzido como “Reforma na aprendizagem, no partido e na literatura”. Sobre isso ver APTER, David E. (& Tony Saich) (1994). Revolutionary Discourse in Mao’s Republic. Cambridge, MA: Harvard University Press (NT).

[2] “Hanoi Hilton” é o nome que os soldados dos EUA davam à penitenciária de Hao Lo, em Hanói (NT).

_____________________________________________________

China Study Group – http://chinastudygroup.net/2010/03/chinas-seventeen-years-on-film/

Veem-se imagens, trailers e comentários sobre os filmes, em

http://alsolikelife.com/shooting/2009/11/a-revolution-on-screen-the-cinema-of-the-peoples-republic-of-china-1949-1966/

______________________________________________________

Tradução: Caia Fittipaldi